Pessoa

Viriato Soromenho Marques

Na vertigem da desrazão

Escrevo na pior fase, até agora, da crise pandémica mundial. Portugal é agora um trágico campeão. A contar, não a partir de cima, do sítio onde se vislumbra o céu, mas a partir do fundo, do temível lugar de baixo onde todas as culturas milenares situam o inferno. Nos próximos 40 dias poderemos perder tanta gente para a covid-19 como o número de soldados que morreram em 13 anos de guerras ultramarinas. Afinal, este "vírus bonzinho" continua a semear morte e miséria e a deixar muitos líderes políticos, que julgavam ter o assunto resolvido com as vacinas e a propaganda, a fazer pagar aos seus povos o preço da tóxica combinação de ignorância com arrogância.

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1864

Saramago e Pessoa vão ao cinema

Difíceis de se converter em imagens, os mundos conceptuais de José Saramago (1922-2010) e de Fernando Pessoa (1888-1935) não deixam de despertar algum fascínio ao cinema. Tanto ontem como hoje. O caso de Saramago é particularmente curioso, se atentarmos no facto de serem mais os cineastas estrangeiros a assumir o risco de adaptar obras suas do que os portugueses. Enfim, a inversão dessa tendência faz-se notar agora com a estreia de O Ano da Morte de Ricardo Reis, realizado por João Botelho, e uma anunciada adaptação de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, por Miguel Gonçalves Mendes, o realizador que filmou o documentário José e Pilar (2010) com a grande cumplicidade do Prémio Nobel e da sua mulher, Pilar del Río. Por sua vez, Pessoa, na instabilidade dos seus heterónimos, parece vaguear de filme em filme como um espectro literário que levanta a bruma sobre o imaginário lisboeta - veja-se Mensagem (1988), de Luís Vidal Lopes, uma película que assenta nesse texto profético do poeta e se converte numa leitura ela própria cabalística, ou a versão divertida da persona que se encontra na curta-metragem Como Fernando Pessoa Salvou Portugal (2018), de Eugène Green. Um poema aqui, outro ali, "Fitas de cinema correndo sempre/ E nunca tendo um sentido preciso", escreveu o heterónimo Álvaro de Campos, e lá isso é verdade: os sentidos são múltiplos. Aqui correm oito fitas, quatro baseadas em Saramago, e outras quatro de inspiração pessoana.