Réveillon. Confusão sobre restrições e últimas medidas castigam pacotes de fim de ano

Os hotéis podem funcionar depois das 22h30 para hóspedes, mas há quem tenha dúvidas e feche. Até porque há limite de circulação entre concelhos e recolher obrigatório. Mantêm-se quebras na hotelaria apesar das reservas de última hora. As viagens estão reduzidas a 10 %.

Os operadores turísticos e da hotelaria esperavam melhorias na faturação com o fim de ano. E até desenvolveram programas para os dias 31 de dezembro e 1 de janeiro. Mas as últimas medidas, mais restritivas, fizeram que dessem passos atrás. Depois, perceberam que podiam fazer pacotes só para os hóspedes para além da meia-noite, mas muitos empresários têm dúvidas e terminam o jantar às 22h30. Apesar das reservas de última hora, nada se aproxima dos anos anteriores. A ocupação continua baixa, com exceção das unidades de turismo de habitação e no espaço rural. Nas viagens, assiste-se a alguma movimentação, mas é residual e as quebras atingem os 90%.

"Há uma descoordenação total. A secretária de Estado de Turismo enviou um e mail a dizer que tínhamos de fechar às 22h30, depois a AHRESP (Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal) veio dizer que não há quaisquer constrangimentos no que diz respeito aos hóspedes", lamenta Pedro Ribeiro, diretor de operações do grupo de hotéis Dom Pedro.

Têm quatro hotéis e oferecem um pacote que inclui o jantar de réveillon e o pequeno-almoço do dia 1, mas fecham o serviço de refeições às 22h30, podendo os hóspedes ficar nas zonas comuns. Têm, também, um brunch de Ano Novo. "Temos alguma procura mas com incidência quase exclusiva na noite de 31. A ocupação está muito semelhante nas três regiões [Lisboa, Algarve e Madeira], rondando os 30% nas unidades que temos em operação", refere Pedro Ribeiro. Uma ligeira melhoria em relação à média do ano, com quebras entre 75% e 90% dependendo do hotel.

Não é esta a interpretação dos responsáveis do grupo PortoBay, em Portugal, com unidades em Lisboa, Porto, Algarve e Funchal. "Vamos fazer um jantar de gala só para os hóspedes com um grupo de música ao vivo, mas sem pista de dança. Não podemos promover festas", esclarece Sílvia Rio, da direção comercial do PortoBay Liberdade. No dia 1 terão um almoço com início às 12h30. O ritmo das marcações tem aumentado nos últimos dias, estimando-se que consigam atingir 50% da lotação.

"Temos pedidos de última hora, o que tem acontecido sempre durante a pandemia. Telefonam com dúvidas e o que estamos a fazer é programas completamente voltados para dentro, como o pacote de dois dias que inclui o jantar de gala, com uma seleção de vinhos, e o pequeno-almoço."

Sem recolher obrigatório

A AHRESP pediu esclarecimentos à Secretaria de Estado do Turismo, o que esta confirmou ao DN. Os hotéis não podem promover festas e receber "passantes" fora das horas do recolher obrigatório, mas tal não contempla hóspedes, trabalhadores ou funções equiparadas (decreto nº 11-A/2020). No entanto, o esclarecimento não é claro: "Os empreendimentos podem assegurar o serviço de refeições aos hóspedes nos termos em que habitualmente vêm prestando e no estrito cumprimento das regras sanitárias em vigor." Pode questionar-se o que se entende por "serviço habitualmente prestado". Mas é categórico no que diz respeito à movimentação dos clientes. "Não existe restrição horária à circulação dos hóspedes nos espaços públicos do empreendimento, salvo as determinadas pelo próprio empreendimento, nem dever de recolhimento ao quarto."

Quanto à circulação e saídas das unidades hoteleiras, o recolher obrigatório mantém-se das 23h00 às 05h00, permitindo a circulação até às 13h00. Luís Pedro Martins, presidente da Turismo do Porto e Norte de Portugal, entende que também o poderá fazer entre concelhos, desde que seja para regressar a casa, como tem acontecido. Também não tem dúvidas quanto às limitações nos alojamentos turísticos: "Há alguma confusão no que diz respeito às restrições e que estão a contribuir para que as pessoas não façam reservas. Não há qualquer restrição relativamente à circulação nos hotéis, as pessoas não são obrigadas a ir para os quartos."

