Venezuela

Margarita Correia

O mundo nas nossas mãos

Descobri a magia da leitura ao colo do meu padrinho, enquanto ele lia o jornal. O meu padrinho levantava-se muito cedo (nos países tropicais os dias começam pelas cinco da manhã, com cerca de 12 horas de sol). De segunda a sábado, ele saía cedo para fazer a ronda das padarias. O meu padrinho era um empresário português, da aldeia do meu pai, que emigrou cedo para o Brasil (talvez nos anos de 1940), casou com a minha madrinha algures no Ceará e depois foi viver para Valência, na Venezuela, onde eu nasci e passei a infância. O meu pai emigrou em 1955 com uma carta de chamada do meu padrinho e trabalhou para ele durante os 16 anos que viveu na Venezuela; nunca se tornou "empresário", apenas sócio de uma padaria na qual trabalhava com a minha mãe 364 dias por ano (fechava no 1.º de Maio). Passei em casa dos meus padrinhos muitos dias da minha infância, provavelmente os mais felizes daquela época. O meu padrinho costumava sentar-se no pátio das traseiras, depois do almoço e ao final da tarde, em camisola de alças, a ler ao jornal. Quando eu lá estava, invariavelmente me convidava para o seu colo, enquanto lia e comentava as notícias. Lembro-me das notícias sobre Brasília, a mágica cidade inaugurada em 1960, ano em que nasci, mas cuja construção prosseguiu por toda aquela década (não sei até que ponto esta recordação será uma criação minha, mas gosto dela e por isso a torno filha legítima da minha memória). Acho que foi assim que aprendi a ler e a gostar de jornais.