Neste lar, os abraços à família continuam e são de plástico

Reza a história que uma cortina serve para separar ou esconder. Não é o caso desta, feita para aproximar os idosos da Quinta Alegre, lar ao abrigo da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, e os seus familiares. É uma cortina de plástico, com mangas, e permite que saboreiem o fruto proibido pela pandemia: um abraço.

É como se se preparasse para um primeiro encontro. Um nervoso miudinho corre pelo corpo, a felicidade está à flor da pele, é dia de se pôr bonita, por isso, Leonor Viola, 81 anos, está em frente ao espelho a medir o limite das cores no seu rosto. E não é por o cabelo ser grisalho que não merece também a sua atenção. Sentada na cadeira de um cabeleireiro improvisado do lar Quinta Alegre, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, Leonor abusa no blush e no bâton vermelho, agarra o andarilho e segue caminho para se encontrar com a filha Cristina. Os tempos são outros, a pandemia de covid-19 prometeu roubar o tato, mas este lar deu a volta ao destino e, por isso, Leonor e Cristina preparam-se para um abraço.

"Estás tão bonita." Cristina Viola lança o elogio, como pede um primeiro encontro - mesmo que este seja um de muitos desde que o estado de emergência os permitiu. Enaltecida a beleza de Leonor, atiram-se para os braços uma da outra, Cristina acaricia o rosto da mãe e sorriem. Entre elas, ergue-se uma alta e larga cortina de plástico, esticada de uma ponta à outra da sala, com duas mangas cosidas nas pontas, onde a filha desta utente colocou os braços para a tocar e abraçar. Os seus olhos brilham.

A ideia foi importada. "Aquilo foi num dia de manhã, quando disseram que poderiam ser abertas as visitas a partir de um determinado dia. Onde vamos pôr? Temos de escolher o espaço", conta Tânia Gomes, diretora da Quinta Alegre. Optaram, então, por passar as visitas para uma pequena sala com acesso exterior, "para os familiares não terem de entrar dentro da residência". Mas faltava algo. "A equipa queria tornar isto acolhedor" e, "numa visita aqui com os engenheiros da Misericórdia", um deles lançou o desafio, como lembra a responsável: "Já viu aquilo dos abraços que está na internet? Aqui a Quinta Alegre é que fazia isto muito bem." Tânia Gomes partilhou a dica com a equipa que não demorou na discussão. "Pronto, puseram em prática."

A cortina de plástico veio acabar com algumas preocupações dos responsáveis do lar relativamente às visitas. Tânia Gomes lembra que tem utentes "com um défice auditivo muito grande" e que "o afastamento e as máscaras não permitiam que conseguissem comunicar com a família". "Mais próximo seria melhor, mas mais próximo não estaríamos a cumprir com a legislação. Então, com um plástico a dividir podemos pô-los mais perto", explica.

Após três meses longe, "o toque é fundamental"

Faltava resolver o problema do toque, desaconselhado perante o elevado risco de transmissão da covid-19. Foi assim que surgiu a ideia de criar umas mangas, também elas de plástico, que permitissem, de forma segura, manter os abraços.

Passados três meses sem olhar os seus familiares, não há dúvida de que "o toque para eles é fundamental" e merecia o esforço da equipa para chegar a uma solução, diz a diretora do lar. Leonor Viola há muito que se acostumou a demonstrar, pelo tato, o quanto gosta da filha. "Gosto muito de abraçar a minha filha e beijo-a muito, beijo-a muito. É uma alegria quando ela cá vem." Por isso, "foi um bocado aborrecido" tanto tempo sem ver as famílias, eufemiza a sua dor. Embora se tenha conformado: "Tem de ser, tem de se respeitar."

Os abraços de plástico vieram amenizar esta ausência e o choque do reencontro. Leonor admite o encanto perante a cortina que ali se edificou, que ainda assim não compensa o abraço "ao natural" pelo qual se mostra desejosa de repetir um dia.

"Temos aqui uma senhora, que é a dona Amália, que quando viu aquilo foi a felicidade da vida dela", conta a diretora Tânia Gomes. Feitas as contas, o impacto "foi muito positivo" e uma vez por semana todos têm oportunidade de abraçar alguém através desta cortina, mas há outras ausências que o lar ainda não conseguiu compensar. "Já é muito tempo sem saírem da residência. Eles estavam habituados todos os dias a sair da residência para irmos ao café. Antes da pandemia, era muito movimentado, estavam sempre aqui pessoas da comunidade, tínhamos visitas de voluntários. E houve uma grande quebra, porque não vem ninguém do exterior."

Sair esteve fora de questão para estes utentes durante os meses de confinamento obrigatório, mas assim se manteve mesmo depois, em grande parte devido ao facto de o lar se localizar na única freguesia de Lisboa com maior risco de infeção: Santa Clara. Com o evoluir da pandemia e o número crescente de casos nas várias freguesias de Lisboa, após o estado de emergência, o governo decidiu colocar a cidade em estado de calamidade. Mas quando o cessou, a freguesia de Santa Clara foi a exceção à regra - com um número alto de casos, decidiram que continuaria a vigorar a calamidade nesta localidade. Desde o início da pandemia, este lar registou oito infetados, entre os quais três idosos e cinco funcionários, mas nenhum óbito.

Agora, é o país que volta ao estado de calamidade, pelo menos até 31 de outubro. Neste lar, "resta seguir as normas que forem ditadas pela Direção-Geral da Saúde: desconfinar mais, confinar". A diretora Tânia Gomes garante: "Temos cumprido essas regras todas."

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