Moçambique: Criar Futuro

Em Moçambique, na língua nativa mais falada entre as 13 existentes - eMakhuwa (Língua Macua) -, foi preciso incorporar do Português palavras como "preocupação", "possibilidade", "solução" ou "dia seguinte". Antes da convivência com os colonizadores, esses conceitos não existiam naquelas comunidades, tal como não havia algo que significasse "escola". Não tinham necessidade de as ter, porque não existia e, para muitas populações em meio rural (que perfazem hoje 70% dos cidadãos da República de Moçambique), ainda não existe a noção no seu dia a dia de futuro e da possibilidade de o ir construindo. A vida é uma repetição do passado, numa luta diária pela sustentação da vida, sempre à beira do limiar de subsistência.

Neste contexto social, económico e cultural, promover uma política de desenvolvimento é muito mais do que dar dinheiro ou bens - é criar futuro em cada uma daquelas comunidades rurais. É o que a Associação Helpo, ONGD que trabalha na área da educação e protecção à infância, e que promove um programa de Apadrinhamento de Crianças à Distância, tem procurado fazer, desde 2007, no norte de Moçambique e desde 2009, em São Tomé e Príncipe. Para além de uma direção, em regime de voluntariado, a Helpo conta hoje com 6 quadros no terreno (4 em MOZ, 2 em STP), 6 nos escritórios de Cascais e Porto, completados por 13 voluntários e estagiários portugueses, bem como 30 animadores de escola moçambicanos, para realizar essa tarefa.

O foco é posto nas escolinhas e nas escolas primárias, combatendo o absentismo e a subnutrição e envolvendo cada comunidade na promoção da instrução das suas crianças. Na província de Nampula, isso passa-se em 21 pontos de intervenção de 16 comunidades, situadas em 4 distritos. Na de Pemba, em 8 frentes de trabalho de 6 comunidades rurais, localizadas em 4 distritos. (Em São Tomé e Príncipe, os números correspondentes são, 10 pontos de intervenção, em 7 comunidades de 4 distritos.)

Com que meios financeiros contamos? Com as contribuições mensais de 3 300 padrinhos, que constituem quatro quintos dos 800 000 euros recebidos em 2014, através de diversas modalidades de apadrinhamento (que podem ser consultadas em www.helpo.pt); o restante quinto provem de doações de amigos nossos, cidadãos individuais ou empresas. E o "milagre" da multiplicação de contributos (que correspondem a uma bica por dia...) traduziu-se, até agora, na construção em Moçambique de 13 edifícios escolares, 9 bibliotecas e ludotecas, um recinto multidesportivo; 7 poços e sistemas de aproveitamento de água pluvial; de assistência alimentar constante, distribuição regular de material escolar, de um Carro das Histórias, de acções comunitárias para a promoção da segurança alimentar. Existe uma relação direta, pessoal, entre os 3 300 padrinhos em Portugal e os seus 3 500 afilhados em MOZ e STP, mas os programas acima enunciados, beneficiam por igual cerca de 11 000 crianças naqueles países.

É para ver e tentar melhorar tudo isto, que me desloco a Moçambique, na qualidade de presidente da direção da Helpo. E tenho o gosto de o poder relatar aos leitores do DNonline, nas próximas 3 semanas, no meu diário de viagem. Para criar mais futuro.

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