As ruas de Mindelo

Mindelo é uma cidade com pergaminhos urbanísticos. Orgulhosa da sua planta inicial desenhada na antiga metrópole nos idos de 1830, as suas primeiras construções obedeceram a um plano que ainda hoje proporciona que todos os bairros periféricos que foram surgindo ao longo dos anos desemboquem inevitavelmente na Morada, isto é, o centro histórico da cidade.

Alguns desses bairros surgiram ordenadamente, particularmente os dos operários ligados às companhias carvoeiras inglesas, e mesmo um ou outro nascido a partir dos núcleos que chegaram das diferentes ilhas e se instalaram de acordo com as afinidades. Mas com o tempo, as secas e demais carestias de vida, Mindelo foi sofrendo grandes pressões demográficas, traduzidas numa avalanche de construções clandestinas, com casas erguidas num único fim de semana, às vezes apenas numa noite, de tal forma que os poderes autárquicos se confessaram impotentes no combate a esse flagelo.

E perdida que ficou a esperança quanto à perfeita arrumação urbana dos bairros que não se importam de continuar a crescer sem arruamentos, sem água e luz e sem esgoto, o poder municipal fixou a sua atenção na cidade, no centro histórico da cidade. Não foi impunemente. O centro histórico de Mindelo muito faz lembrar aquelas cidadezinhas do interior de Portugal, muito suaves, muito tranquilas. Aliás, dizem que a planta inicial era muito bonita, tinha frondosas alamedas, teatros, jardins, ginásios, passeios públicos, coisas assim. Não se construiu tudo, é certo, mas o que existe mostra bom gosto, e além disso a cidade é tão escrupulosamente limpinha que me dizia há tempos um amigo estrangeiro que por cá passou que andou horas com uma casca de mancarra na mão até encontrar um caixote de lixo disponível, porque não sentiu coragem de a deixar cair no chão.

Bem, o centro histórico foi declarado património nacional, foi definida a altura máxima que cada edifício construído ou reconstruído pode atingir, e decretou-se a obrigatoriedade de as casas se mostrarem todas cobertas de telha. Enfim, no centro histórico, nem um prego ou colher de massa de cimento pode ser colocado sem expressa e escrita autorização da câmara municipal.

Mas não é só exigir. A câmara muito bem vem cuidando da parte que lhe diz respeito. Muitas ruas do centro histórico estavam perfeitamente abandalhadas, soltas as pedras do calcetamento onde as pessoas já tropeçavam perigosamente. A pouco e pouco a câmara empenhou-se na sua reparação. E como são ruas históricas, com nomes pomposos e simbólicos, como Rua da Moeda, Rua da Paz ou Rua da Luz, mandou fazer não um calcetamento normal, vulgar, mas antes um calcetamento artístico, com pedras de cores diferentes e recortadas a preceito para formar desenhos atrativos. Levou meses a fazer-se, talvez anos a tudo ser conseguido, com os residentes já impacientes com aquelas obras de Santa Engrácia. Mas finalmente foi dado por pronto, limpo, lavado, inaugurado com pompa e circunstância.

Ficou perfeito, os munícipes gostaram, louvaram o empenho da câmara em embelezar a cidade. E tudo estaria bem se a vida na urbe fosse tão estática quanto o calcetamento artístico. Mas infelizmente não é assim, a cidade está sempre a mexer-se, ora é uma coisa ora é outra. E a arrelia manifestou-se quando alguns munícipes dessas ruas artísticas terminaram a construção das suas casas e pediram autorização à câmara para proceder à ligação de água e esgoto no ramal público.

Nenhuma resposta! Insistiram! Nada! voltaram a insistir, e a câmara finalmente respondeu: não autorizado mexer na calçada artística! Como não autorizado, se é necessário ligar o esgoto! Tem de autorizar! Não autoriza, não senhor, aquilo custou muito tempo e muito dinheiro para ser construído, não pode ser estragado por dá cá aquela palha! Mas não é uma palha, é o esgoto, necessidade urgente, até porque já não existe esgoto aéreo, o Caizinho foi destruído! Porém, a câmara mantém-se inabalável.

Escritor cabo-verdiano, Prémio Camões 2018

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