franceses

António Araújo

Um pedaço de Bacon (1)

Quando a Irmã Mercedes lhe fechou os olhos, na Clínica Ruber de Madrid, ignorava por certo o que aquele homem dissera anos antes sobre alguém que, como ele, partira para o outro mundo aos braços de uma freira. "Morreu num hospício de Málaga, tratada por umas irmãzinhas católicas... haverá coisa mais horrível do que essa?", perguntara ele ao falar da morte de Jane, mulher do escritor Paul Bowles, que conhecera em Tânger, nos anos de maior loucura, os anos em que por um triz não perdera a vida na voragem da violência e do excesso. O seu amante da altura, talvez o amor maior de toda a sua vida, acabou por morrer lá, devastado pelo álcool e pelas dívidas. Bebia três garrafas de whisky por dia, numa vertigem suicidária, e ele soube-o morto quando, no dia da inauguração de uma exposição sua na Tate, poucas horas antes da abertura, recebeu um telegrama de Marrocos com a notícia mais que esperada.

Leonídio Paulo Ferreira

América redescobre índios, alguns meio vikings, outros meio açorianos

Quando era criança Deb Haaland passava o verão com os avós maternos numa casa sem água corrente em Mesita, uma das seis aldeias do Novo México onde continua a viver o Pueblo of Laguna, uma das quase 600 tribos índias que os Estados Unidos reconhecem, escreveu o The Washington Post. Aos 60 anos, a congressista tornou-se de um momento para o outro uma celebridade, e por isso esta historieta pessoal, porque foi escolhida por Joe Biden, vencedor das presidenciais de 3 de novembro, para secretária do Interior, uma pasta ministerial que lhe dá controlo sobre vastos territórios do país e também sobre muitos assuntos índios. Será também apenas o segundo nativo-americano, expressão politicamente correta para índio ou índia, membro de uma administração americana. Antes, Charles Curtis, que se dizia da tribo Kaw do Kansas, foi vice-presidente de Herbert Hoover entre 1929 e 1933.