Contra um Sá Carneiro pop. A biografia completa de uma vida incompleta

A biografia de Francisco Manuel Lumbrales de Sá Carneiro levou três décadas a ser escrita em definitivo, mesmo que entretanto algumas aproximações fossem feitas. Só em outubro de 2010 é que a primeira edição da obra (editora A Esfera dos Livros) desvendou o homem e o político em todos os pormenores, como o de ter sabido que a Revolução de Abril estava na rua durante o duche matinal.

O fim abrupto da vida de Sá Carneiro fez que um pouco mais de 600 páginas fossem suficientes para a contar. O autor, Miguel Pinheiro, não ficou frustrado por só poder escrever "metade" de uma biografia devido à morte antes do tempo do social-democrata: "Mesmo assim foram tantas páginas! Sá Carneiro viveu num período em que a vida acelerou muito: entre o 25 de Abril de 1974 e 4 de dezembro de 1980 passaram-se pouco mais de seis anos mas é incrível a quantidade de reviravoltas e tudo o que aconteceu. Parece que houve uma condensação do tempo e os acontecimentos decorreram a uma grande velocidade, daí que todas as mudanças fizessem que tivesse várias vidas: uma primeira, pacata e expectável como advogado no Porto; de repente, entra na política ainda no Estado Novo ao candidatar-se à Assembleia Nacional e, a seguir à Revolução, entra noutra vida."

Para Miguel Pinheiro, apesar de Sá Carneiro ter morrido muito novo, existiram na sua vida "várias tangentes à morte, como a de um acidente de carro que o deixou entre a vida e a morte e várias sequelas para o futuro. É nesse momento que a biografia começa, quando vai ser operado e pede a Frei Mateus que seja rezada uma última oração".

Pergunta-se se essas reviravoltas no percurso político de Sá Carneiro que estão registadas na biografia podem fazer dele um homem de entusiasmos e que, ao ser-lhe impossível transpor certas dificuldades, desistia: "Pode até parecer uma solução essa desistência, mas são situações muito diferentes, apesar de haver um padrão que se mantém, o de tomar as decisões só. Não tentava arrastar com outras pessoas. Foi o que se viu no tempo da Ala Liberal, tendo renunciado ao mandato porque se tornara evidente para ele que nada mais havia a fazer após ter-se confrontado com o papel de bibelot reservado aos deputados liberais. Não existia uma hipótese de acontecer uma mudança de regime com a sua atividade e, não se tendo apercebido de tal na altura da eleição, momento em que Marcello Caetano já tinha desistido da renovação, demorou um pouco a ver. Foi embora ao perceber que tinha batido contra uma parede."

Quanto às desistências no PPD/PSD? "O que aconteceu foi, primeiro, deixar a liderança porque está doente; ao regressar, num confronto com Sousa Franco, chega a entregar o cartão de militante, ao que se sucedem uma série de momentos em que ameaça ou afasta-se mesmo e, finalmente, quando morre, está nas vésperas de ter igual comportamento porque, ao ganhar a segunda maioria absoluta nas legislativas e jogar tudo nas eleições presidenciais achava que era impossível reformar o país sem a Presidência da República. O célebre slogan "Um Governo, Uma Maioria, Um Presidente", não se deve a uma sede de poder, mas para ser capaz de fazer a reforma do regime. Quando entende que vai perder as presidenciais, estava disponível para se ir embora e começou a preparar a retirada. Tinha planeado demitir-se de primeiro-ministro, admitia deixar o PSD e, eventualmente, formar outro partido. Ou seja, o que une as várias desistências que foi tendo ao longo da vida política era evitar ficar preso a um pântano político em que se limitaria a gerir impasses."

Apesar da dimensão da investigação, Miguel Pinheiro considera que "há uma parte que continua obscura e por contar decentemente", a que tem que ver com o verdadeiro papel do PSD, ou de uma parte do partido, durante o PREC [Processo Revolucionário em Curso]: "É uma altura que apanha Sá Carneiro fora do país. Ele teve uma depressão, foi tratado em Inglaterra e passou um tempo em Espanha devido às sequelas do acidente, ou seja, está fora no período mais quente da Revolução. Continua a ser um limbo muito grande, de que as pessoas não querem falar e falta documentação."

Entre a primeira edição e a reedição o autor apenas acrescentou um prólogo:"É uma tentativa para perceber porque continua a ser uma personagem com relevância, mas também porque queria entender um ângulo que se acentuou na última década em redor de Sá Carneiro: uma visão pop e em que se olha mais para ele como um herói romântico ou um símbolo. O que acontece quando se transforma uma figura política numa figura pop é estar a retirar-lhe as razões que o tornaram relevante na sua época. Ele era tudo menos um político consensual, teve imensas dificuldades e inimigos, e conseguiu ganhar eleições - e a primeira maioria absoluta - lutando contra esses inimigos. Essa popificação dos últimos anos faz com se esqueça o principal, que dividiu o regime e, se tivesse sido um derrotado, teríamos um país diferente e que não escaparia a anos de retrocesso. Basta ver que enquanto foi primeiro-ministro existia o Conselho da Revolução."

Com o fim da biografia, Miguel Pinheiro não pensou nos cenários de uma vida política de Sá Carneiro se este tivesse sobrevivido a Camarate: "O pior que se pode fazer é esse raciocínio de "e se fosse vivo?", mesmo que haja pessoas que consideram ter o poder mediúnico de encarnar o seu espírito e dizerem o que ele pensaria hoje."

Quanto a Camarate? "Às vezes existem mistérios que se prolongam até surgirem dados inesperados. Pode ser que um dia alguém encontre papéis guardados no baú, gravações ou, num arquivo, o documento perdido que, finalmente, permitirá perceber o que aconteceu. Camarate, apesar de todas as investigações, até hoje não gerou uma unanimidade e é um assunto por encerrar."

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