Arma espacial antifogo nasce em Portugal com sotaque brasileiro e búlgaro

Isabella Simão e Katia Stambolieva juntaram-se em Lisboa para fundar a Nina Space. Uma startup que ajuda a prevenir incêndios através da identificação de pontos que precisam de intervenção usando dados da humidade, da vegetação e da temperatura do solo.

"Vou aprender a ler para ensinar meus camaradas." Isabella Simão pegou neste verso de Maria Bethânia na hora de decidir sair de São Paulo e rumar a Lisboa. Veio com o namorado, que está a fazer doutoramento em Energias Renováveis, e o objetivo era "aprender a ler o mundo, a ler outras coisas, ler o que está a acontecer por aí e aprender o que se faz com esse conhecimento para ensinar outras pessoas e provocar mudanças".

Nessa aprendizagem conheceu Katia Stambolieva, uma cientista de dados búlgara que lhe foi indicada por um amigo comum como a pessoa ideal para a ajudar a pôr em prática o seu projeto de ter impacto no combate aos incêndios. Juntas fundaram a startup Nina Space, que já não se dedica ao combate - como era a ideia inicial -, mas à prevenção de fogos. Não só em Portugal mas em todo o mundo. Uma ideia que junta tecnologia espacial e que as levou a arrecadar 50 mil euros do prémio de startups desenvolvidas por mulheres atribuído pela Agência Espacial Europeia.

Hoje, fazem parte também da incubadora de empresas da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, a Casa do Impacto.

Da comunicação e da informática ao empreendedorismo social

Quando decidiu mudar de vida, Isabella foi à Web Summit e aí aprendeu que podia usar a tecnologia para causar impacto. "Quando percebi que podia fazer algo que causasse impacto maior do que aquele que eu estava causando com campanhas de awareness [alerta], poderia, de repente, fazer alguma coisa que importasse de verdade. Percebi: é por aí que quero ir."

A juntar a essa vontade, Isabella chegou a Portugal no mesmo ano dos incêndios de Pedrógão Grande, um acontecimento a que não conseguiu ficar indiferente. O que a deixou com vontade de fazer alguma coisa, embora a sua área profissional fosse a comunicação e não a área florestal ou da tecnologia. "Um dia pensei: não é possível que do céu, dos satélites, não dê para fazer alguma coisa." Até porque tinha visto as temperaturas diferentes do seu corpo numa câmara térmica numa exposição, logo tinha de haver uma maneira de transportar isso para o campo da prevenção dos fogos florestais.

Projeto valeu-lhes um prémio de 50 mil euros, atribuído pela Agência Espacial Europeia, para melhor startup desenvolvida por mulheres

Um trabalho que foi feito por Katia, "esse génio da tecnologia". "Cheguei com um bolinho e ela transformou isso num bolo superconfeitado", descreve Isabella Simão.

Katia estava em Portugal há três anos quando em outubro de 2017 se cruzou com Isabella. A chegada a Lisboa aconteceu depois de ter saído da Bulgária, para fazer Erasmus Mundus em Inteligência Artificial em Inglaterra e Espanha. Depois passou pelo Luxemburgo, dois anos, até se fixar em Portugal, há cinco.

Trabalhou em programação de algoritmos para traduções automáticas, mas depois decidiu lançar-se a solo e começou a fazer consultoria em inteligência artificial em projetos sociais ou ambientais. Pouco depois conheceu Isabella e as duas começaram a preparar o Nina Space, que no início se chamava Firefly, mas que por razões de direitos do nome tiveram de alterar.

Usando uma palavra indígena da América do Sul que quer dizer fogo e menina (Nina) e a palavra espaço em inglês (Space), criaram uma startup que procura através do espaço prevenir incêndios. O nome junta assim a afirmação da liderança feminina e a causa ambiental.

Como se aplica a Nina Space

Para aplicar o programa, as duas empreendedoras tiveram de perceber primeiro como funciona a estrutura política e de proteção civil em Portugal. "São as câmaras municipais, a GNR, o ICNF, a Proteção Civil. São muitos players e cada um com um papel diferente", descreve a fazedora de São Paulo.

Decidiram começar pelas câmaras municipais, propondo-se mostrar alguns dados que tinham recolhido de cada local. As cerca de dez autarquias que já se mostraram recetivas, estão desde setembro a receber a visita de Katia, que explica o que pode ser feito nas florestas locais para prevenir que estas ardam, falando com o engenheiro florestal do município e o diretor municipal da Proteção Civil.

Trata-se de ajudar na criação de faixas de gestão de combustível, "fazendo uma análise de onde devem ser criadas com maior urgência, tendo em conta que não existem recursos humanos e financeiros para fazer todas as necessárias", explica Katia Stambolieva.

Desta forma, as duas empreendedoras acreditam conseguir ter florestas mais bem geridas, que terão maior resiliência perante os incêndios. Recorrendo a inteligência artificial para ler as imagens de satélite. "Imagine que se transforma num gigante e consegue ver Portugal como se fosse a palma das mãos. Depois pode ir fazendo zoom in e zoom out (aproximar e afastar a imagem) e ir vendo os terrenos quase ao pormenor. Aí dá para ver o tipo de vegetação, a temperatura do solo e ver se está em risco ou não e onde deve ser feita a faixa de gestão de combustível", exemplifica Katia. "Queremos usar esse benefício de seres gigantes a olhar para esse mundo pequeno, com esses óculos especiais", acrescenta Isabella.

Premiadas pela ESA

Apesar de ser uma startup jovem, as duas fazedoras já se destacaram até a nível europeu. Depois de uma candidatura para o centro de startups da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês), um processo que Isabella garante só foi possível graças a Katia, perceberam que eram as únicas mulheres fundadoras. Aí, a representar Portugal, ganharam uma bolsa de 50 mil euros, como a melhor startup liderada por mulheres, entre 22 países concorrentes.

A Casa do Impacto, o espaço onde estão incubadas agora, chegou também pela inspiração da presidente Inês Sequeira, que gostava de ter mais mulheres neste espaço. Mais uma vez, a dupla internacional foi a primeira exclusivamente feminina a receber o apoio de incubação no espaço da Santa Casa.

Ao mesmo tempo que querem ser um exemplo e levar mais mulheres a investir em projetos empresariais, as duas fazedoras acreditam que o seu negócio pode também dar o seu contributo para minimizar as alterações climáticas. Batalha que também querem travar e ganhar.

Um ano a apoiar startups sociais

A Casa do Impacto celebrou o 1.º aniversário a 19 de setembro. Prepara-se para mais do que triplicar a capacidade de apoio a empreendedores e acolher mais projetos em áreas como a saúde mental, envelhecimento, igualdade de género, alterações climáticas, ambiente e cidadania. A incubadora e aceleradora, que nasceu para apoiar startups de impacto positivo na sociedade, teve neste primeiro ano mais de 200 residentes distribuídos pelas 34 startups incubadas, quatro programas de aceleração, mais de 60 workshops e bootcamps, que contaram com a participação de mais de 1500 pessoas, e 67 eventos e conferências realizados, por onde passaram mais de três mil pessoas.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG