Helpo em Moçambique. As gazelas de Munimaca

Trajeto de carro de Pemba para Nampula (capital da província com a maior implantação da Helpo), com paragens obrigatórias nas Missões de Alua e Netia, cujas bibliotecas foram equipadas e recheadas de livros pela Helpo. O primeiro dia de visitas na Província de Nampula foi centrado no distrito de Murrupula, a 125 km a sudoeste da capital. Dizer a distância não chega, é preciso ir ao concreto: depois de 80 km de boa estrada alcatroada até à sede do distrito de Murrupula, prosseguimos por uma picada, ao longo de uns 45 km, com troços quase intransitáveis devido à época das chuvas - este ano particularmente rigorosa. Levámos, assim, mais de uma hora para percorrer este troço do nosso caminho, embrenhados no Moçambique mais profundo e isolado da vida urbana. O objetivo era realizar a visita mensal a três pequenas comunidades rurais, sucessivamente, Ilocone, Mahunha e Munimaca.

Aqui não houve cerimonial, nem cânticos de boas vindas. Antes a tranquila espera de quem sabia que o encontro acordado há um mês para esse dia seria cumprido. Nas duas primeiras comunidades juntaram-se à sombra as dezenas de crianças de cada escolinha, rodeadas das suas mamãs, quase todas elas a carregarem ou a darem de mamar a bebés, irmãos mais novos dos que andam no infantário. Os pais aparecem em muito menor número. O tempo aqui parece em repouso; tudo é feito com vagar, as falas, as apresentações, os pedidos, a entrega de farinha, arroz, açúcar e óleo, para a confeção diária das papinhas na escolinha. Finalmente, procede-se à chamada das meninas e dos meninos dela, que têm de estar presentes para poderem receber a sua barra de sabão, que há-de ser usada até à próxima entrega da Helpo.

Em Mahunha, aproveitando a minha presença, surge de novo o pedido de ajuda para reconstruir um novo edifício para a escolinha, já que as paredes do anterior haviam sido destruídas pelas chuvas. É um tema já recorrente, ao qual a Helpo dá sempre a mesma resposta: organizem-se os homens para erguer as paredes, nomeiem um mestre de obra entre eles, e a Helpo fornecerá chapa de zinco e o oleado para a cobertura, bem como o cimento necessário para o soalho e reforço da construção. Tal como acontecera já, ao lado, em Ilocone. Sem o envolvimento empenhado da comunidade, nada feito!... Todos concordam; veremos quando é que a obra poderá arrancar.

Finalmente, rumamos à comunidade mais distante, a Munimaca. Para além da sua escolinha, junto da qual tudo se passa como foi acima descrito, deslocamo-nos uma centena de metros para o recinto da sua Escola Primária, com 3 salas construídas em materiais tradicionais, na qual estudam, da 1ª. à 5ª. classe, uns 140 alunos. Quando chegámos, estavam quase todos à nossa espera, alinhados por classes e enquadrados pelo diretor mais uma professora e um professor, o corpo docente da escola. Também apareceram umas duas dezenas de alunos da 6ª. classe, a estudar nas redondezas - para poderem receber, também elas, a sua, desta feita, meia barra de sabão, como todos os demais alunos da EP de Munimaca.

Assisti a uma entrega ao afilhado das prendas enviadas de Portugal pela sua madrinha (tudo devidamente fotografado, para ela ter a recordação desse momento), à prova do uniforme escolar para o secundário de uma aluna, que entrou agora no ensino secundário (8ª. classe), bem como ao pagamento de uma matrícula no mesmo ano de um outro menino, cujo pai já o tinha inscrito e seria agora ressarcido da despesa. Tiraram-se fotos de uma dezena de afilhados presentes, para que, em Portugal, os seus padrinhos e as suas madrinhas, possam ter uma noção do crescimento deles. Ao despedirmo-nos, em gesto de agradecimento, os visitantes da Helpo foram presenteados, com maçarocas de milho e com duas galinhas, bem vivas.

Enquanto se ia procedendo a todos estes trâmites, eu, do alto do meu 1,90 m, "mucunha" (branco em língua Emakhua)) de porte volumoso e barba branca, desconhecido naquelas paragens, aproximei-me dos alunos alinhados o que provocou uma inesperada e espontânea debandada geral. Senti-me como um leão a perseguir uma manada de gazelas em plena savana africana. A coisa repetiu-se, já com muita risada à mistura e à terceira, avancei de mansinho ao ver um menino, a pé firme, a encarar-me com ar sério, sem se mexer. Estendi-lhe a mão, ele apertou-a, e os colegas, que haviam fugido, voltaram para junto de nós e rodearam-no . Quem sabe se não terei estado na presença de um futuro líder...

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