Cláudio ficou três meses sem ver os pais para não deixar ninguém para trás

O enfermeiro Cláudio Carvalho faz parte das equipas de cuidados de saúde primários da SCML. Em pleno confinamento não deixou de bater à porta de quem precisava de curativos.

Quando o país esteve em estado de emergência e grande parte da população teve de ficar em casa devido à pandemia do novo coronavírus, os profissionais da saúde continuaram a fazer o seu trabalho insubstituível. E não só nos hospitais. Nas Unidades de Saúde da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) a missão de chegar aos mais desprotegidos e carentes manteve-se, ainda que com as necessárias adaptações.

Na Unidade de Saúde do Vale de Alcântara Cláudio Carvalho já se habituou aos protocolos de segurança suplementar pelos quais tem de passar, embora admita que com as temperaturas elevadas do verão e a proibição do uso do ar condicionado se tenha de fazer um esforço extra.

Mas quem é enfermeiro por gosto não se queixa. E aqui há mais do que gosto - há dedicação incondicional ao ofício e aos pacientes, a quem chama sempre de "pessoas". Porque é isso que são em primeiro lugar, é bom ninguém esquecer.

Foi pelas pessoas que escolheu a profissão e foi também pelo contacto permanente com elas que, ao fim de dois anos na profissão, Cláudio Carvalho trocou a unidade de cuidados intensivos em que se encontrava para os cuidados de saúde primários. "É um trabalho difícil e que tem de ser feito, mas o contacto efetivo com a pessoa e com a família não é o mesmo que se consegue na comunidade, nos cuidados de saúde primários. Tenho pessoas que acompanho há dez anos, com quem mantenho uma conversa aberta e elas conseguem explicar todas as necessidades e eu consigo responder. Nos cuidados intensivos é tudo mais fugaz", compara. E sentencia: "Nos cuidados de saúde primários é mais compensador."

Aos 41 anos, e com 18 de profissão, o enfermeiro defende a importância dos cuidados de saúde primários, ainda mais em contexto de pandemia, porque aqueles "conseguem diminuir a necessidade de recurso aos cuidados hospitalares, o que foi muito importante nesta fase". A equipa que integra presta cuidados de saúde preventivos e os cuidados curativos. Estes, "porque não podem ser adiados nunca deixarão de ser realizados".

De que fala Cláudio Carvalho? De cuidados a lesões, de entubações, algaliações, colocações de sondas nasogástricas ou vesicais, enfim de tratamentos com injetáveis, tudo isto, quando necessário, ao domicílio. Além do mais, a restante equipa também presta cuidados de higiene, de alimentação e tratamento de roupa, corporizando o objetivo da SCML em cuidar da população mais desprotegida e vulnerável da cidade de Lisboa. "Procuramos responder às necessidades das pessoas em toda a dimensão."

A trabalhar na Unidade de Saúde do Vale de Alcântara desde 2005, Cláudio Carvalho garante: "Ninguém ficou para trás, apesar de todos os cuidados e restrições".

A máscara esconde o rosto do enfermeiro, mas os olhos também falam e a mínima interjeição denuncia, ou dá a entender, o que vai no espírito. Assim foi sobre a conciliação do trabalho com a família. "No meu caso continuei a trabalhar. Não tenho filhos, a minha mulher também é enfermeira, e não sentimos necessidade de ficar fora de casa, tendo sempre os cuidados como por exemplo usar máscara no prédio. O que mais me custou foi deixar de ver os meus pais. Não os vejo há três meses. Pertencem a grupos de risco, eu estou em Lisboa e eles em Vila Nova de Famalicão, que é de onde sou oriundo. Isso é o que me tem custado mais."

E assim foi quando perguntado sobre como foi trabalhar no período de quarentena. "Foi complicado e continua a ser porque mantemos todos os cuidados necessários para evitar a transmissão e propagação do covid. Inicialmente só continuámos a fazer as visitas de curativos, as que eram inadiáveis; as outras que fazíamos continuámos com um contacto telefónico."

Sentimos que muitas das pessoas só recebem as nossas visitas e ficam muito satisfeitas

Nesse período a equipa a que pertence ouviu pacientes ao telefone a deixar transparecer que não queriam ser visitados devido aos receios de contágio. "É perfeitamente natural as pessoas terem medo. É importante que as pessoas não vacilem nem desmotivem na necessidade de manter os cuidados. Mas o medo não pode ser dissuasor e deve haver um meio termo e irmos para a frente", considera.

E quanto aos pacientes a quem se dirige, a experiência é bem diversa. "Sentimos que muitas das pessoas só recebem as nossas visitas e ficam muito satisfeitas. E nesta altura mais ainda porque havia pessoas que poderiam receber visitas de familiares ou de vizinhos e deixaram de receber. Notamos que as pessoas ficaram mais isoladas e manifestavam maior solidão."

Mais Notícias