Elidérico Viegas, presidente da Associação dos Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), entende que o serviço de refeições deve encerrar às 22h30, o que não impede que os clientes fiquem nas zonas comuns. "Os hotéis podem fornecer serviço de take away a partir das 22h30, até porque os hóspedes não têm de estar confinados aos quartos." Acrescenta, no entanto, que não é isso que vai trazer muitos mais clientes. "O fim de ano é um período de grande procura, sobretudo para os nacionais. Neste ano, 80% das unidades hoteleiras do Algarve estão encerradas. Alguns dos hotéis que pensavam reabrir e os 20% que estão abertos viram comprometidas as suas aspirações quando foram anunciadas as novas restrições."

Foi a gota de água para o agravamento do negócio, sublinha Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP. "As estimativas em novembro já não eram boas e foram agravadas com as restrições: 48% dos restaurantes e 32% dos hotéis diziam que não aguentavam mais dois meses. As primeiras medidas tinham menos restrições e as pessoas compraram produtos e contrataram serviços. As novas restrições não só agravaram a quebra de faturação como as pessoas fizeram uma despesa que não tem retorno", protesta. Considera que as medidas de apoio para o setor são as que pediram, mas têm de ser rapidamente executadas.

O hotel Tivoli Marina Vilamoura preparou várias opções para a passagem de ano, uma das quais um jantar no restaurante principal que já esgotou. Tem jantares noutros dois espaços e um brunch, ambos com disponibilidade. Criaram um programa de réveillon privado em suites para fazer face às limitações devidas à pandemia. A taxa de ocupação é de 50%.

A ocupação difere do tipo de alojamento, sublinha Luís Pedro Martins: "No Douro, Minho e Trás-os-Montes, em unidades de pequena dimensão, a taxa de ocupação ronda os 80%. Quando falamos em hotéis de cidade e de grande dimensão, baixa para os 20% a 30%, com exceções."

O The Yeatman, com vista para o rio Douro, adaptou-se à realidade, estando já esgotadas as reservas para o jantar do dia 31, bem como o alojamento. Há lugares para o almoço do dia 1. O The Vintage House, do mesmo grupo, preparou uma escapadinha de fim de ano no Douro, que inclui o jantar de réveillon. "Dadas as circunstâncias, o balanço que fazemos da recetividade a este programa e às reservas é bastante positivo. As marcações para o jantar são maioritariamente de hóspedes, a maioria tem estadas de duas a três noites."

Viagens paradas

As agências de viagens também tentaram contrariar os efeitos da pandemia apostando em programas nacionais, mas sem sucesso. "Há uma correlação negativa muito forte entre os níveis da pandemia e a confiança para viajar. Não é estranho o que está a acontecer neste final de ano, com um grande número de infetados e a previsão de uma terceira vaga, as quebras de faturação são na ordem dos 90%. Não quer dizer que não existam pessoas a comprar viagens para Cabo Verde, as Caraíbas, para a Madeira ou as ilhas espanholas, mas é residual. O setor está paralisado", diz Pedro Costa Ferreira, presidente da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo.

Pedro Quintela, diretor de vendas e marketing da Agência Abreu, diz que se mantém a redução de vendas na passagem de ano. A procura é interna, os portugueses, procuram as ilhas e o continente, mais casais ou famílias que pretendem passar o ano em ambiente íntimo, mas em segurança.

No entanto, está otimista: "As notícias mais recentes dão-nos conta de um futuro promissor e de esperança na retoma e isso já tem reflexos nas pesquisas para 2021 que os nossos clientes têm feito nas nossas lojas/site, demonstrando uma enorme vontade de voltar à normalidade." Têm tido mais procura para destinos de praias exóticas como Maldivas, Seychelles, Zanzibar, e para destinos mais tradicionais como Caraíbas e Dubai. Já os destinos tradicionais nesta época, como Cabo Verde, Brasil, EUA e até as cidades europeias, tiveram pouca procura.

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