O europeísta e militante anti-Brexit que é pai de Boris Johnson

Stanley Johnson foi funcionário europeu e esteve contra o filho no referendo, mas já mudou de ideias. Em Bruxelas, cruzou-se com o português José Sequeira Carvalho. (texto publicado originalmente a 31 de agosto de 2019)

Foi funcionário europeu a partir de 1973, ano em que o Reino Unido aderiu à então Comunidade Económica Europeia, e em 1979 esteve entre os primeiros eurodeputados eleitos. E no referendo de 2016 fez campanha ativa contra o Brexit apesar de do outro lado da barricada estar o filho mais velho, Boris Johnson. Agora, o conservador Stanley Johnson, de 78 anos, pai do primeiro-ministro britânico, já não é um europeísta tão convicto - apesar de ter admitido que toda a situação é "agridoce", desde há anos que defende que é preciso cumprir o resultado do referendo e que se há alguém capaz de resolver a situação é o filho.

Stanley era "tão europeísta quanto um político conservador pode ser", disse ao DN o antigo diplomata e funcionário europeu José Sequeira Carvalho, que trabalhou com Stanley Johnson na Direção-Geral de Meio Ambiente, em Bruxelas, no final dos anos 1980. "Não era um militante europeu, mas um militante ambiental da ala conservadora pró-europeísta", resume o ex-diplomata português, que esteve na equipa que trabalhou a adesão de Portugal à União Europeia. Foi também diretor adjunto do Eureka e esteve na Direção-Geral para a Cooperação e o Desenvolvimento.

O pai do primeiro-ministro britânico é descendente de um ex-jornalista e ministro otomano, crítico do movimento nacionalista turco, que foi morto por apoiantes de Atatürk. Do lado materno, a árvore genealógica vai até ao rei George II (passando pela atual Alemanha, graças a um filho ilegítimo de um dos descendentes do monarca). Uma árvore genealógica internacional, como o currículo de Stanley, que passou pelo Banco Mundial - Boris nasceu em Nova Iorque em 1964 - antes de ir para Bruxelas.

Os britânicos, como tinham uma política de proteção ambiental mais avançada naquela altura do que os europeus, foram chamados como especialistas no tema quando foi criada a nova direção-geral. E Stanley, um apaixonado pelas questões ambientais, era um deles - tendo começado por ser diretor da divisão de prevenção da poluição, ainda no final dos anos 1970. Regressaria em 1984, já depois de ter sido eurodeputado, tendo sido ainda conselheiro dos vários diretores-gerais, desde o francês Michel Carpentier ao holandês Laurens Jan Brinkhorst.

Foi nessa altura que o seu caminho se cruzou com o de Sequeira Carvalho, que passou mais de três décadas na capital europeia. O português era então administrador principal na área de informação aos consumidores. "Sabe onde me cruzava com ele? Além das reuniões de trabalho, o meu contacto mais frequente e quase diário com o Stanley Johnson era na biblioteca da direção-geral, no edifício da Rue Guimard, onde disputávamos a primazia de ler o boletim diário da Agência Europa", explicou ao DN. "Éramos os primeiros a querer ler as notícias frescas da Europa", referiu.

Sequeira Carvalho recorda o pai de Boris Johnson como "um senhor que se vestia sempre bem, que se apresentava como um político conservador, apesar de ser um artista, um escritor. Era considerado um indivíduo com bastante cultura". E lembra um dos livros que ele escreveu (tem 26 publicados desde 1967, de romances a livros técnicos). Aquele que o português recorda chama-se The Commissioner (O Comissário) e é sobre um político escolhido para representar o Reino Unido na Comissão Europeia. "É um pouco autobiográfico", conta Sequeira Carvalho, lembrando que o livro teve um prefácio do então comissário britânico, o trabalhista Roy Jenkins, que admitiu que havia uma base de realidade. "Relata os preconceitos e as atitudes negativas dos políticos britânicos relativamente aos burocratas de Bruxelas", explica o ex-diplomata, indicando que os britânicos queriam alguém para lhes "cortar as asas" e "controlar".

Mudança de opinião

Boris Johnson, de 55 anos, entrou na campanha a favor do Brexit com um artigo de opinião em março de 2016 na sua tradicional coluna no Daily Telegraph. Reza a história que tinha escrito um texto a favor da continuação do Reino Unido na União Europeia, mas que a nível pessoal era mais promissor ser contra o primeiro-ministro David Cameron. Ao mesmo tempo, ia contra o pai, mas também os dois irmãos, Jo e Rachel Johnson, que também eram do campo do remain.

Quando o artigo que não foi publicado acabou por vir a público, já depois do referendo, o agora primeiro-ministro alegou que foi apenas um exercício criativo, parte do seu processo mental. Alegava no texto que ficar na União Europeia seria uma "bênção para o mundo e para a Europa", mas queixava-se da burocracia. "Gosto do som da liberdade; gosto do som de restaurar a democracia. Mas quais são as desvantagens?", questionava, falando, por exemplo, do "choque económico".

Mas foi a sua posição a favor do Brexit que acabou por vencer e, em última análise, por o colocar no número 10 de Downing Street. No dia da vitória do filho como líder do Partido Conservador, Stanley deixou claro que era um pai orgulhoso. E que Boris iria livrar-se do "pequeno problema técnico" do Brexit, que seria tratado "num flash", e que depois poderia concentrar-se noutras coisas. "Ele tem imensas coisas para fazer agora e o principal é procurar os outros países da UE e ter a certeza de que eles percebem que o Boris está a falar a sério e quer negociar isto", acrescentou.

Já neste mês, depois do impasse, com Bruxelas a recusar alterar o acordo e Boris a recusar negociar, Stanley voltou a público. A estrela de reality shows - o último foi um em que os espetadores podiam ver as reações de vários famosos a vários programas da televisão inglesa - defende que a União Europeia tem de ceder, sob a ameaça de um Brexit sem acordo e de "precipitar" o Reino Unido "da falésia". Depois de ser contra o Brexit, Stanley não tem agora nenhuma hesitação em apoiar Boris.

OS IRMÃOS

Jo Johnson
Secretário de Estado do Ensino Superior



O irmão mais novo de Boris, de 47 anos, voltou ao cargo de secretário de Estado do Ensino Superior e da Ciência, que ocupava em 2016 quando fez campanha contra o Brexit. "Não era o resultado que eu queria, mas respeito o processo democrático", escreveu no Financial Times, dizendo que desde o referendo se tem focado em garantir o Brexit.

Rachel Johnson
Colunista e estrela de televisão

A irmã de Boris também fez campanha contra a saída do Reino Unido da União Europeia - ainda nas últimas europeias foi candidata a eurodeputada numa plataforma contra o Brexit (mas perdeu). E nem o facto de ele ser agora primeiro-ministro fez esta colunista, antiga concorrente de reality shows, de 53 anos, mudar de ideias.

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