Siga a dança por mais um OE

O teatro de sombras vem-se repetindo desde que António Costa criou a geringonça, contra as expectativas até mesmo e alguns dos seus mais próximos, acenando a uma e a outra esquerda com bombons que permitam assegurar a viabilidade de um governo que nunca conseguiu a maioria parlamentar. E não há dúvidas quanto à habilidade do primeiro-ministro para seduzir ora Catarina ora Jerónimo, garantindo a aprovação de sucessivos orçamentos mas permitindo-lhes, ainda assim, acenar ao respetivo eleitorado com uma suposta independência - como fez o Bloco de Esquerda ao recusar dar luz verde às últimas contas. Ainda que muito desse eleitorado já ande desconfiado desse desprendimento, vendo que os seus líderes andam pouco ativos e pouco atentos, tendo deixado de se indignar com a paixão pelas contas certas e pela contenção do défice que antes tanto os incomodavam - mas que sabem ser ponto de honra deste governo, como de qualquer executivo que sabe a que ponto depende da União Europeia.

Um e outro, Jerónimo e Catarina, vão-se movendo entre os fumos das suas linhas vermelhas, que agora já nem ao amarelo chegam, para dizer que exigem "mais pessoal para o SNS" ou a reposição das restrições aos despedimentos pré-troika - como se o nosso regime laboral não fosse apontado, ao lado da imprevisibilidade jurídica e legislativa e da burocracia, como um dos maiores impedimentos à atração dos investimentos e das empresas estrangeiras de que o país precisa desesperadamente para se desenvolver e sobreviver no pós-pandemia, quando se esgotarem os apoios e as desculpas para os manter em funcionamento. Mas adiante.

Bloco e PCP dançarão com Costa enquanto puderem - mas sobretudo enquanto este quiser, porque sabe que se BE e PCP lhe falharem terá sempre o PSD. Rui Rio pode ficar ofendido quando o primeiro-ministro o descarta das suas necessidades, mas nunca tarda a perdoar-lhe as ofensas, nem que seja "em nome de um bem maior", pela "estabilidade do país", "para evitar uma crise política numa altura destas", ou coisa que o valha.

Com a bazuca nas mãos do governo e a necessidade de fazer contas ao futuro, é natural que Catarina e Jerónimo comecem a intuir que o fim desse ciclo não está longe. Eventualmente, António Costa, um pragmático, vai acabar por privilegiar o que tiver de ser (leia-se, as empresas, o capital, os projetos de investimento que tanta alergia provocam às esquerdas radicais) para garantir o crescimento do país. E se ele próprio, puxando os galões do socialismo, prefere o Estado social omnipotente que lhe garante votos e subjuga os portugueses à vontade do governo, em vez de os capacitar a tomar os seus próprios caminhos, também sabe que esse só dura enquanto há dinheiro.

Costa acabará por voltar a chegar-se ao centro, com Rio ou sem ele - e como as coisas andam, se o líder do PSD se mantiver como até agora, é até possível que consiga ocupar o espaço dos sociais-democratas. Mas não será ainda com este Orçamento.

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