"Não vamos ceder a nada." Macron responde a ataques terroristas

O presidente francês tem sido criticado por dizer que "o islão está em crise em todo o mundo" e defender publicação de caricaturas do profeta Maomé. Nesta quinta-feira houve três ataques com facas contra alvos franceses, tendo um deles resultado em três mortes. Nível de alerta foi reforçado.

"Se fomos atacados novamente é por causa dos nossos valores, do nosso gosto pela liberdade, pela possibilidade de acreditar livremente e não ceder a nenhum terror. Não vamos ceder a nada", disse o presidente francês, Emmanuel Macron, à porta da Basílica de Nossa Senhora da Assunção de Nice, palco horas antes de um atentado terrorista.

Três pessoas morreram, duas mulheres (uma delas degolada) e um homem (o sacristão), e várias ficaram feridas no ataque dentro da igreja. A polícia feriu com gravidade o atacante e os media franceses identificaram-no como um tunisino de 21 anos, que terá chegado a França no final de setembro ou princípio de outubro, após ter chegado à Europa via Lampedusa (Itália).

Este foi apenas um de três aparentes ataques contra alvos franceses. A pouco menos de três horas de distância de Nice, em Avignon, a polícia matou um outro homem armado com uma faca que tentou atacar os agentes e vários civis no meio da rua. Tal como o atacante na igreja, terá gritado Allahu Akbar (Deus é grande), segundo as testemunhas. E na Arábia Saudita, no consulado francês em Jeddah, um guarda ficou ferido noutro ataque também com uma faca.

Em resposta, Macron aumentou o nível de alerta, destacando um total de sete mil militares (em vez de apenas três mil) para a operação de vigilância antiterrorista Sentinela. O objetivo é proteger principalmente os locais de culto em vésperas da festa católica de Todos-os-Santos no domingo, tendo o governo lançado um alerta no último fim de semana às autoridades locais do país para o risco de atentados contra os símbolos cristãos.

Os três ataques surgem numa altura em que o mundo muçulmano tem criticado o presidente francês, Emmanuel Macron, que no início do mês alegou que o "islão está em crise em todo o mundo" na apresentação de novas medidas para defender a laicidade do Estado e os valores da República. Valores que diz estarem sob ameaça do islão radical e do extremismo islâmico, que apontou como uma "ideologia" e um "projeto" para doutrinar uma nova geração e criar uma "contrassociedade".

O mundo muçulmano também não gostou de ver Macron defender a publicação de caricaturas do profeta Maomé (a representação em imagens é considerada uma blasfémia), depois da morte do professor Samuel Paty. Decapitado em plena rua por um refugiado checheno de 18 anos, o professor tinha mostrado as imagens numa das suas aulas, numa discussão sobre liberdade de expressão.

Vários líderes de países muçulmanos, entre os quais o turco Recep Tayyip Erdogan, atacaram nos últimos dias Macron e lançaram apelos ao boicote dos produtos franceses. Outros, como o iraniano Hossan Rohani, avisaram que as declarações podiam "encorajar a violência". Em várias cidades do mundo árabe, repetiram-se os protestos, com imagens e efígies do presidente francês a serem queimadas.

O governo francês já recebeu entretanto várias mensagens a condenar o ataque de Nice, incluindo da Turquia e de outros países muçulmanos.

"Condenamos veementemente o ataque (...) e apresentamos as nossas condolências aos familiares das vítimas", indicou o Ministério dos Negócios Estrangeiros turco num comunicado. "É claro que os que cometeram um ataque tão selvagem num local de culto sagrado não podem inspirar-se em qualquer valor religioso, humano ou moral", adiantou, exprimindo a sua "solidariedade com o povo francês face ao terrorismo e à violência".

Também o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Arábia Saudita condenou "energicamente" o "ataque terrorista", lembrando que "os atos extremistas são contrários a todas as religiões e credos". Num comunicado, acrescentaram: "Recordamos a importância de rejeitar tais práticas que geram ódio, violência e extremismo."

"O terrorismo é um inimigo comum que nada tem que ver com uma religião específica e vai contra os valores da vida e da paz que representam a religião islâmica", assinalou, por seu lado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Jordânia.

O chefe da diplomacia francesa lançou entretanto uma "mensagem de paz ao mundo muçulmano", destacando que a França é o "país da tolerância" e "não do desprezo ou rejeição", depois do atentado terrorista em Nice. "Não deem ouvidos às vozes que procuram despertar desconfianças. Não nos deixemos cair nos excessos de uma minoria de manipuladores", declarou Jean-Yves Le Drian.

Os chefes de Estado e de Governo da União Europeia condenaram também o ataque terrorista de Nice. "Estamos chocados e entristecidos com os ataques terroristas em França. Condenamos nos termos mais veementes estes ataques, que representam ataques aos nossos valores comuns", indicaram na declaração conjunta após uma reunião por videoconferência do Conselho Europeu.

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