Uma segunda casa para a cura, onde doentes com covid-19 podem ser tratados sem pressionar lares e hospitais

Em abril, o Governo decidiu arrancar com unidades de retaguarda para doentes com covid-19 dependentes, para retirar pressão aos lares. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa gere duas destas unidades, que podem ser uma solução para a sobrecarga do SNS.

Pelas 07.30, o dia começa. A enfermeira Helena Soares cobre o velho uniforme, já quase invisível debaixo das batas protetoras, esconde parte do rosto com a máscara e mune-se de luvas. Logo a seguir, garante que todos os profissionais da unidade onde opera fazem o mesmo. A pandemia de covid-19 não permite que a exigência seja menor do que esta: assegurar que todos se protegem.

Os profissionais de saúde que entram agora num novo turno dividem-se, para verificar o estado de cada um dos doentes aqui internados. Todos os 23 estão infetados com o novo coronavírus ou em isolamento profilático, na maioria têm mais de 80 anos, mas não apresentam sintomas agudos. Aguardam aqui, em vez de nas suas casas ou num lar, porque precisam de cuidados devido à idade e/ou condição física. Foi a solução que a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) criou, em articulação com as autoridades de saúde, para tirar dos lares o peso e o perigo que estes doentes poderiam representar para a residência. Mas é também uma forma de aliviar a sobrecarga de internados nos hospitais.

Chamam-lhes unidades de retaguarda, a SCML gere duas de momento e a enfermeira Helena coordena uma delas. A Santa Casa escolhe manter as localizações anónimas, para proteger a localização dos doentes. Maria da Luz Cabral, coordenadora das equipas de intervenção preventiva de Lisboa da instituição, conta que a preparação para arrancar com estas unidades deu-se em abril. "Por indicação da senhora ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social", "a Santa Casa, desde a primeira hora, começou a preparar-se para dar esta resposta à cidade e ficou encarregada de dar apoio às pessoas dependentes, aquelas pessoas que tinham, por alguma razão, quer de saúde quer até de alguma limitação da sua condição física, necessidades de cuidados acrescidos". Foi assim que nasceram as duas unidades, com uma lotação para cerca de 20 pessoas cada. Desde abril, já foi possível curar "mais de cem pessoas" nestes locais. E não há qualquer óbito a registar.

Na ótica de Maria da Luz Cabral, perante os desafios desta segunda vaga da doença no país, a medida tem-se mostrado cada vez mais relevante. Vários hospitais já reclamaram estar a atingir o limite da sua lotação para doentes de covid-19. O Hospital de Santo António, no Porto, por exemplo, anunciou no final de outubro já ter esgotado a capacidade de internamento em cuidados intensivos para estes doentes e disse estar a preparar a abertura de mais camas, tendo, para isso, de abdicar de blocos operatórios. Para a coordenadora, as unidades de retaguarda ajudam a "não pressionar tanto o Serviço Nacional de Saúde (SNS) e podem fazer o processo de cura, que em alguns casos é mais demorado, numa estrutura que está dedicada para tratar e para a cura, mas que não estão em estado agudo".

Os critérios para entrar

Na unidade da enfermeira Helena já passaram 61 doentes, tendo 38 "regressado aos seus locais de origem", saudáveis. E todos só entraram por obedecerem a determinados critérios. Helena Soares enumera-os. "Têm de ser assintomáticos ou ter sintomas ligeiros da doença", ou seja, não podem ser doentes em estado crítico - nesse caso, explica, "terão mesmo de ir para unidades próprias em hospitais". Relativamente aos sintomas, se existirem, devem, por isso, variar entre "tosse moderada, febre que seja controlada com antipiréticos, alteração do paladar e do olfato", mas "não podem ter dificuldade respiratória".

Ainda que os casos possam variar entre si, estes doentes - "muitos com mais de 90 anos" - mostram algum grau de dependência, e por isso é que chegam a estas unidades. "Encontramos doentes muito dependentes, totalmente dependentes e doentes que precisam apenas de uma ajuda parcial nas suas atividades de vida", conta a enfermeira e coordenadora de uma destas unidades. Alguns, como lembra, "têm alterações cognitivas, o que os impede de conseguir realizar algumas atividades", "outros têm mesmo alterações comportamentais", "o que dificulta um pouco o entendimento das instruções que lhes são dadas". Assim justifica a necessidade de os tirar dos lares para terem apoio clínico constante.

A maior dificuldade, não hesita em dizer, "tem a ver com o próprio contexto em si". "Porque os utentes chegam aqui, encontram um ambiente desconhecido, pessoas irreconhecíveis e, como me dizia uma senhora com muita graça, vestidos de um modo muito estranho. Tudo isto, para eles, é fator de instabilidade. Se já têm estas alterações, com todo o ambiente e todo o contexto, necessitam mesmo de que nós tenhamos aquele carinho e aquela atenção para com eles, para que se sintam em casa", conta.

A coordenadora Maria da Luz Cabral diz que os "bons resultados" registados nestas unidades levaram a que o Governo decidisse alargar a iniciativa a nível nacional. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa prepara-se ainda para abrir uma terceira unidade brevemente, a maior entre todas, também no distrito de Lisboa, e "terá uma lotação para 35 pessoas".

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