Chaves da recuperação para 2021? Contenção da epidemia, multilateralismo e política monetária

O impacto do surto pandémico da covid-19 fez a economia mundial mergulhar em apenas nove meses na maior recessão de um século, com o produto interno bruto (PIB) global a regredir 4,4%(1). Prevê-se que em 2020 o produto interno bruto recue em todas as economias (com exceção da China) entre 2% e 12% (1) como resultado das disrupções provocadas pela pandemia tanto do lado da oferta como do lado da procura.

Qualquer previsão económica para 2021 que não seja suportada numa projeção epidemiológica será um exercício vazio e desprovido de sentido. Iniciaremos 2021 no pico da epidemia, o que aponta para um primeiro semestre com o PIB mundial ainda em recessão. Por muito expressivo que seja o crescimento no segundo semestre de 2021, pesará o efeito do primeiro semestre. Assim, prevemos um ano de 2021 de estabilização da economia e recuperação mais enfática apenas em 2022.

Enquanto a crise sanitária não estiver superada, quaisquer apoios que possam ser dados à economia apenas compram tempo. O enfoque tem de estar na raiz do problema - o controlo da pandemia. A prioridade em 2021 passa por identificar e eliminar as linhas de transmissão do vírus e vacinar a população.

Qual o caminho de saída para a economia? Com o nível de endividamento global a atingir o patamar mais elevado de sempre (331% do PIB global) (2) a palavra de ordem terá de ser a sustentabilidade das finanças públicas. Em 2021 e 2022 será necessário reduzir o défice público para alcançar maior sustentabilidade orçamental - e evitar a recaída que sofremos na crise das dívidas soberanas de 2011.

Se não existe espaço orçamental para apoiar as economias com mais despesa pública, há contudo espaço de atuação ao nível da política monetária para combater os efeitos da recessão. A ação coordenada de todos os bancos centrais tem conferido resiliência e estabilidade ao financiamento da economia global. A ação mais enfática do BCE e a resposta coordenada da União Europeia mostram um progresso face à crise de 2008-2013. Os avanços na política monetária têm mantido as yields da dívida soberana na zona euro próximas de zero (ou mesmo negativas) e têm limitado o risco de se enfrentar uma nova crise de confiança na zona euro. Ao mesmo tempo o custo médio de financiamento na área euro para as empresas e para as famílias (no crédito à habitação) está em mínimos históricos de 1,5% e 1,4%, respetivamente (3). Ainda assim, o volume de ativos adquirido pelo BCE é um terço do volume de ativos adquirido pela Reserva Federal e é inferior ao volume de ativos adquirido pelo Banco de Inglaterra, pelo Banco Central do Japão ou da China (se medido em percentagem do PIB).

Finalmente, 2021 abre a porta a várias oportunidades. A conclusão do acordo do Brexit nos últimos dias dá previsibilidade e impulsiona as relações comerciais e de investimento com o Reino Unido. O acordo de investimento anunciado entre a UE e a China alarga horizontes às empresas europeias e chinesas.
A Parceria Económica Abrangente celebrada entre 15 nações da Ásia e do Pacífico, de onde se destacam China, Japão, Austrália e Nova Zelândia, representa o maior acordo comercial do mundo e dará um novo ímpeto ao comércio global. A expectável normalização das relações comerciais com os EUA, após a tomada de posse da nova administração, abrirá novas perspetivas à relação transatlântica com a UE.

Desafios globais precisam de soluções globais. 2021 apresenta desafios, mas uma nova vaga de multilateralismo e aposta no comércio externo abre caminho para que a procura externa possa ser o motor da recuperação económica global. O ciclo de recuperação terá, contudo, de continuar a depender de uma política monetária fortemente acomodatícia durante um período prolongado.

Manuel Rodrigues, Lecturer in Financial Management, King"s College London

Fontes: (1) Projeções do World Economic Outlook, novembro de 2020; (2) Global Debt Monitor. International Finance Corporation, julho de 2020; (3) Banco Central Europeu, 11/11/2020

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