Restos mortais de Nicolau Lobato foram enterrados

Os restos mortais de Nicolau Lobato, herói da luta pela independência de Timor-Leste "foram enterrados em Timor", disse hoje à Lusa Francisco Lopes da Cruz, que à data da morte do guerrilheiro era vice-governador do território.


Residente em Jacarta, Lopes da Cruz foi contactado telefonicamente pela Lusa a partir de Lisboa, e recordou que em 1978, quando Nicolau Lobato foi morto em combate, "estava a exercer a função de vice-governador em Timor. Pelo menos a notícia que chegou ate mim é que (Nicolau Lobato) foi enterrado, com todas as cerimónias militares".

Lopes da Cruz foi partidário da integração de Timor na Indonésia e trabalhou com os últimos cinco Presidentes indonésios, de quem foi sempre conselheiro e, a partir da presidência de Megawati Sukarnoputri, embaixador na Grécia, onde esteve entre 2000 e 2003, e depois, já com o actual chefe de Estado, Susilo Bambang Yudhoyono, embaixador em Portugal, entre 2005 e 2008.

Lopes da Cruz salientou ainda à Lusa que as informações que tem sobre Nicolau Lobato lhe foram transmitidas pelos militares indonésios e que tem indicação de que às cerimónias fúnebres de Lobato assistiram o então governador Guilherme Gonçalves e o então bispo e Díli, D. Martinho da Costa Lopes.

"Não sei onde foi enterrado. Parece que no sítio onde ele foi atingido. Acho que na parte central de Timor. Não sei exactamente onde. Naquela altura até correu o boato que foi enterrado no cemitério dedicado aos heróis da Indonésia em Timor. Não sei se é verdade ou não, mas não foi identificada a sua campa, talvez para evitar demonstrações e sei lá outras coisas mais", disse.

O cemitério referido por Lopes da Cruz não é o de Santa Cruz, mas sim um dos muitos espalhados pelo país, onde estão sepultados indonésios e timorenses que lutaram ao lado do ocupante.

A referência à devolução dos restos mortais de Nicolau Lobato foi feita pelo Presidente José Ramos-Horta no discurso da cerimónia dos dez anos da consulta popular de 30 de Agosto de 1999, realizada domingo no novo palácio presidencial, a que foi dado justamente o nome de Nicolau Lobato.

Na ocasião, o chefe de Estado timorense pediu a devolução do corpo do antigo líder da resistência, morto em combate no último dia de 1978.

Já hoje, em Díli, o líder da Fretilin, Mari Alkatiri, disse que o Presidente da República tem todo o apoio do partido para reclamar a devolução do cadáver de Nicolau Lobato e que ele próprio, quando era primeiro-ministro, já o tinha feito.

"A posição do Presidente da República tem todo o nosso apoio, mas não é nova. Quando fui primeiro-ministro de Timor-Leste levantei várias vezes a questão da identificação da campa e devolução dos restos mortais de Nicolau Lobato", relatou Mari Alkatiri à Lusa.

O ex-primeiro-ministro e presidente da FRETILIN admite que é a primeira vez que o chefe de Estado o reclama publicamente, mas o assunto foi por si abordado insistentemente e perante três responsáveis máximos indonésios: com Abdurrahman Wahid, com Megawati Sukarnoputri e com o actual e reeleito chefe de Estado do país vizinho, Susilo Bambang Yudhoyono, nas negociações para a constituição da Comissão de Verdade e Amizade, que decorreram em Bali, na Indonésia.

"Não fiz nenhuma reclamação pública porque entendi que era uma questão que deve ser conversada com a outra parte e não exigida em público. O Presidente da República, Ramos-Horta, sabe-o bem porque participou no encontro com Megawati em que o assunto foi abordado", disse.

A este respeito, Francisco Lopes da Cruz diz não estar surpreendido com a iniciativa dos timorenses.

"A Indonésia e Timor-Leste têm as melhores relações e, é claro, Nicolau Lobato é um herói da independência e têm todo o direito, pelo menos de perguntar à Indonésia, onde é que está sepultado, para poder prestar as devidas honras", vincou.

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