Primeiro português do At. Madrid fugiu da tropa e foi comparado a Pelé

Tal como João Félix, Jorge Mendonça chegou a Espanha aos 19 anos onde teve uma carreira brilhante e com muitas histórias para contar. (Texto publicado a 30 de junho de 2019)

Jorge Mendonça, ou Mendoza, como lhe chamam em Espanha, foi o primeiro português a jogar no Atlético de Madrid. Tinha 19 anos quando foi jogar para Espanha, no longínquo ano de 1957, precisamente a mesma idade com que João Félix vai tornar-se o 17.º futebolista português a representar o clube da capital espanhola.

Tal como o jovem formado no Benfica, Mendonça também era avançado e tornou-se uma das lendas do clube de Madrid, onde esteve nove épocas. "Não conheço bem o João Félix, só vi umas imagens, mas estou convencido de que o Atlético tem cérebros que percebem muito de futebol, e se vão pagar tanto é porque há algo de bom nele", atirou Jorge Mendonça em conversa telefónica com o DN.

O antigo jogador, agora com 80 anos, está impressionado com os 120 milhões de euros que o Atlético vai pagar. "O mercado está louco há muitos anos. Quando vim para Espanha não custei um cêntimo, mas dizem-me muitas vezes que nos dias de hoje eu não tinha preço", referiu, bem-disposto, deixando um desejo: "Oxalá o João Félix responda às expectativas criadas, mas tem de ter em atenção de que a Liga espanhola é muito dura e vai encontrar defesas mais difíceis de ser driblados. Espero que triunfe, mas que não se deixe levar pela glória, porque ela é efémera."

Do Sporting até à Corunha

Jorge Mendonça nasceu numa família de sportinguistas e o pai foi até fundador, jogador e treinador do Sporting de Luanda. Ali começou a dar os primeiros passos no futebol até que aos 11 anos se mudou para Lisboa e para o Sporting, onde fez a formação. Só que, quando foi para passar para sénior, em 1956, teve de abandonar o clube de Alvalade. Não tinha espaço no ataque e foi para Braga. "Como só era permitido jogar na primeira equipa aos 18 anos, tive de ficar um ano sem jogar."

No Sp. Braga brilhou na época de 1957-1958 e teve "a felicidade" de jogar ao lado dos irmãos Fernando e João. É então que se dá a mudança. "O campeonato tinha acabado em Portugal, mas em Espanha ainda faltavam oito jornadas e o Deportivo da Corunha estava em risco de descer à III Divisão. Um amigo do meu pai, um galego que vivia em Braga, pediu quase de joelhos para nós irmos ajudar o clube. E como queria jogar em Espanha, aceitei", recordou.

Treinador disfarçado para o levar

Foi só com o irmão Fernando porque as equipas só podiam ter dois estrangeiros. "Fomos como uma droga para a equipa, que passou a correr e a jogar como nunca. Acabámos por ganhar sete dos oito jogos e salvámos o Deportivo", acrescenta.

A ida para a Corunha mudou a vida de Mendonça. "O treinador do Atlético de Madrid, o checo Ferdinand Daucik, que era sogro do Kubala [grande jogador húngaro], foi avisado por um amigo sobre mim. E viajou para a Corunha para ver um jogo. Foi incógnito, com um chapéu muito grande para que não o identificassem pelo cabelo branco. E logo no intervalo do jogo disse ao diretor do Depor que queria levar-me. Falou depois com o meu pai e perguntou-me se queria ir. Disse logo sim", revela, lembrando que "tinha grande admiração por Di Stéfano, Puskas e queria ser como eles".

Após salvar o Deportivo viajou para Madrid. "Ganhava pouco [cerca de 300 mil pesetas], mas já competia com os craques. E um deles era o Vavá, um brasileiro que tinha acabado de ser campeão do mundo", conta, assumindo que depressa se afirmou na equipa. "Eu era um jogador muito completo. Tinha um jogo de cabeça excecional e saltava muito... não tinha nada a invejar no Cristiano Ronaldo nesse aspeto. Além disso tinha técnica, drible e fazia coisas novas para aquela altura", garante.

