Comunistas apelam a diálogo com o partido

O declínio eleitoral causa "desgosto" a muitos que se identificam com a causa comunista. Mas Jerónimo de Sousa garante que PCP está firme na luta pelos trabalhadores e o povo.

6 de março de 1921. Cem anos contados no ano que se avizinha. O PCP é o mais velho partido português com existência ininterrupta. Nasceu antes da instalação da ditadura, combateu-a na clandestinidade, viveu as alegrias do 25 de Abril e as dores que se seguiram, integrou a democracia e até deu a mão a um governo socialista. Chegou até aqui , como diz ao DN o atual secretário-geral do partido Jerónimo de Sousa, "indispensável e insubstituível aos trabalhadores e ao povo português na luta pela liberdade, a democracia e o socialismo". Hoje bastante mais fraco em termos eleitorais do que nos anos que se seguiram à revolução.

"Os comunistas que não estão no PCP, e são centenas dispersos pelo país, apelam ao partido para conversarmos. Não se trata de entrarmos novamente para as suas fileiras, mas vemos com muita preocupação e até desgosto o declínio eleitoral, já que há muitos anos que não passa a fasquia dos 8%, e queremos ajudar." Quem o diz é Carlos Brito, aos 87 anos, e hoje dirigente e porta-voz da Renovação Comunista, mas cuja história de vida se confunde em muito com a do PCP, de onde saiu em 2003. Basta lembrar que do longo percurso político, em que foi dirigente, deputado (logo na Assembleia Constituinte) e líder da bancada parlamentar comunista e diretor do jornal Avante!, Carlos Brito foi perseguido durante o regime salazarista e preso três vezes, cumprindo um total de oito anos nas cadeias do Aljube, Caxias e Peniche.

"Os comunistas que não estão no PCP, e são centenas dispersos pelo país, apelam ao partido para conversarmos. Não se trata de entrarmos novamente para as suas fileiras, mas vemos com muita preocupação e até desgosto o declínio eleitoral, já que há muitos anos que não passa a fasquia dos 8%, e queremos ajudar"

Ele que entrou em rota de colisão com a direção do PCP, sob a batuta do líder histórico Álvaro Cunhal, nos idos anos 1990, pela ala dos renovadores, que se insurgiram contra a rigidez marxista-leninista em plena queda do Muro de Berlim e dos regimes de leste, tem agora autoridade para elogiar "o rasgo" de Jerónimo de Sousa. "Achei notável o desafio que o secretário-geral do PCP lançou ao PS em 2015 de "o PS só não governa se não quiser"", afirma e reforça que o voto favorável do partido no Orçamento do Estado para 2021 também é uma marca muito positiva. Senão, diz: "Abria-se uma crise política numa situação tão má para o país como é a da pandemia." É por isso, mas não só, que gostava de voltar a restabelecer o contacto político com os antigos camaradas.

"Achei notável o desafio que o secretário-geral do PCP lançou ao PS em 2015 de "o PS só não governa se não quiser""

Carlos Brito entende que este PCP do século XXI deve ter a "coragem" de explicar aos comunistas porque "deu estes passos" e porque tem de se "empenhar numa missão que é dialogar com o centro-esquerda, que é o PS, para construir soluções políticas" capazes de responderem à crise económica e social do país.

Jerónimo lembra combates

O líder comunista elogiado por Carlos Brito recorda ao DN as duras condições em que o PCP se afirmou no país nestes cem anos, quando seis anos após ter nascido se deu o golpe de Estado e a instauração da ditadura fascista e a sua ilegalização. "Foi nas duras condições de clandestinidade que o PCP, caracterizando o fascismo pela sua natureza de classe [como "ditadura terrorista dos monopólios (associados ao imperialismo) e dos latifundiários"], assumiu como inseparáveis o objetivo do derrubamento da ditadura fascista e da instauração da democracia política e os objetivos da transformação revolucionária das estruturas económicas, sociais e culturais e da defesa da soberania e independência nacionais", diz Jerónimo de Sousa

Carlos Brito considera mesmo "um feito espantoso que o PCP se tenha afirmado sob o manto da repressão que era violenta e sofisticada ao mesmo tempo e até moderna na sua maneira de operar, basta ver que já existiam escutas".

