Irmã Ángela, uma vida ao lado dos "leprosos dos nossos dias"

Com 65 anos ao serviço dos mais pobres em Lisboa, ​​​​​​​Ángela Fernández López mantém o mesmo espírito de missão, ainda que adaptado às circunstâncias da pandemia.

"Sou a irmã Ángela, franciscana, missionária de Maria." Só alguém muito distraído poderia surpreender-se com a forma como Ángela Fernández López se apresenta: em coerência com a sua vida humilde e solidária, de missão junto dos mais carentes, primeiro no Casal Ventoso, depois na Curraleira, agora na Penha de França. Em julho, a sua dedicação foi reconhecida com o Prémio Nunes Corrêa Verdades de Faria na categoria "Cuidado e carinho dispensados aos idosos desprotegidos".

A distinção promovida pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa é acompanhada de um prémio pecuniário, o qual canalizou para os outros, em especial para o Centro Social Paroquial São João Evangelista, onde se desloca todos os dias. "É uma vida muito boa. Estamos livres. Não temos nada. Bom, sempre temos coisas supérfluas, umas vezes para dar aos outros", comenta, sobre a sua missão.

Nascida em Barcelona há 88 anos, a irmã Ángela cresceu em Madrid e fez o noviciado em Pamplona. Não sabia para onde iria em missão, mas "queria ir para junto dos leprosos, tinha visto a vida do padre Damião [São Damião de Molokai]". "Olhem, estive com os leprosos do século XX", uma referência à chaga social que é a pobreza.

Enviada para Portugal em setembro de 1955, com 23 anos, depois de uns dias em Arcozelo, Barcelos, assentou na lisbonense Rua do Patrocínio, junto das outras irmãs franciscanas da Missão de Maria. No Casal Ventoso trabalhou no dispensário maternoinfantil, onde havia consultas de obstetrícia, pediatria, puericultura e vacinação. Recorda-se de irem até às docas, juntos dos navios, recolher comida para quem não a tinha. "A comida que sobrava era atirada ao mar."

Com o 25 de Abril, Ángela, como as outras irmãs, trocou o hábito pelas vestes mais discretas. "Ai tão boazinha e foi saneada", conta a rir-se, sobre o que diziam à época de si. Não só não foi expulsa como partiu em nova missão, desta vez para a Curraleira, um bairro de barracas entretanto extinto. "Na Curraleira havia muita pobreza. Graças a Deus, hoje há o Banco Alimentar e o rendimento mínimo, muita coisa, mas antigamente havia crianças que eram embrulhadas em papel de jornal para dormir porque não havia nada para lhes dar de comer", recorda.

Outro momento que a marcou foi um incêndio que consumiu 60 barracas, originado por uma discussão sobre 20 escudos, e que veio a matar um homem e uma criança de 7 anos. Além disso, crê que a tragédia teve efeitos mortais noutras irmãs que lá estavam, devido à exposição aos fumos tóxicos. "Foi horrível."

Mas nem tudo foi negativo. Em conjunto com a freguesia estabeleceu um programa de assistência aos idosos mais carenciados do bairro, no qual as pessoas não fechavam as portas e onde sempre foi respeitada.

O Centro Social e Paroquial São João Evangelista, com a sede no antigo Max-Cine - "conhecido como o Piolho, porque era frequentado pelas gentes da Curraleira" - foi o passo seguinte na missão de Ángela. Ao incorporar as instalações da Casa do Ardina, o centro passou a ter possibilidade de iniciar o serviço de apoio domiciliário, incluindo refeições, e um grupo que já não existe, as visitadoras. "Eu era ministra da comunhão, tinha um grupo grande e fui falar com os velhinhos, mas eles, desconfiados, não queriam receber ninguém", recorda. Mais tarde, a irmã foi a Madrid receber formação sobre os centros de dia, uma novidade na época, e aplicou os conhecimentos no espaço situado na freguesia da Penha de França.

Além das refeições no local, o centro de dia tornou-se um local de convívio entre os mais isolados. "Muitos não têm nada e vivem sós. Aqui podem jogar às cartas - ui!, adoram jogar às cartas -, ao bingo, têm ginásio, aprendem computadores, têm coro, muitas atividades."

Desde meados de março, com o encerramento do espaço aos utentes, o centro teve de se adaptar à nova realidade. O serviço de apoio domiciliário foi reforçado e agora distribui refeições seis dias por semana e ainda contribui com um reforço de produtos alimentares, como fruta e iogurtes. "Aqueles que os filhos podiam, levaram-nos. Os outros vivem em quartos, e muitos vivem com o rendimento mínimo, sem reforma", diz.

Aos 88 anos, a irmã Ángela uso uma bengala para andar, mas não claudica perante os seus. "Todas as manhãs falo com eles ao telefone, e têm muitas saudades. "Ai irmã, quando [é que o centro] reabre?"."

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