Sete filmes de terror para a noite de Halloween

Matango (Ishiro Honda, 1963)

Desde os tempos de Platão que a humanidade se interroga filosoficamente sobre uma questão estruturante: o que é que acontece aos protocolos da ordem social num contexto em que o ser humano consome fungos parasíticos que o transformam gradualmente num cogumelo monstruoso? Matango é a resposta mais pertinente que conseguimos desenvolver até agora. O filme é realizado por Ishiro Honda, co-criador das iterações clássicas de Godzilla, e o espectador desprevenido pode precipitar-se a concluir que um filme de terror oriental sobre cogumelos gigantes será mais um tratamento metafórico da bomba atómica, mas Matango está muito menos interessado nos efeitos da radiação do que nos efeitos de uma toxicodependência que externaliza os piores impulsos dos protagonistas. Adaptação livre de um conto de William Hope Hodgson, o guião mais parece uma variação sobre
O Senhor das Moscas, em que os habitantes da ilha paradisíaca são promovidos de crianças a arquétipos adultos (o Empresário, o Artista, a Femme Fatale, etc.), que revertem a um estado primordial quando a sua dieta é reduzida. Poucos filmes tiveram a coragem de sugerir que os verdadeiros monstros talvez sejam as pessoas que decidem comer cogumelos.

Godmonster of Indian Flats (Fredric Hobbs, 1973)

A obra-prima de Fredric Hobbs (um artista americano cuja obra está exposta numa colecção permamente no MoMA, em Nova Iorque), Godmonster of Indian Flats junta dois filmes distintos num só. Num primeiro nível, é uma história sobre corrupção municipal, direitos de exploração de minerais e a antiga tensão entre desenvolvimento económico e o impulso conservacionista. Num segundo nível, é a história de uma ovelha mutante com três metros de altura que come pessoas. Um filme menor tentaria fundir estas duas linhas temáticas e narrativas, mas Hobbs tem a convicção dos génios e intuiu correctamente que, quando se têm duas visões tão poderosas, a competência só serve de empecilho. O filme combina panorâmicas imponentes do Oeste americano, uma banda sonora constante de balidos de ovelhas meticulosamente recriados por seres humanos a imitarem balidos de ovelhas, uma personagem chamada Mariposa, um criador de gado vestido com um casaco de peles, um professor de Antropologia que estuda embriões mutantes numa fábrica abandonada e um monstro felpudo que gosta de dançar à luz da Lua.

Alucarda (Juan López Moctezuma, 1977)

Os movimentos artísticos coerentes nem sempre são o resultado de planeamento central - de reuniões de jovens italianos desempregados ou manifestos redigidos de madrugada em cafés parisienses. Por vezes são apenas uma resposta orgânica e consensual às circunstâncias da realidade, em que sensibilidades artísticas de diferentes geografias concluem em simultâneo que o mundo precisa de mais filmes sobre freiras lésbicas satânicas. Foi o que aconteceu nos anos 70, a era de ouro do cinema sobre freiras lésbicas satânicas, que nos deixou uma herança de jóias como Cartas de Uma Freira Portuguesa, Flávia, a Herética ou Satanico Pandemonium.

Alucarda, a obra-prima do género, começa com uma jovem órfã chamada Justine (um dos nomes preferidos do marquês de Sade) a chegar a um convento, onde rapidamente cria amizade com outra órfã, Alucarda, uma amizade alimentada pelo muito que têm em comum: ambas gostam de passear pelo campo todas nuas a recolher insectos e a falar sobre a morte, e ambas têm a ambição secreta de se tornarem freiras lésbicas satânicas. Essa humilde ambição é ajudada pelos encontros constantes com orgias nocturnas de freiras lésbicas satânicas e também pelo facto de Alucarda ser filha do Diabo, que tem um investimento pessoal no conceito de freiras lésbicas satânicas.

