PSD perdeu, sem deixar nada escrito, a melhor testemunha da sua história

Sem deixar nada escrito, morreu o alto funcionário do PSD que trabalhou com todos os 18 líderes do partido até ao atual. Para poupar pessoas que ainda estão vivas, Zeca Mendonça recusou deixar memórias escritas. (Artigo publicado originalmente a 30 de março de 2019)

Há alguns anos, José (Zeca) Mendonça - o histórico assessor de imprensa do PSD que na quinta-feira morreu, aos 70 anos, vítima de cancro nos pulmões - pensou em passar para o papel as suas memórias profissionais.

Histórias não lhe faltavam para contar, das mais risíveis às mais dramáticas. Zeca tornou-se militante e funcionário do PSD (então PPD) logo em 1974, como segurança, e em 1977 passou para o gabinete de comunicação, que nunca mais deixaria. À exceção de Rui Rio, trabalhou com todos os líderes. No final de 2017, deixou pela primeira vez o partido para rumar a Belém para trabalhar com o mais adorado de todos os seus líderes, Marcelo Rebelo de Sousa.

Quando pensou escrever as suas memórias, decidiu que o faria numa parceira com a jornalista Maria Flor Pedroso (então na Antena 1, hoje diretora de Informação da RTP), a qual, evidentemente, se disponibilizou imediatamente para o desafio.

Mas depois mudou de ideias. E fê-lo por lealdade ao seu partido de sempre, argumentando que teria de falar de muitas pessoas que ainda estão vivas. Se tivesse de ser absolutamente fiel às verdades que testemunhou, teria muito provavelmente, face a algumas pessoas, de não ser muito simpático (porque houve quem o tratasse mal). Para evitar danos no PSD, e uma história que não poderia ser só do lado anedótico da política, preferiu então ficar em silêncio. Com muitos jornalistas foi partilhando ao longo dos anos inúmeras histórias (grande parte sobre as traquinices de Marcelo quando foi líder do partido, de 1996 a 1998). Mas a maior parte delas eram na verdade tão divertidas quanto inofensivas para a imagem do PSD. As inconfidências só o eram na aparência.

"Enorme elegância"

José Luís Fernandes, também funcionário do PSD desde 1974 - e hoje chefe de gabinete de Rui Rio -, reconhece ao DN que, agora, "não há mais ninguém no PSD que tenha uma memória contínua das lideranças do PSD como o Zeca tinha". Ele próprio esteve 17 anos ausente em Bruxelas e outros sete em Belém, com Cavaco Silva. Diana Ulrich, outra funcionária histórica, só se tornou militante em 1979 e entretanto já está reformada. Memória vivida como Zeca tinha mais ninguém tem - e o assessor levou-a consigo sem nada deixar escrito ou gravado.

Os líderes foram passando - 18 ao todo, contando com o atual - e Zeca Mendonça ficou, sempre. Ao lado de cada um deles, "sempre com o mesmo profissionalismo" e sem olhar a simpatias. Também as tinha, admite Luís Marques Mendes, um dos presidentes do partido de quem era também um "amigo".

Marques Mendes, que com ele conviveu "intensamente" enquanto líder parlamentar e líder do PSD (2005-2007), só tem adjetivos bons para o descrever: "ótima pessoa"; "curial", "generoso" e "dedicado". "Aquilo que se costuma dizer um cidadão de mão-cheia", que também era um "profissional notável". Revela também sobre uma faceta menos conhecida do assessor de imprensa, a de "conselheiro discreto, elegante e com muita sensatez". Mesmo quando tinha de dar uma opinião negativa dizia-a com "enorme elegância".

"Não tinha anticorpos"

Zeca fez amigos em todo o lado, embora fosse um "laranjinha convicto". E como conseguiu esta proeza? "Era de uma tolerância enorme em relação a todas as pessoas de outros partidos e, por isso, não tinha anticorpos."

Marques Mendes não tem dúvidas de que "o Zeca se confunde com a história do PSD", do qual é uma "figura de referência". E sugere: "O partido devia pensar seriamente em fazer-lhe uma homenagem."

Miguel Relvas, outro antigo dirigente social-democrata com quem conviveu muito tempo e atravessou três lideranças - Durão Barroso, Pedro Santana Lopes e Pedro Passos Coelho -, diz que "era uma pessoa com valor que sabia dar valor à vida em todos os aspetos". "Com o partido todo dividido, havia sempre uma pessoa unânime que era o Zeca. Quando o partido não estava bem ele não estava bem".

Zeca Mendonça nasceu há 70 anos em Lisboa, crescendo na zona da Alameda. Fez a Guerra Colonial na Guiné e quando voltou, em 1974, tornou-se segurança do PSD. Ontem, leram-se e ouviram-se palavras de homenagem de todos os quadrantes políticos sem exceção, do Bloco de Esquerda ao CDS. Marcelo Rebelo de Sousa disse que o assessor de imprensa lhe deixa "infinita saudade". Demonstrou "sempre que as virtudes pessoais valem mais do que os cargos e as funções, e que a força da democracia nasce do humilde contributo de todos os dias ao serviço dos outros".

(Artigo publicado originalmente a 30 de março de 2019)

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