"Foi nas duras condições de clandestinidade que o PCP, caracterizando o fascismo pela sua natureza de classe [como "ditadura terrorista dos monopólios (associados ao imperialismo) e dos latifundiários"], assumiu como inseparáveis o objetivo do derrubamento da ditadura fascista e da instauração da democracia política"

A história é tão longa que seria difícil condensá-la em poucas linhas. Mas sob a liderança de Bento Gonçalves, que morreu no Tarrafal, o partido reorganiza-se em 1941 e "constituiu-se como grande partido nacional de Viana do Castelo a Vila Real de Santo António". Segue-se uma liderança coletiva até 1961, quando Álvaro Cunhal se torna secretário-geral do partido até 1992. Seguiu-se Carlos Carvalhas na liderança e em 2004 Jerónimo de Sousa assume o comando do PCP.

Da história do partido, o atual secretário-geral destaca: "A ação do PCP foi decisiva em todos os grandes combates travados contra a ditadura fascista - contra a repressão, pela liberdade e a democracia, contra a carestia de vida e a fome, pelas reivindicações dos trabalhadores, pela conquista das oito horas de trabalho nos campos, pelo fim da guerra colonial e pela independência dos povos das ex-colónias, contra o nazifascismo e a guerra. Combates travados ao longo de 48 anos e que haviam de conduzir ao derrubamento do fascismo pelo levantamento militar e popular do 25 de Abril e às profundas transformações democráticas da Revolução de Abril que mais de quatro décadas de política de direita de governos do PS, PSD e CDS comprometeram profundamente."

"A ação do PCP foi decisiva em todos os grandes combates travados contra a ditadura fascista - contra a repressão, pela liberdade e a democracia"

Jerónimo garante que o combate do PCP, hoje, continua a ser pela resposta aos problemas e justas reivindicações dos trabalhadores e do povo. "Um combate pelo desenvolvimento soberano do país, pelo progresso social, pela paz e cooperação com todos os povos, por uma política alternativa à política de direita de submissão às imposições da União Europeia, do euro e dos grupos monopolistas - a alternativa patriótica e de esquerda - que se integra na luta por uma democracia avançada simultaneamente política, económica, social e cultural, indissociável da luta pelo socialismo e o comunismo."

No recente congresso do partido em Loures, em plena pandemia, Jerónimo manteve-se ao leme do PCP. Mas há já sinais de que daqui a quatro anos segue-se um novo secretário-geral. Na calha está agora eurodeputado e candidato às eleições presidenciais João Ferreira, um comunista que tem dado a cara por vários combates eleitorais do partido e que representa uma geração mais jovem.

Os secretários-gerais

Álvaro Cunhal

Nascido em 1913, no seio de uma família burguesa, Álvaro Cunhal foi o líder carismático do PCP, que durante o período de combate à ditadura esteve preso durante 15 anos em Peniche, de onde conseguiu fugir. Foi um dos rostos do 25 de Abril e foi ministro sem pasta em vários governos provisórios. Licenciado em Direito, escritor sob o pseudónimo de Manuel Tiago e pintor ao mesmo tempo, liderou o PCP até 1992.

Carlos Carvalhas

A tarefa de suceder a Álvaro Cunhal em 1992 não foi absolutamente nada fácil. Carlos Carvalhas, nascido em 1941, pegou no partido que venerava o antecessor. Licenciado em Economia, manteve-se como secretário-geral até 2004, com o PCP já a denotar desgaste eleitoral e a fixar-se na fasquia dos 8% nas eleições legislativas. Foi deputado e candidato à Presidência da República em 1991.

Jerónimo de Sousa

Ao contrário dos antecessores, Jerónimo de Sousa era operário metalúrgico, embora tenha sido já deputado à Assembleia Constituinte, a que se seguiram mandatos em todas as legislaturas. Nascido em 1947, em Santa Iria da Azóia, em Loures, o atual secretário-geral do PCP estendeu a mão a António Costa para viabilizar a geringonça e o governo socialista em 2015, o que lhe valeu fortes críticas. Mas manteve-se firme e aprovou o orçamento de Estado para 2021. Tem em braços um partido fragilizado eleitoralmente, que nas legislativas de 2019 se ficou pelos 6,3% e 12 deputados.

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