Em 25 anos, CAIS ajudou 15 mil pessoas a integrar-se na sociedade

A 15 de dezembro de 1994 saía para as bancas a primeira edição da revista CAIS, farol da associação que em 25 anos de vida já facilitou a integração na sociedade de cerca de 15 mil pessoas.

Rui Marques estava em Londres em maio de 1994 e deparou-se com um vendedor de rua da revista The Big Issue. Acendeu-se-lhe uma luz no pensamento e em sete meses liderava um grupo que em dezembro lançou a primeira edição da revista CAIS, farol da atividade psicossocial de uma instituição que em 25 anos já "devolveu" à sociedade cerca de 15 mil pessoas que viviam nas suas margens. Sem-abrigo e pobres extremos incapacitados para lidarem com as convenções da sobrevivência social viram derrubado o estigma de párias, tornando-se membros autónomos, com a autoestima e a dignidade restauradas, do clube dos que sobrevivem e vivem do seu trabalho.

"Há 25 anos um grupo de pessoas achou que não deveria ser indiferente a esta realidade. Reconhecendo o muito que já se tentava fazer na busca de soluções de integração de pessoas em situação de sem-abrigo, procurou somar a esse esforço algo que correspondesse a uma necessidade não resolvida. Percebeu que além de "dar o peixe" ou "ensinar a pescar", havia que trabalhar a reconstrução da dignidade de cada pessoa excluída e, se possível, contribuir para que cada uma delas pudesse encontrar uma oportunidade - ainda que transitória - de trabalhar e ser, por isso, remunerada", escreveu Rui Marques no editorial da edição de dezembro de 2019, enquanto diretor convidado. "A revista nascia como um produto único, que procurava leitores que a comprassem não por pena de quem a vendia mas por ser uma revista de culto, imperdível e colecionável. Foi aí que começámos a ver acontecer esses momentos mágicos em que os vendedores da CAIS eram olhados com a dignidade desejada e, ainda antes de venderem alguma revista, podendo abordar na rua quem com eles se cruzava, não para pedir nada, mas para oferecer algo de especial, exclusivo e único", acrescentou o antigo diretor de programas da Rádio Renascença, da RTP 1 e da RFM, além de diretor adjunto na fundação da TVI (1991) e primeiro presidente da CAIS (até 1999).

Diretora executiva da associação desde 2015, Conceição Cordeiro recorda que "o mundo mudou, Portugal mudou e a CAIS foi-se adaptando". O foco na reabilitação dos sem-abrigo foi sendo alargado. "Diria que a CAIS não é propriamente uma agência social de trabalho. Vai além. Os objetivos são a capacitação pessoal e social, trabalhando a inteligência emocional, que é uma componente muito importante para a autonomia. Há muitas pessoas aqui que não integram o mercado de trabalho. Como têm mais de 60 anos, ou estão muito fragilizadas, reganham a autoestima. Temos utentes que fazem voluntariado noutras instituições", explica ao DN.

A revista continua a iluminar o caminho e, em 15 anos, foram vendidos perto de 2,6 milhões de exemplares, com 70% do valor a reverter para os vendedores e 30% para as ações de recuperação social dos utentes. É, muitas vezes, a porta de entrada na CAIS, uma vez que permite que pessoas que estiveram demasiado tempo à margem recuperem capacidades aparentemente tão básicas como voltar a saber comunicar com os outros.

Um vendedor da revista tira 200 a 250 euros por mês e pode mesmo chegar aos 300.

"Muitas pessoas não estão capacitadas para ir para o mercado trabalho e vão vender a revista, durante algum tempo, ganhando um complemento ao rendimento social de inserção (RSI). Ficam a saber falar com as pessoas, a saber estar na rua, treinam a capacidade de resposta à frustração, discutem o conteúdo da revista com o nosso responsável pela revista e o jornalista, além de com o diretor escolhido, e participam na decisão de se os temas escolhidos fazem sentido", explica Conceição Cordeiro.

Segundo os dados estimados pelo relatório de atividades de 2018 da associação, os vendedores de rua da revista conseguiram no ano passado um rendimento médio anual de 2 190,26€ (182,52 €/mês), que é semelhante ao valor obtido através do RSI (valor máximo, em 2019, de 189,66 €).

"Vendem a revista a 2€ e 70% fica para eles. Em média, um vendedor da revista tira 200 a 250 euros por mês e pode mesmo chegar aos 300. Os valores não interferem no RSI porque são muito baixos", atualiza a diretora executiva, com valores a que acede através do trabalho diário com as equipas técnicas da CAIS e no contacto com os utentes.

Para Conceição Cordeiro, no entanto, há todo um trabalho menos visível, mas com maior impacto na vida dos utentes a médio e longo prazo. "A ideia é capacitar as pessoas para que possam ganhar a sua cidadania ativa. Passa pela introdução no mercado de trabalho, pela recuperação da autonomia. Às vezes, a pessoa não está preparada ou não há oportunidades laborais e trabalha-se através das equipas técnicas a inserção em grupo, o saber relacionar-se com o outro e a recuperação da autoestima", insiste. "A componente profissional acaba por ser a mais fácil de recuperar e absorver. Aprender a executar uma tarefa ou um trabalho é mais fácil do que incutir competências pessoais, que é o mais difícil e faz perdurar mais tempo a exclusão", sublinha.

