Porque não votam os pobres?

Porque é que os pobres não votam? O que pode ou não levar as pessoas a votar? Porque votam? Porque escolhem ficar em casa? Nas respostas a estas perguntas está a saúde e a durabilidade da democracia como a conhecemos - e podemos assumir que, apesar de imperfeita, é a melhor de todas. Mas as respostas são muito mais complicadas do que as perguntas. Quem vota e quem não vota conhece-as bem - mas é mais difícil fazer delas estatísticas. É muito mais difícil elaborar sobre motivações do que sobre votos expressos.

Os ricos votam cada vez mais e os pobres votam cada vez menos.

Um estudo divulgado nesta semana pela Portugal Talks - um spin off das Estoril Conferences - tentou fazê-lo. "Abstenção e Participação Eleitoral em Portugal: Diagnósticos e Hipóteses de Reforma", de João Cancela e Marta Vicente, entre muitas dúvidas, chega a um ponto que é consensual: quanto mais próximas do poder as pessoas estão, e quanto mais percebem que o efeito do seu voto é real, quanto mais efeitos tem, mais votam. Lapalissada? Aparente. Porque tem várias causas e graves consequências. É, digamos, uma evidência complexa.

Porque, em Portugal, os ricos votam cada vez mais e os pobres votam cada vez menos. Segundo o estudo, nas eleições de 2015 a probabilidade de votar entre os mais ricos oscilava entre 75% e 95%. Entre os mais pobres (20%), entre menos de 60% e 70%.

Como dizia o Pedro Magalhães, do ICS, no debate, "o problema da participação é um problema político. Quanto menos interesses representados tivermos, menos tendemos a participar". Numa democracia representativa, em que os eleitos trabalham para sê-lo, é fácil, "intuir" as consequências disto. "É menos provável que as políticas públicas cheguem aos interesses destas pessoas." Ou "uma democracia só para ricos", como dizia, no Público, Susana Peralta, que também participou no debate.

O estudo chegou também a outra conclusão: as pessoas votam mais quanto mais geograficamente perto estão do centro do poder dessas eleições. Votam mais nos grandes centros urbanos, para as legislativas. Votam mais nas eleições autárquicas - e votam mais quanto mais pequenos são os círculos.

Dados: nas eleições legislativas de 2009, 2011 e 2015 os níveis mais altos de participação foram no Porto (62,8%), em Braga (62,7%), em Lisboa (61,4%), em Évora (60,3%) e em Santarém (59,3%). Já as regiões dos Açores (41,6%), Bragança (49,9%), Vila Real (50,7%), Madeira (52,6%) e Viana do Castelo (52,8%) foram aquelas onde se registaram os níveis mais baixos de participação. Nas autárquicas, é ao contrário: "Em 277 municípios as eleições locais foram mais participadas do que as eleições legislativas anteriores", explicou João Cancela.

Isto significa toda a reversão do potencial básico da democracia - a de, no momento de voto, nivelar as pessoas. E a sua reversão na consequência mais terrível da desigualdade social cada vez maior nos países industrializados, Portugal incluído.

Como resolver estas assimetrias? Será mais difícil quando juntamos as duas - a diferença da sensação de poder entre centro e periferia e a exclusão social. E, obviamente, juntando-as o resultado é explosivo. Não ajuda nada passarmos uma semana inteira a debater um tema tão distante para os portugueses como a questão palestiniana, e a forma como provocou uma crise num partido que elegeu um representante em Lisboa.

Tem, aliás, todos os condimentos para piorar a sensação de bolha - de dentro e de fora. E de, olhando para a bolha, só conseguir abanar a cabeça de incredulidade.

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