Má gestão e prejuízos colocaram Caixa em risco de resolução

Mário Centeno considerou que houve "má gestão" no banco público. Perdas avultadas entre 2011 e 2016 forçaram injeção de dinheiro dos contribuintes, mas Finanças garantem que não será necessário novo reforço.

A Caixa Geral de Depósitos correu o risco de ter como destino entrar em processo de resolução, semelhante ao que aconteceu ao BES, caso não tivesse sido recapitalizada. A revelação foi feita por Mário Centeno para justificar a injeção de capital no banco público em 2017.

O ministro das Finanças admitiu, numa audição parlamentar requerida pelo PCP, que houve "má gestão" no banco público e que isso teve "custos". E considerou que, no passado, o banco público recebeu dinheiro dos contribuintes sem que "ninguém quisesse saber porque se acumularam as perdas".

Centeno revelou que em 2016 a Caixa enfrentava uma "ameaça de resolução bancária" que "arrastaria o sistema financeiro nacional". Isto se não conseguisse convencer Bruxelas a aprovar a operação de recapitalização sem que o dinheiro disponibilizado pelo governo fosse considerado uma ajuda de Estado.

Para obter esse aval, o banco público teve de se comprometer com a emissão de dívida com juros acima de 10%, com o corte de balcões e funcionários e também com a redução na presença do estrangeiro.

O governo considera que o plano está a ser cumprido e que a CGD está em condições de pagar dividendos, já que regressou aos lucros. O banco apresenta as contas anuais na próxima sexta-feira. Nos primeiros nove meses do ano passado lucrou 369 milhões, confirmando o fim da sequência de perdas avultadas. As Finanças garantem que não será necessário meter mais dinheiro na CGD.

Uma era de prejuízos

Antes do regresso aos lucros, o Tesouro teve de injetar 3,9 mil milhões no banco público na recapitalização de 2017 para tapar os buracos que a Caixa sofreu entre 2011 e 2016. Neste período, teve perdas acumuladas de 3,8 mil milhões de euros.

Grande parte desses prejuízos teve origem em algumas dezenas de créditos milionários que foram concedidos de forma irregular, contra pareceres das análises de risco e sem garantias.

Segundo o relatório da auditoria preliminar da EY, que foi pedido pela administração do banco, em 46 créditos a CGD foi forçada a assumir perdas de 1,2 mil milhões de euros

A fábrica da La Seda, em Sines, Joe Berardo, Manuel Fino e entidades ligadas ao Grupo Lena estão no topo dos devedores que mais buracos causaram ao banco público, segundo esse relatório a que o DN/Dinheiro Vivo teve acesso.

Entre os períodos mais problemáticos detetados na versão preliminar estão os anos em que Carlos Santos Ferreira e Faria de Oliveira foram presidentes do banco, entre 2007 e 2012.

Nova comissão

O documento da versão preliminar foi revelado pela antiga deputada do Bloco de Esquerda Joana Amaral Dias. E há muito que a versão final era exigida pelos deputados. Esta foi-lhes negada com o argumento do sigilo bancário e, depois, do segredo de justiça.

No entanto, o Ministério Público informou que não se opõe a que a auditoria especial seja disponibilizada ao Parlamento. Desde que se expurgue matéria que possa ser considerada como segredo bancário. Assim, a versão que chegará aos deputados poderá não disponibilizar a informação sobre os devedores.

As conclusões que vieram a público sobre a versão preliminar da auditoria especial levaram o CDS a requerer uma nova comissão de inquérito sobre a CGD.

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