Os grandes pilares de atuação da CAIS são o Projeto Abrigo, os projetos de empregabilidade, as respostas sociais e o voluntariado e a mentoria, para os quais contará em 2020 com um orçamento idêntico ao do ano que agora acaba: 621 mil euros. Este bolo é financiado em 50% pelo setor público (Segurança Social, Instituto Português do Desporto e Juventude, entre outros) e os outros 50% são sustentados pelo setor privado (mecenato e financiamento).

Este dinheiro permite o acompanhamento, em média anual, de 560 pessoas, o atendimento de mil ou a edição e impressão da revista que vende quase 104 mil exemplares (a dividir por 12 edições). Para isto tudo funcionar, a CAIS tem 15 funcionários na folha de pagamentos (12 em Lisboa e três no Porto), entre a direção, assistentes sociais, psicólogos, administrativos e comunicação.

76 conseguiram trabalho em 2019

E cria condições para que dezenas de utentes voltem, ou entrem, no mercado de trabalho. "Sobretudo, em empresas que têm armazéns, atendimento ao público ou do setor da restauração, porque estamos a falar de pessoas sem grandes qualificações profissionais", explica a diretora, referindo que uma das grandes necessidades de recrutamento no país pode ser resolvida parcialmente pela CAIS - funcionários para o setor da hotelaria e restauração. "Vai ao encontro do que muitas empresas precisam."

A esmagadora maioria (re)começa a relação laboral através de estágios proporcionados pelo Projeto Abrigo, apoiado por 15 empresas usualmente em acordos de dois anos, que providenciam vagas. "Mesmo que não fiquem na empresa onde estagiaram, ficam com referências curriculares que ajudam na obtenção de emprego numa fase posterior", comenta.

"Mas muitas destas empresas já incluem nos seus processos de recrutamento utentes da CAIS. É mais trabalho indiferenciado, mas já temos pessoas cada vez mais qualificadas. Fazem contratos a prazo, de três ou de seis meses, e muitas acabam por integrar os quadros da empresa", prossegue.

Os nossos voluntários e mentores acompanham estas pessoas no mercado de trabalho. Vão tomar café com eles, ouvem-nos, aconselham-nos.

Isto faz que os resultados sejam muito bons a lançar as pessoas no mercado de trabalho, mas também a manterem o posto de trabalho por mais tempo. Em 2018, 76 pessoas conseguiram trabalho e, no primeiro semestre deste ano, já foram lançadas 56 no mercado", ilustra.

E ainda há o futebol de rua, que movimenta 1221 jogadores, 87 voluntários, 308 técnicos, 155 equipas (de 116 organizações oriundas de 16 distritos e 3 locais das regiões autónomas dos Açores e da Madeira). "Também não é só o futebol, do projeto fazem parte uma série de atividades. Termina com o campeonato nacional e o mundial e as instituições desenvolvem a capacitação de competências pessoais, além de permitir o acesso ao desporto e a inclusão psicossocial", remata Conceição Cordeiro.

O futuro?

Após 25 anos de adaptação às mudanças das situações de emergência social, a CAIS tem consciência de que tem de manter as políticas de reinserção psicossocial e revalorização pessoal, mas também tem investir nas novas oportunidades e/ou desafios que o mundo cria.

"Acho que vamos estar sempre em mudança, porque o mundo vai mudando. Além da questão fundamental de ajudarmos os utentes a ser cidadãos ativos, temos de olhar para outros fatores. Agora, temos o crescimento da economia digital e estamos a apontar para aí. Queremos construir um mundo em que toda a gente tenha lugar. A CAIS quer conseguir despertar nas pessoas a necessidade de não passarem ao lado e de não virarem a cara", lança Conceição Cordeiro.

"Se o panorama socioeconómico está diferente? Eu diria que sim. As empresas têm fortalecido a política de responsabilidade social", analisa a diretora da CAIS, não escondendo que ainda há um largo caminho para percorrer no trabalho social, sobretudo quando confrontada com os números do voluntariado em Portugal - quase 700 mil fazem voluntariado, mas Portugal está muito abaixo da média da União Europeia e as horas de trabalho voluntário equivaleram a 2,9% do total de horas trabalhadas na economia portuguesa no ano passado.

Diria que olhando para a dimensão da população podíamos ser muito mais [voluntariosos].

"Diria que olhando para a dimensão da população podíamos ser muito mais. Há organismos do Estado e empresas que já permitem que a pessoa utilize parte do seu tempo profissional para fazer voluntariado", admite, falando de "empresas que são um exemplo" e de "um caminho longo a percorrer".

"Se a sociedade é mais egoísta? Basta olhar para o relatório sobre a pobreza. Já temos aqui uma quota de utentes que são trabalhadores pobres e também por isso é que a integração no mercado de trabalho não pode ser o objetivo último", defende.

Conceição Cordeiro duvida da bondade de políticas estatais para incentivar o voluntariado, através da educação ou de outros setores essenciais da sociedade. "Não será com questões legais que se mudará a consciência, mas claro que há questões normativas a melhorar. Temos é de aprender a ser voluntários", conclui a diretora-geral da CAIS.

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