Morreu Sindika Dokolo, marido de Isabel dos Santos e um dos maiores colecionadores africanos de arte

Tinha 48 anos e morreu enquanto fazia mergulho no Dubai. Casado com Isabel dos Santos, possuía uma das maiores coleções africanas de arte.

Sindikja Dokolo, marido de Isabel dos Santos e colecionador de arte, morreu esta quinta-feira, aos 48 anos, no Dubai, onde vivia atualmente com a família.

"Foi durante um mergulho submarino que partiste para a eternidade. Uma atividade habitual que te afastou do teu combate, dos teus próximos. Descansa em paz", confimou no Twitter Michée Mulumba assistente do atual presidente da República Democrática do Congo, Felix Tshisekedi

Esta quinta-feira, Isabel dos Santos deixou uma mensagem no Twitter com apenas uma legenda: "My Love" ("meu amor").

My love ...

Uma publicação partilhada por Isabel Dos Santos (@isabel_dos_santos.me) a

Sindika Dokolo nasceu a 16 de março de 1972 no antigo Zaire, hoje República Democrática do Congo, e é um dos três filhos de Augustin Dokolo, fundador do Banco de Kinshasa, e da sua segunda mulher, a dinamarquesa Hanne Kruse. Tem dois irmãos mais velhos do primeiro casamento do pai.

Foi com Augustin Dokolo, um dos homens mais ricos de África, que aprendeu a gostar - e colecionar - arte. Tinha 15 anos quando começou.

Criou uma Fundação com o seu nome destinada a reunir obras de artistas africanos. e possuía uma das maiores coleções africanas de arte, com mais de 3 mil obras de arte.

Contou assim o nascimento da Fundação e a forma como conheceu Fernando Alvim, que dirigia a instituição, e que conheceu através da mulher. "Foi ter a minha casa à procura da minha mulher para [ela] comprar a coleção de Hans Bogatzke. A minha mulher não estava, eu estava sozinho, abri a porta e o Alvim começou a falar. Ele disse que eram 500 obras e eu disse que não tinha dinheiro para isso. Ele perguntou "quanto dinheiro é que tens?" e o montante representava, talvez, dez peças. Ele ligou e perguntou se podíamos pagar "x". A senhora não disse nada. Passados dez segundos disse "OK. Quando é que podem vir?".

Em 2015, horas antes da inauguração de uma exposição em que foram mostradas obras da sua coleção, no Porto, explicou ao DN que fazia sentido "ter uma coleção em linha com o que está a acontecer no continente africano, ou seja, relevante, com artistas novos, jovens, com questões atuais, universais e mais específicas do continente africano, como a situação da mulher, as questões religiosas, de liberdade, políticas, de sociedade. Isso tudo é o que me interessa explorar através de parcerias com artistas".

Um dos seus projetos era trabalhar a coleção que lhe foi deixada pelo pai e que reunia sobretudo objetos de Tribal Art, um conceito de que nunca gostou, preferindo chamar-lhe arte clássica, e, dentro desta, peças dos Chokwe.

Sindika Dokolo defendia a restituição aos países africanos das obras que se encontram espalhadas pelo mundo e que saíram em contextos de colonização. "Temos um património a circular pelo mundo que saiu de Angola de uma forma completamente ilegal. Decidi fazer disso o meu próximo cavalo de batalha", afirmou.

Em fevereiro de 2016, ainda com José Eduardo dos Santos nas funções de Presidente em Angola, a Fundação Sindika Dokolo entregou ao chefe de Estado, no Palácio Presidencial, em Luanda, duas máscaras e uma estatueta do povo Chokwe (leste de Angola), que tinham sido saqueadas durante o conflito armado, recuperadas após vários anos de negociação com colecionadores europeus.

Em outubro do ano passado, a sua Fundação comprou e repatriou para Angola 20 peças de arte que tinham sido levadas de museus angolanos para coleções estrangeiras e preparou-se para entregar ao museu de Kinshasa a primeira peça congolesa recuperada, segundo uma entrevista concedida na altura à agência Lusa.

Após exposição na galeria Almeida Garrett, nos jardins do Palácio de Cristal, Sindika Dokolo e câmara do Porto firmaram um acordo para mostrar obras da sua coleção e aquisição da Casa Manoel de Oliveira, por quase 1,6 milhões de euros. Deveria ser a sede da Fundação Sindika Dokolo na Europa.

Congo, Bélgica, França

Sindika Dokolo cresceu entre Kinshasa, a Bélgica e Paris, onde frequentou a universidade. Estudou economia, línguas e comércio.

Em 1995 regressou à República Democrática do Congo e começa a familiarizar-se com os negócios do pai. A guerra leva-o até Angola. Explicou-o desta forma em 2015, sobre aprender português : "Quando cheguei, em 2000, estava a fugir da guerra no Congo e precisava de dizer "tenho fome", "preciso de ir à embaixada", foi a força das circunstâncias... Não falava, mas tenho treino intensivo em casa", disse, lembrando o casamento com a filha de José Eduardo dos Santos, em 2002. Têm quatro filhos.

Investigado no caso Luanda Leaks

Sindika Dokolo ocupou lugares de gestão em empresas como a Nova Cimangola, Amorim Energia e Amigotel.

No início deste ano, o seu nome e o da mulher apareceram em vários documentos divulgados pelo chamado Luanda Leaks, uma investigação que dava conta de uma série de transferências para offshores de fundos pertencentes ao estado angolano, que se encontra atualmente sob investigação em Angola e Portugal.

O empresário e Isabel dos Santos foram alvo de arresto de bens e participações sociais em empresas, em dezembro do ano passado, por determinação do Tribunal Provincial de Luanda.

Crítico dos quase 20 anos do regime do Presidente Joseph Kabila na República Democrática do Congo, Sindika Dokolo esteve cerca de cinco anos no exílio, devido aos processos movidos contra si em Kinshasa, tendo regressado apenas em maio de 2019, já depois da chegada ao poder de Félix Tshisekedi, que tomou posse como chefe de Estado congolês em janeiro.

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