Com um smartphone, Fernanda Barbosa já pode ver as bisnetas

Acolhida pela SCML, a iniciativa Dar Voz permite às pessoas em isolamento ligarem-se aos familiares e amigos, mas também aos centros de dia forçados a encerrar devido à pandemia.

Qual é o preço de um sorriso? O de Fernanda Barbosa pode contar-se pelo smartphone doado por alguém que já não o queria mais. Um gesto simples e com consequências práticas, neste caso o de aproximar uma idosa com os familiares distantes. Algarvia, rumou para Lisboa no dia em que se casou, mas a família está em Olhão. A exemplo do que aconteceu um pouco por todo o país, em especial entre a população mais velha, a pandemia deixou-a sozinha na sequência do encerramento dos centros de dia.

"Esta pandemia deu cabo de muitas coisas. A pessoa estar em casa sem falar com pessoa nenhuma é um problema. A minha cabeça já estava meio maluca", diz Fernanda Barbosa, de 89 anos, ao que larga uma saudável risada. O seu quotidiano foi drasticamente afetado. Ia todos os dias para o centro de dia de Santo Condestável, mas devido ao novo coronavírus esteve quatro meses e meio fechada em casa. Evitava até ir à janela, e recebia apenas as visitas dos funcionários da Santa Casa que lhe levam refeições. Vive num segundo andar em Campo de Ourique, e durante esse período o seu exercício físico resumiu-se a descer as escadas por duas vezes e voltar para trás com o objetivo de se mexer.

Foi a pensar em pessoas como Fernanda Barbosa que um conjunto de empresas arrancou com a iniciativa Dar Voz, a qual está a ser desenvolvida pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML). "O objetivo é minimizar o isolamento, aproximar as pessoas e dar voz a quem não a tem", resume a psicóloga da SCML Filipa Neves.

Quem tiver um smartphone ou tablet funcional guardado numa gaveta em casa pode ajudar. Ao consultar a página darvoz.pt encontra o ponto de recolha adequado. O equipamento é então recondicionado e recebe um cartão da NOS, parceiro do projeto. Cabe depois aos serviços da SCML identificar as pessoas que podem beneficiar desta ação e explicar-lhes o seu funcionamento. Há neste momento pouco mais de três dezenas de utentes dos centros de dia a utilizar os smartphones, além dos que foram distribuídos para os centros de dia e serviços de apoio domiciliário.

"A seleção passa por pessoas que estejam em situação de grande isolamento e que tenham alguma - não sei se lhe chamaria capacidade ou literacia digital - mas pelo menos vontade de aprender e de poder utilizar estes equipamentos", explica Filipa Neves, psicóloga que presta apoio técnico à Direção de Intervenção e Desenvolvimento de Proximidade da SCML. "As novas tecnologias, mesmo na população mais idosa, têm um impacto incrível, e, como se vê pelo sorriso da D. Fernanda, a iniciativa cumpre inteiramente o seu objetivo."

Como é ter um telefone destes? "Foi muito giro a primeira vez que vi a família. É engraçado, mas atrapalho-me muito com isto", comenta a idosa a propósito do seu manuseamento. "A minha nora quase todos os dias me telefona para saber se estou bem e para ter cuidados, para não cair, tem sempre medo de que eu caia." Mas é mais, muito mais do que isso. Reconhece que está menos só: "Àquela hora, pouco mais ou menos, eles telefonam-me. Já vi a minha bisneta mais nova, de 4 anos, e a outra de 14. São muito giras." A última vez que esteve no Algarve com a família foi no Natal, mas nem aí viu a mais pequena. "São muitos meses sem a ver e já está muito crescidinha", nota.

E ver os outros, diz Filipa Neves, é "fundamental". "Como sabemos, a comunicação também é muito não verbal, portanto às vezes um olhar de parte a parte, um sorriso cúmplice, é fundamental para a melhoria do bem-estar e da saúde psicológica" dos mais velhos. Isto porque a pandemia, "nomeadamente na população mais idosa, está a deixar marcas muito visíveis e devemos estar todos muito atentos. A saúde mental destas pessoas está a ficar comprometida", diz Filipa Neves.

Estamos em pleno verão e Fernanda Barbosa sai à rua, por fim, até ao jardim junto à Igreja do Santo Condestável. "Muito bom, muito bom!", exclama. Um dia de emoções, de alegria e de agradáveis surpresas. Filho, nora e neto vieram do Algarve para matar saudades. "Não sabia que vinham, mas estava admirada de não me terem telefonado de manhã." Afinal, melhor do que uma chamada em vídeo só a presença em carne e osso dos entes queridos.

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