Torero e desertor alérgico a militares

Entre os adeptos do Atlético, Mendonça depressa foi elevado à categoria de ídolo e ainda hoje é habitual ser convidado a ir às peñas (casas de adeptos espalhadas por Espanha). "Nesses convívios costumam recordar um jogo da Taça das Taças com o Dínamo Zagreb, no qual marquei três golos e num deles driblei toda a equipa desde a nossa área. No final aconteceu algo nunca visto, pois invadiram o relvado e levaram-me em ombros pelas ruas da cidade. Foi inacreditável e passaram a chamar-me Torero [toureiro], porque aquilo era algo que só se via nas praças de touros."

Apesar da qualidade que exibia nos relvados espanhóis, Jorge Mendonça nunca representou a seleção nacional e ficou até de fora do Mundial de 1966, em que Portugal arrancou um terceiro lugar. Há, no entanto, uma explicação. "Quando já estava em Madrid tive de ir a Portugal fazer o reconhecimento militar e como a seleção militar era campeã do mundo queriam integrar-me nela. Mas eu já tinha contrato com o Atlético e se fosse à tropa não podia jogar em Espanha, por isso fugi e fui declarado desertor", explica, recordando que o então selecionador Armando Ferreira ainda o quis convencer a voltar atrás. "Prometeu-me que não iria haver represálias, mas como eu era alérgico aos militares disse logo que não." Aí decretou a sua sentença.

Antes, quando estava no Sp. Braga, chegou a ser convocado para a seleção nacional para um jogo particular com a Espanha. "A Federação pediu ao Belenenses para que eu jogasse por eles num amigável com o Valência. Era uma espécie de teste para saber se eu, um miúdo de 18 anos, tinha capacidade para jogar na seleção. Fiz uma grande exibição, acabei por ser chamado. Viajei para Madrid com a promessa de jogar ao lado do Matateu, mas à hora do jogo, no balneário, o selecionador disse que afinal jogava o Rocha, da Académica. Aquilo indignou todos os jogadores..."

Jorge Mendonça não estava destinado a jogar numa seleção. Depois de se naturalizar espanhol, esteve para integrar a seleção do país vizinho que foi disputar o Mundial do Chile, em 1962. "Recebi um telegrama em casa a dizer que estava convocado. Fiquei tão contente que fui para as Canárias descansar para estar bem para o Mundial. Quando regressei comunicaram-me que ficava de fora. Havia uma certa discriminação em Espanha, acabaram por ir três naturalizados, o Di Stéfano, Kubala e um paraguaio chamado Martínez", conta.

O jogo com Pelé e o amigo Eusébio

Mendonça acabou por jogar ao lado de Di Stéfano e Puskas numa seleção de Madrid, mas uma das histórias que mais o marcou foi no dia em que, pelo Atlético, defrontou Pelé, num jogo de preparação do Brasil para o Mundial de 1958, na Suécia. "Nesse dia, o jornal Marca tinha uma foto minha e do Pelé nas páginas centrais... comparavam-me a ele! O certo é que fiz um grande jogo e no final o selecionador brasileiro Vicente Feola disse que o Atlético de Madrid era Mendonça", revela com orgulho.

Apesar de não ter ido ao Mundial de 1966 com a seleção portuguesa, Jorge Mendonça tinha uma boa relação com Eusébio, de tal forma que estiveram duas vezes para jogar no mesmo clube. "Estive para ir para o Benfica, o Eusébio tentou levar-me, mas não tinham dinheiro para me pagar. E num ano em que o Eusébio teve um problema com o contrato, telefonou-me a perguntar se havia possibilidade de ir para o Atlético de Madrid. Disse-lhe para não dizer nada a ninguém e que ia falar com a direção do Atlético. Assim que lhes falei dessa possibilidade, ficaram logo de orelhas levantadas... Só que o palermita do Eusébio, numa conversa mais acesa com os responsáveis do Benfica, zangou-se e disse-lhe que o Atlético queria contratá-lo... E aí terminou tudo. O Benfica acabou por ceder e resolveram as coisas", explica o antigo avançado, que recorda o Pantera Negra como "um rematador incrível, um autêntico bombardeiro".

