No Centro Multicultural a formação dos jovens não pode parar

Nesta escola em Lisboa as medidas de segurança passaram pela divisão das turmas e, nas aulas práticas de pastelaria e de cozinha, ao avental e touca junta-se a máscara.

A aluna está a estender a massa, compenetrada. O formador aproxima-se pela calada e por trás do ombro larga um severo "o que é que está a fazer?". Apesar da máscara, Marco Gomes denuncia a partida com um riso que leva a aluna a reagir da mesma forma. "Que susto, chefe, não volte a fazer isto!" O momento de distensão foi uma pausa durante uma aula prática do curso de pastelaria e padaria do Polo Jovem do Centro de Educação, Formação e Certificação da Santa Casa. Dentro da cozinha de um de vários espaços do polo que se dividem ao longo de uma rua em Calhariz de Benfica, Marco Gomes orienta oito formandos na confeção de croissants, pastéis de nata, cupcakes, areias de Cascais e pães de limão e coco.

"Chefe, não há nenhum leite aberto?"; "Chefe, enganei-me na massa"; "ó chefe, está bom assim?", ouve-se. Na composição proporcionada pelos aspirantes a pasteleiros, a música do limão no ralador, da massa a ser batida, dos ovos a partirem-se ou do sinal sonoro do micro-ondas é interrompida pela catadupa de perguntas dos alunos ao formador, o qual, com dose generosa de paciência, a tudo responde.

"O chefe indica-nos os ingredientes, temos de fazer as pesagens corretas e vamos chamando o chefe para saber qual é o modo de preparação", explica Beatriz Lucas. "Normalmente, corre tudo sempre bem." Aos 18 anos, apesar de ainda não ter certeza, Beatriz já se vê como pasteleira. Para já, está a gostar da experiência, que lhe permite a equivalência do 9.º ano. "Quando acabamos o curso não levamos só a parte escolar, levamos também a tecnológica, o que é importante para depois arranjarmos um trabalho."

Telma Oliveira, dois anos mais nova, não tem quaisquer dúvidas em relação ao futuro profissional. Foi através da irmã mais velha, também aluna no Centro Multicultural, do curso de cozinheiro, que se interessou pela área. Em casa, "por gosto", o pai e o avô também começaram a aprender doçaria com a bisavó. Telma quer completar os dois níveis do curso de pastelaria e padaria, que equivalem ao 12.º ano, e vê-se já como chefe numa pastelaria. "Quero trabalhar nesta área muito tempo até chegar ao topo", afirma.

Esta turma, com 16 alunos, foi dividida em duas como medida de prevenção em relação ao novo coronavírus. A escola, com cerca de 70 alunos entre os 15 e os 22 anos nos cursos de cozinha, pastelaria e informática, teve de fechar portas durante o estado de emergência, mas reabriu em maio. "Contactávamos os encarregados de educação para sabermos como estavam, até para saber se havia alguém infetado", recorda Paula Morais, a coordenadora do espaço conhecido como Centro Multicultural. "Depois começámos a ter aulas online utilizando várias ferramentas, o Classroom, o Skype, com horários fixos para cada turma, com aulas síncronas e assíncronas, algumas individuais e em conjunto", explica.

"Ninguém está habituado a determinadas rotinas. Ainda no outro dia me diziam "mandavam-nos arrumar as cadeiras de almoço e agora têm de ficar para trás, isto é confuso para nós". É preciso termos todos muita paciência", prossegue a assistente social. "Estas situações em termos de regras de segurança vão por repetição e hábito até que seja assumido como rotina. Não tem corrido mal dentro das salas de aulas, a não ser por uma distração, deixam o nariz de fora. De resto cumprem as regras. A maior dificuldade é quando estão em conjunto fora."

Telma reconhece que as normas de distanciamento social tornam a rotina "um bocadinho complicada". "Podia estar perto dos meus colegas, agora já não tanto, temos de andar sempre de máscara, para comer é sempre para a frente, estudar também, não se pode olhar para trás nem para os lados", diz.

Para Paula Morais, a pandemia só acrescenta uma camada na preocupação que o centro de formação tem com os jovens, que na sua maioria se debatiam com o insucesso escolar. "A grande maioria tem outro tipo de competências e é isso que temos de tentar aproveitar neles e trabalhar ao máximo os aspetos mais negativos de comportamento." Qual é a receita? "Os nossos grandes aliados têm de ser as famílias. Tentamos trazer as famílias à responsabilidade, não só quando há coisas más, para arranjarmos uma estratégia de forma a conseguirmos um resultado positivo, mas também quando há coisas boas para dizer."

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