Buio Omega (Joe D"Amato, 1979)

O nome Joe D"Amato pode não inspirar a maior confiança, mas assim que ouvimos os primeiros acordes dos Goblin (a banda fetiche de Dario Argento), desconfiamos que estamos em boas mãos, mesmo antes de as engrenagens do enredo começarem a girar na direcção inexorável de uma cena de necrofilia. Buio Omega conta a história trágica de Frank Wyler, um órfão milionário, que se tornou rico a praticar a nobre arte da taxidermia. Frank perdeu a sua noiva num típico acidente de feitiçaria vodu, mas não deixou que isso o desmoralizasse e lançou mãos à obra, embalsamando o cadáver e mantendo-o por perto. A situação desagrada à única outra habitante do seu palacete, a ama-seca que o criou desde a infância e que apenas quer viver descansada a amamentá-lo ocasionalmente. O projecto é interrompido por visitas - um polícia curioso, uma transeunte com um pneu furado - que a ama-seca é obrigada a desmembrar ou incinerar, enquanto Frank vomita a um canto. Uma lição de vida para todos os que acham que uma história de amor é incompatível com a inexistência de órgãos internos.

A Night to Dismember (Doris Wishman, 1983)

Doris Wishman tornou-se realizadora aos 48 anos, depois da morte do marido, e teve uma longa carreira repleta de obras indeléveis sobre jogos de voleibol nudistas, motoqueiras nudistas ou colónias extraterrestres onde se pratica nudismo. O seu último filme, que completou aos 90 anos, chamava-se Dildo Heaven</em>. A Night to Dismember</em> foi, lamentavelmente, a sua única incursão no género de terror, e não teve o começo mais auspicioso. Um acto de sabotagem destruiu 50% do material filmado e obrigou a realizadora a improvisar, aproveitando cenas descartadas, trechos de outros filmes e imagens de arquivo para recauchutar a história comovente de... Mas um resumo de A Night do Dismember seria não apenas impossível como até insultuoso para estes 80 minutos de narrativa não linear em que conceitos ingénuos como "coerência" sofrem a mesma violência errática que as personagens. Cenários claustrofóbicos, planos infinitos de pés e cinzeiros, zooms caleidoscópicos, imagens sobrepostas, diálogos em que as bocas dos actores nunca se mexem, uma actriz chamada Samantha Fox, e um produto final que parece ter sido montado com um serrote e um lança-chamas. Não há nenhum filme sequer remotamente parecido com isto.

The Abomination (Brett McCormick, 1986)

Começamos com uma montagem de três minutos que inclui as cenas mais sangrentas do resto do filme, cada uma delas intercalada com um plano do protagonista a erguer-se da cama com um grito; o plano é sempre o mesmo e é repetido mais de dez vezes. The Abominationem> é talvez a versão mais pura da estética "grand guignol caseiro" fundada por Herschell Lewis. O protagonista é Cody. Quando não está a conduzir camionetas, Cody vive sozinho com a sua mãe, uma fanática religiosa sob o jugo de um pastor evangélico chamado Brother Fogg. A mãe tem um tumor, que o pastor promete curar através de um exorcismo feito por teleconsulta. Antes que isso aconteça, a mãe vomita o tumor, que infecta o filho, que por sua vez vomita outro tumor. Grande parte do filme consiste em pessoas a vomitar tumores, que às tantas deixam de ter pessoas para infectar e começam a infectar casas, manifestando-se como vaginas sangrentas com dentes e tentáculos, que se escondem dentro de armários ou máquinas de lavar roupa, e devoram os restos do elenco que nunca leram a profecia bíblica de Daniel. Cinco estrelas.

The Trial of the Chicago 7 (Aaron Sorkin, 2020)

Um pesadelo ardilosamente disfarçado de fantasia histórica, The Trial of the Chicago 7 conta a história terrível de um grupo de radicais e conservadores possuídos em conjunto pelos demónios anacrónicos do centrismo, implacavelmente forçados a falarem todos da mesma maneira, a regurgitarem os mesmos diálogos e piadas exaustas de outras séries e filmes, e a recriarem a cena final de O Clube dos Poetas Mortos ao som de uma orquestra satânica. Os actores são exímios a transmitir apenas através do olhar o desespero de quem foi condenado a passar a eternidade a ouvir o ventríloquo oficial do presidente Bartlet fazer trocadilhos em francês, e explicar que o importante é ter bom senso e perceber que as coisas que nos unem são mais importantes do que as que nos separam.
Escreve de acordo com a antiga ortografia

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