Entre selfies e voluntariado, o novo turista quer deixar um impacto positivo

A ImpacTrip promove ações de voluntariado entre turistas de várias nacionalidades que visitam Portugal, através de um conceito de turismo responsável e com impacto social e ambiental positivo

Hoje há coelho guisado na ementa da Refood. A australiana Angelica Gregorian dá uma ajuda na entrega das refeições, já que aproveitou as férias em Portugal para fazer voluntariado. "Eu já estava a viajar pela Europa há cerca de dois meses e eu queria que o meu último mês fosse a trabalhar como voluntária", explicou.

A Refood recolhe a comida que sobra nos restaurantes, supermercados, cafés e padaria e distribui por quem precisa. Angelica Gregorian sente que o tempo que dedica a este voluntariado pode fazer uma pequena diferença na vida de outros. "Acho que até um grande sorriso e uma cara acolhedora têm um bom impacto, por isso sinto-me muito feliz quando saio".

Joana Siqueira, coordenadora na Refood, recebe turistas várias vezes ao ano. "É uma grande ajuda, praticamos o inglês, o que é maravilhoso. Ensinamos e ajudam-nos. Há muitos que já recebem à porta. Não sei o que é que eles falam com as pessoas que vêm aqui buscar as refeições mas sei que se desembaraçam e depois de estarem aqui uma semana ou duas semanas são como nós", contou.

Volunturismo

Combinar férias e voluntariado é um conceito que começa a ganhar cada vez mais adeptos. A australiana explica que é importante viajar com um propósito. "Eu acho que é espetacular viajar, visitar as cidades mas também saber que vais fazer algo que terá um impacto positivo. É uma ótima maneira de viajar, recomendo-o".

Angelica Gregorian chegou à Refood através da ImpacTrip, uma agência portuguesa dedicada ao turismo solidário, que põe os viajantes em contacto com organizações sociais.

Rita Marques, co-fundadora da ImpacTrip, explica que a ideia surgiu durante uma viagem que fez à Ásia. "Fui viajar muito num conceito de 'travel like a local' , de conhecer as pessoas e as comunidades locais e de viver a cultura. Percebi que o voluntariado era umas das melhores formas de conhecer a realidade local e ter algum prazer da viagem e, obviamente, fazer a diferença. Percebi, quando estava a voltar para Portugal, que não existia este conceito no meu país".

Começou a trabalhar na ideia juntamente com Diogo Areosa e criou uma empresa QUE CRIA experiências turísticas que "permitem ao viajante ter um impacto positivo através do voluntariado, através de negócios sociais das organizações nossas parceiras".

Já com a startup formada, a dupla desenvolveu a ideia no PAES, Programa de Apoio a Empreendedores Sociais, promovido pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. "Felizmente entramos e tivemos muita formação e, especialmente, tempo para pensar e para refletir em várias dimensões do projeto. E esse tempo foi essencial para refazer várias coisas que tínhamos pensado e solidificarmos o plano de negócios", explicou.

Voluntários de todo o mundo

A ImpacTrip já recebeu viajantes de 52 nacionalidades diferentes que dedicaram mais de 25 mil horas de voluntariado aos cerca de 300 parceiros sociais e ambientais da empresa.

Rita Marques conta que o conceito de viajar e fazer voluntariado está a ganhar adeptos em Portugal mas admite que não é para toda a gente. "Está a crescer e ainda bem porque nós queremos mudar a perspetiva do turismo. Em vez de ser uma checklist, é viver a cultura. Não vamos ao museu ver a cultura, vamos vivê-la. Essa é a nossa proposta sempre com a preocupação de ter um impacto positivo por onde passamos".

A empresa social tem experiências de norte a sul do país que variam consoante o gosto de cada viajante. Desde mergulho sustentável a passeios com cães abandonados, passando por visitas a bairros sociais com guias locais, a empresa oferece várias atividades.

O hostel sustentável

Quem viaja neste modelo encontra agora, em Lisboa, um sítio para descansar que está alinhado com os princípios da ImpacTrip. A Impact House, que abriu portas em abril no bairro da Estrela, é um hostel de carbono zero e que quer ser "o mais sustentável de Portugal".

Com mais de 40 camas, o hostel aloja viajantes que vêm fazer voluntariado e tem também alguns quartos reservados para populações mais desfavorecidas que precisem de estadia por alguns dias.

Foi lá que a australiana Elyse Brauchamp e a escocesa Kay Simpson se conheceram e acabaram a fazer a mesma atividade de voluntariado: brincar com bebés na Ajuda de Mãe em Lisboa.

"Tem sido espetacular. Quando soube que ia trabalhar com os bebés, fiquei muito entusiasmada", contou a escocesa. Confessa que é a primeira vez que faz voluntariado fora de casa mas sempre quis experimentar. "Tenho amigos e família que fizeram voluntariado. Tenho um primo que fez trabalho voluntário no Vietname. É algo que sempre pensei fazer".

Já a australiana explica que o tipo de trabalho que a Ajuda de Mãe faz também a ajudou a escolher o país para fazer voluntariado. "Escolhi Portugal porque é um sítio muito bonito, um dos mais seguros do mundo. Li sobre este programa e achei muito bonito esta ideia de ajudar jovens mães. E então pensei: porque não ir para Portugal e ajudar jovens mães?".

Seja a dar colo a quem precisa, a descobrir bairros socais através dos moradores ou a distribuir refeições quentes, são férias diferentes para que os viajantes levem para casa mais do que fotografias e souvenirs.

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