Macau: funcionários de casinos gostam de jogar

A generalidade dos trabalhadores dos casinos "sente-se motivada" para as apostas nas mesas de pano verde por considerarem ser uma "forma fácil" de fazer dinheiro, revela um estudo a que a agência Lusa teve acesso.

O estudo, feito através de inquéritos diretos aos trabalhadores dos vários operadores de jogo em Macau, contém uma amostra de 817 funcionários - cerca de dois por cento do universo total - e conclui que, além de ser uma forma fácil de fazer dinheiro, o jogo é encarado também como um "escape ao 'stress' diário" a que estão sujeitos os trabalhadores.

Carla Coteriano, autora do estudo que serviu de base para a sua tese de mestrado sobre jogo responsável e atualmente a trabalhar na Galaxy Entertainment Group, um dos operadores de casino de Macau, salienta também que os funcionários dos casinos, proibidos de jogarem em "casa", são tentados pelo convívio diário com as mesas de jogo, mas mostram-se "mais protegidos" das apostas quando possuem uma relação estável nas suas vidas pessoais.

Com análises comparativas a demonstrarem, através de outros estudos, que viver a menos de 16 quilómetros de um casino aumenta para 90 por cento a possibilidade de uma pessoa se transformar num jogador problemático, Carla Coteriano afasta, contudo, essa realidade de Macau, até pela reduzida dimensão da cidade - 30 quilómetros quadrados divididos entre a península de Macau e as ilhas da Taipa e de Coloane.

"Não será, diretamente, o convívio visual direto com espaços de jogo que aumenta a apetência pelo jogo e o jogo problemático", avaliou.

Em Macau, salientou, a dimensão da cidade não permite localizar os casinos fora de portas e existem outras formas de "minimizar os danos causados pelo jogo problemático" como a educação cívica, educação nas escolas, e "proporcionar à sociedade maior visibilidade, disponibilidade e frequência de informação sobre o jogo responsável e jogo problemático".

"Atualmente existem mecanismos para reforçar o jogo responsável e, por exemplo, na Galaxy aplicamos diversas medidas para fazer face aos danos causados pelo jogo problemático, de forma adequada e eficaz", disse, exemplificando com ações de formação, seminários e 'workshops' para os membros da equipa e na gestão do 'stress' do trabalho.

No entanto, defendeu, a "eficácia da implementação de medidas para combater o jogo problemático deve ser vista a longo prazo, e não seria realista perspetivar resultados imediatos".

Recentemente alguns deputados sugeriram que se deveria aplicar aos trabalhadores dos casinos a mesma proibição feita aos funcionários públicos, que apenas podem jogar nos feriados do Ano Novo Lunar, como forma de impedir o crescimento, "apesar de gradual", do jogo problemático em Macau.

"Poderia ser uma forma de impedir o crescimento, natural e previsível, do jogo problemático em Macau", mas não se pode pensar que os problemas se resolvem com uma simples proibição, até pelas dificuldades inerentes e falhas possíveis do controlo da eficácia dessa medida, disse.

Os custos sociais e económicos do jogo problemático com relevância nas famílias e na sociedade está reconhecido, mas existe uma dificuldade no entendimento do problema e da necessidade de ajuda por parte do jogador oriental ainda é sentido como uma "perda de face".

"Até agora o jogo era visto como uma prática comum, aceite a nível social e familiar e não se abordava a questão do distúrbio psicológico com necessidade de ajuda profissional", disse Carla Coteriano, ao salientar que a abordagem ao problema "está a mudar" com grupos de trabalho quer ao nível oficial quer ao nível das próprias empresas.

Por isso, sustentou, há que continuar a trabalhar, a definir programas de apoio, de educação cívica que permitam construir uma sociedade baseada em valores de sustentabilidade e que encarem o jogo como um divertimento potenciando todas as componentes dos "resort" construídos na cidade.

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