Jorge Mendonça viu jogar Di Stéfano, Puskas, Pelé, Eusébio, Maradona, Messi e Ronaldo, entre outros, e quando é desafiado a dizer quem é, afinal, o melhor futebolista de todos os tempos diz que "não se pode dizer que há um que é o melhor da história do futebol. "Houve grandíssimos jogadores. Se me perguntar qual é o melhor da atualidade, digo que é o Messi, sem qualquer dúvida. Tem uma inteligência fantástica", sentencia.

Tribuna e discriminação religiosa

Após nove épocas de rojiblanco, chegou a hora de partir. "Um dia estava a treinar e um empregado do Atlético veio chamar-me para ir a casa do presidente Vicente Calderón. Achei aquilo estranho e lá fui. Quando lá cheguei dei de caras com o presidente do Barcelona Enric Llaudet. O Calderón disse-me que ele me ia levar para o Barça e até já tinha o bilhete para ir. Como o Atlético estava com problemas financeiros e salários em atraso, fui e assinei o meu melhor contrato", revela, explicando que foram divulgados 13 milhões de pesetas [78 mil euros]", mas que "outra parte da transferência não se pode revelar".

Este dinheiro acabou por ser precioso para o Atlético. "Havia muitos problemas legais com a autarquia na construção do Estádio Vicente Calderón, sobretudo por causa de uma estrada que passava ao lado e que ameaçava o clube de ter de abandonar aquele local. O dinheiro da minha transferência ajudou a desbloquear o problema e acabaram por terminar a bancada, com a estrada a passar por debaixo dela", conta, lançando de imediato uma brincadeira: "Em Bilbau houve uma situação semelhante e venderam um jogador, o Jesús Garay, para acabar uma bancada a que passaram a chamar 'tribuna do menino Jesús'. Deviam ter feito o mesmo comigo... 'tribuna do menino Jorge'", atira entre gargalhadas.

Assinou pelo Barcelona por três épocas, mas só a primeira correu bem. "No segundo ano mudou o presidente, passou a ser Agustí Montal, que era muito católico. Eu era (e sou) Testemunha de Jeová e disse-me que por isso não voltaria a jogar no Barça. Ia para a bancada e o público gritava o meu nome", revela. Em 1969, com 31 anos, foi para o Maiorca, mas fez questão de manter o ordenado que ganhava no Barça. Foram poucos jogos os que realizou pela nova equipa. "O presidente do Maiorca deixou de me pagar e tive de andar a persegui-lo para que me pagasse", diz, explicando que acabou por denunciar o clube ao Tribunal do Trabalho. "Após dois anos, o juiz condenou o Maiorca a pagar-me uma quantia apreciável e essa decisão fez que fosse criada uma nova legislação para os futebolistas", revelou Jorge Mendonça, que deu então por terminada a carreira, até porque já andava a jogar "com o menisco fraturado".

Este caso fez que Mendonça fundasse a Associação de Futebolistas Espanhóis. "Fui eu que coloquei a primeira pedra, embora depois me tivessem tratado um bocado mal... mas isso agora não interessa", remata, ele que é considerado pelo jornal El País como possivelmente o melhor jogador, com mais classe, do Atlético de Madrid.

"Quero levar o walking football 7 para Portugal"

Aos 80 anos, Jorge Mendonça continua a ser um homem muito ativo que procura manter-se em contacto com o futebol. Orgulha-se de ter criado o Futebol 7 em França e de o ter levado, em 1984, para Espanha. Na última semana apresentou um novo projeto, o walking football 7, que na prática não é mais que um jogo de futebol disputado por sete jogadores de cada equipa, no qual não é permitido correr. Uma ideia que surgiu para fazer face às necessidades daquelas pessoas com limitações causadas por lesões, por exemplo.

"Registei esta ideia na propriedade intelectual aqui em Espanha e já consegui juntar vários antigos futebolistas e outras personalidades. E nos primeiros dias tivemos um elevado número de visitas ao nosso site (www.walkingfutbol7.com) e até já temos patrocinadores, com jogos já agendados com o Torino e no Médio Oriente. Está a ser um arranque espetacular deste projeto", revela ao DN, acrescentando que o objetivo é "internacionalizar esta modalidade".

"É uma forma deos ex-jogadores se manterem no futebol. E um dos próximos passos que queremos dar é levar o walking football 7 para Portugal", assume, bastante entusiasmado com este projeto.

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