Morreu Zeca Mendonça, histórico assessor do PSD

O homem que esteve ao lado de todos os presidentes do PSD morreu esta quinta-feira em casa, vítima de cancro no pulmão, confirmou a Presidência da República, onde agora trabalhava.

Dedicou a vida profissional ao PSD, onde estava há mais de quatro décadas. Começou como segurança, mas acabaria por trabalhar com todos os presidentes do partido - de Francisco Sá Carneiro a Pedro Passos Coelho, sendo Rui Rio a única exceção. O eterno assessor do PSD, agora a trabalhar com o Presidente da República, morreu esta quinta-feira de cancro do pulmão, disse ao DN fonte da Presidência.

"O Zeca serviu de forma discreta, leal, competente e devotada todos os líderes do PSD. E privou de forma afetuosa com todos os quadrantes partidários, nessa medida servindo a democracia portuguesa", foi a reação do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa ao Expresso, depois de ter conhecimento da morte do amigo de longa data.

Na nota de pesar pela sua morte, o partido que ajudou a criar - recolheu algumas das cinco mil assinaturas necessárias para a legalização - recorda a seriedade e a dedicação com que serviu o PSD.

Rui Rio, o líder social-democrata com quem não esteve na assessoria de imprensa reagiu no Twitter: "Morreu o Zeca Mendonça, um profissional competente, honesto e de enorme dedicação ao PSD. A sua simpatia e disponibilidade a todos cativava. O Zeca faz parte da história do PPD/PSD e deixará, para sempre, uma enorme saudade em todos nós. A minha sentida e muito amiga homenagem."

Zeca Mendonça, que fez 70 anos no passado dia 23, esteve no PSD desde a sua fundação. No final de 2017 soube-se que "o Zeca", como era chamado por políticos e jornalistas, iria trabalhar com o Presidente da República em Belém. Já antes tinha estado ao lado de Marcelo Rebelo de Sousa quando este foi presidente do PSD.

José Luís Mendonça Nunes foi funcionário do PSD desde 1974, tendo começado como segurança, e estava no gabinete de imprensa do partido há mais de 40 anos, desde 1977, quando aceitou o convite de Marcelo Rebelo de Sousa. Nunca foi assessor de um primeiro-ministro ou de ministros - trabalhou sempre com o partido. Ao todo, como assessor de imprensa, esteve com 17 presidentes sociais-democratas.

Não há jornalista de política que não conheça ou tenha falado com Zeca Mendonça. Era o mais antigo assessor político em funções. Nos corredores políticos, era respeitado da direita à esquerda. Depois de ser convidado para trabalhar com Marcelo - segundo o relato que fez a alguns amigos - encontrou o primeiro-ministro António Costa nos corredores do Parlamento que lhe terá dado os parabéns pela promoção e que lhe terá dito que era "a segunda pessoa do PSD" de quem mais gostava.

As peças de teatro e a amizade com artistas

Zeca Mendonça nasceu em Lisboa, na freguesia de Santos-o-Velho, em 23 de março de 1949. Era casado com Rosa Mendonça.

Era o segundo de cinco filhos de um pequeno industrial de mobílias com uma fábrica em Lordelo (Guimarães), cresceu na capital (na freguesia de Arroios) e frequentou o liceu Camões, época em se liga à Juventude Operária Católica, onde também militava o futuro dirigente da CGTP/Intersindical Manuel Lopes, que era o ensaiador do teatro.

Foi essa ligação que o levou a representar em algumas peças. Nos anos 60, torna-se próximo de vários artistas, como Paulo de Carvalho e Carlos Mendes, e, em especial, do cantor Jorge Palma, com quem parte à aventura para o Algarve em 1968.

Nessa viagem, chega a cantar uns fados "para estrangeiros". Regressa a Lisboa de cabelo comprido, que mantém até ser chamado a cumprir serviço militar: entre 1970 e 1972, deu instrução de obuses no RAL 1, unidade militar que seria importante no 11 de março e no 25 de novembro de 1975, passando, entretanto, a chamar-se RALIS.

