15 mil bebés nascem e morrem por dia sem ser registados

Todos os dias, 15 mil bebés nascem e morrem sem chegarem a ser registados, o que mostra que o mundo vê as mortes de recém-nascidos como inevitáveis, quando a maioria podia prevenir-se, alerta hoje a revista Lancet.

Numa série especial sobre a mortalidade neonatal, que reúne o contributo de 54 especialistas de 28 instituições em 17 países, a revista científica diz apresentar o quadro mais claro de sempre sobre as hipóteses de sobrevivência de um recém-nascido e os passos que devem ser tomados para reduzir as mortes de bebés.

Num comunicado em que sumariza os cinco artigos da série, a Lancet conclui que quase todos os 5,5 milhões de nados-mortos e recém-nascidos que morrem anualmente entram e saem do mundo sem nunca receberem um documento.

"Esta falta de registo reflete a aceitação do mundo de que estas mortes são inevitáveis. Este fatalismo, falta de atenção e falta de investimento são os motivos por detrás do lento progresso na redução da mortalidade neonatal e de um progresso ainda mais lento na redução dos nados mortos. Na realidade, estas mortes são quase todas evitáveis", diz a coordenadora da investigação, Joy Lawn, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.

Citada no comunicado, a investigadora deixa o alerta: "Contar e dar um nome a cada recém-nascido é uma declaração de que esperamos que esse bebé sobreviva e receba os cuidados de que precisa, sobretudo perto do nascimento".

Na última década, sublinha a Lancet, a taxa de redução da mortalidade neonatal foi cerca de metade da redução alcançada na mortalidade infantil (crianças até cinco anos).

Como resultado disto, os recém-nascidos representam hoje uma maior proporção na mortalidade infantil (44% em 2012, contra 36% em 1990).

Na maioria das regiões do mundo, mais de metade das mortes de crianças são de recém-nascidos.

Segundo a Lancet, três milhões de mortes de mães e crianças podiam evitar-se todos os anos com intervenções como a promoção do aleitamento materno, a ressuscitação neonatal, a utilização do método mãe-canguru em prematuros, o uso de corticosteroides pré-natais e a prevenção e tratamento das infeções.

Estas intervenções poderiam ser implementadas por um custo anual de 1,15 dólares por pessoa, sublinham os investigadores, recordando que os cuidados de saúde no nascimento têm um retorno três vezes superior ao investimento, ao salvar mães e bebés e prevenindo deficiências nos recém-nascidos.

"Até agora, o investimento dirigido à saúde dos recém-nascidos tem sido minúsculo -- quase metade (44%) de todas as mortes infantis acontecem no primeiro mês de vida, mas apenas 4% do financiamento para a saúde infantil menciona sequer a palavra 'recém-nascido'", lamenta Lawn.

Sem maiores investimentos para melhorar as hipóteses de sobrevivência dos recém-nascidos, conclui o documento, até 2035 haverá 116 milhões de mortes neonatais, 31 milhões de bebés e crianças com deficiências e 68 milhões de bebés e crianças com perdas no potencial de desenvolvimento.

A África subsaariana e o sul da Ásia são as regiões onde a mortalidade neonatal tem mais peso, com a Índia (779.000), a Nigéria (267.000), e o Paquistão (202.400) no topo dos países com mais recém-nascidos mortos.

Estes três países também têm as mais baixas taxas de progresso na redução da mortalidade neonatal.

Em 2012, oito dos nove países com taxas de mortalidade neonatal superior a 40 por cada mil nados vivos estavam na África Subsaariana.

Com efeito, o progresso dos países africanos tem sido três vezes inferior ao que registavam os países de alto rendimento, mesmo antes do advento dos cuidados intensivos.

A este ritmo, concluem os autores, demorará mais de 110 anos para que um bebé africano tenha as mesmas hipóteses de sobrevivência do que um bebé nascido na América do Norte ou na Europa.

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