É nesse período, que participa numa manifestação contra o regime, que considera ter sido a causa de ser convocado para duas comissões de serviço na Guiné Bissau, onde acabaria por cumprir apenas uma, devido ao 25 de Abril. Ainda ponderou seguir o destino de amigos e emigrar, mas "por moeda ao ar", contou ao Público, decidiu embarcar para o antigo Ultramar.

E foi quando regressou a Lisboa vindo do Ultramar, que foi convidado pelo amigo João Inácio Simões de Almeida para a segurança de um novo partido, o PPD. Tinha como missão vigiar a sede da Duque de Loulé e também comícios, mas como voluntário. Das recordações do Verão Quente de 1975, recordou na mesma entrevista àquele jornal: "Era o tempo das ameaças telefónicas, alguém chamou as minas e armadilhas que felizmente não chegaram a entrar no edifício porque o sétimo andar estava cheio de cocktails molotov."

PSD lembra dedicação e seriedade de Zeca

"Nesta hora, faltam as palavras para expressar a sua importância para o Partido e para todos aqueles com quem se cruzou ao longo da vida. Dedicação, seriedade e amizade são apenas alguns dos valores em que pensamos quando o relembramos", escreveu o PSD na nota de pesar pela morte de Zeca Mendonça.

O partido onde Zeca sempre trabalhou afirma que "foi com profunda consternação" que tomou conhecimento da notícia da morte do histórico assessor. "O seu legado permanecerá sempre connosco", despede-se o PSD.

Antigos líderes recordam "laranjinha" dedicado

Numa declaração escrita, Cavaco Silva, que liderou o PSD entre 1985 e 1995, refere que foi com "tristeza" que tomou conhecimento da morte de Zeca Mendonça e recorda que ainda há poucos dias falou com ele.

"A propósito do seu aniversário, há uns dias, tive oportunidade de transmitir ao Zeca e à família que nunca esquecerei o quanto ele me ajudou na minha vida política. Foram dezenas de campanhas feitas com o seu apoio direto, que mostraram a sua enorme lealdade, capacidade e dedicação, ao PSD e, dessa forma, a Portugal. Presto-lhe uma sentida homenagem", lê-se na nota assinada por Cavaco Silva.

No Twitter, o cabeça-de-lista do PSD às europeias, Paulo Rangel, também recorda as suas memórias com o histórico assessor social-democrata. "O Zeca Mendonça ensinou-me muito; muitíssimo. Convivemos de perto quando fui líder parlamentar e desde então ficámos sempre a falar. Atento, previdente, discreto. Nunca se impunha e impôs-se-nos a todos. Nele e com ele, o humanismo era poder. O poder de fazer bem. Bem ao outro", refere.

Pedro Santana Lopes, líder entre 2004 e 2005, também lamentou a "perda de um amigo e confidente" e recordou Zeca Mendonça como "a boa sombra" de todos os líderes sociais-democratas.

"É a perda de um grande amigo, de um confidente meu e acho que de todos os presidentes do PSD. Era a nossa sombra, a boa sombra, na qual nos abrigávamos muitas vezes, nomeadamente quanto o tempo piorava", lembrou Santana Lopes, em declarações à Lusa.

José Manuel Durão Barroso, que liderou o PSD entre 1999 e 2004, considerou que o antigo assessor "faz parte da história" do partido. "Notícia muito triste: morreu o nosso Zeca Mendonça, uma pessoa muito boa que faz parte da história do PSD", escreveu José Manuel Durão Barroso, na rede social Twitter.

Luís Marques Mendes reagiu à morte de "um grande amigo" e recordou o histórico assessor do partido Zeca Mendonça como "uma pessoa com o coração do tamanho do mundo".

"Um laranjinha de uma dedicação sem limites. Um colaborador de uma lealdade exemplar", destacou Marques Mendes, numa declaração à agência Lusa. Marques Mendes, que liderou o partido entre 2005 e 2007 e a bancada parlamentar entre 1996 e 1999, defendeu que o PSD "deve muito" a Zeca Mendonça.

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