Brasil. A batalha da vacina e outras guerras políticas

Com a pandemia no centro de um combate entre Bolsonaro e João Doria, o governador de São Paulo já em campanha para a presidência da República, o 2021 brasileiro será também marcado por eleições no Congresso

Por se seguir às municipais de 2020, anteceder às presidenciais de 2022 e abrigar as eleições no Congresso, o ano de 2021 será, sobretudo, um ano político no Brasil. Mas e a pandemia, que matou perto de 200 mil brasileiros (quase 1% da população), e o plano de vacinação para a combater, finalmente a caminho, não serão protagonistas? Serão, no máximo, parte do enredo de um filme cujos papéis principais estão destinados a Jair Bolsonaro, o presidente do país, e a João Doria, o governador de São Paulo que ambiciona suceder-lhe.

Doria anunciou o plano de vacinação do estado de São Paulo, o mais rico e populoso do país, no início de dezembro. O governo paulista estabeleceu parceria com a chinesa Sinovac, produtora da Coronavac, a ser desenvolvida pelo centro de pesquisas médicas brasileiro Instituto Butantan.

"A vacina começa em 25 de janeiro. Não vamos perder mais vidas. Não há razão para isso. Não há razão de saúde, de ciência e humanitária para não iniciarmos imediatamente a vacinação", disse Doria. O governador disponibilizou a vacina até a quem estiver só de visita a São Paulo e ainda ofereceu milhões de doses a outros estados. Ele vê o tema como a plataforma para se tornar candidato presidencial de âmbito "nacional".

O governo federal, sob a gestão de Bolsonaro e do ministro da saúde Eduardo Pazuello, um general paraquedista que sucedeu a dois médicos demitidos do cargo no auge da pandemia, não tem plano mas já assinou acordo com o conglomerado anglo-sueco AstraZeneca para disponibilizar a vacina, em março, dois meses depois.

"O Brasil disponibilizará vacinas de forma gratuita e voluntária após comprovada eficácia e registo na Anvisa [a agência reguladora da saúde]. Vamos proteger a população respeitando a sua liberdade, e não usá-la para fins políticos, colocando a sua saúde em risco por conta de projetos pessoais de poder", respondeu Bolsonaro. O presidente, porém, comprou um stock de quatro milhões de comprimidos de cloroquina, cuja eficácia no combate ao coronavírus não é comprovada. E, pressionado pela rapidez de Doria, mudou de opinião três vezes em três dias, admitindo na última delas começar a vacinar já no início do ano, ou seja, antes de São Paulo. Faltam só as seringas que o governo se esqueceu de comprar em número suficiente.

Outro tabuleiro onde já há movimentos para a eleição de 2002 é o Congresso. Nos próximos dias, vai intensificar-se a corrida às presidências da Câmara dos Deputados e do Senado, marcada para fevereiro, entre candidatos sob patrocínio do Planalto ou promovidos, por exemplo, pelo influente Rodrigo Maia. Presidente cessante da Câmara dos Deputados, Maia é apontado como eventual candidato a vice-presidente em 2022 numa lista encabeçada por... Doria.

Mas nem só Doria, da PSDB, de centro-direita, e Bolsonaro, o presidente de extrema-direita sem partido desde que rompeu com o PSL, vão passar 2021 a pensar na presidencial.

Luiz Henrique Mandetta, o ministro da saúde original de Bolsonaro, que pertence ao DEM, como Maia, e Luciano Huck, apresentador da TV Globo que tem em popularidade o que lhe falta em experiência e que se vem reunindo, ora com Mandetta ora com Sergio Moro, o ex-juiz da Lava-Jato e ex-ministro da justiça que foi trabalhar em Washington, são outros nomes da centro-direita.

E ainda há a esquerda. Caso Lula da Silva, o eterno líder espiritual do PT não concorra - a idade e a sua situação jurídica pesam - é Fernando Haddad, o segundo classificado em 2018, o nome mais consensual no partido.

Depois há Ciro Gomes, do PDT (mais centrista do que o PT), que já se comporta como pré-candidato, o PSOL, partido à imagem do Bloco de Esquerda motivado com a prestação (segundo lugar) de Guilherme Boulos na eleição para a prefeitura de São Paulo, e Flávio Dino, do PCdoB, o governador do Maranhão que poderia servir de solução de compromisso entre correntes esquerdistas.

Os movimentos de todos, que já começaram em 2020, terão em 2021 peso acrescido e estarão, como a questão da vacina contra a covid-19 e da corrida ao poder legislativo, no centro do noticiário.

O auxílio emergencial vai ou não continuar?

Em abril de 2020, a Câmara dos Deputados aprovou um auxílio emergencial às populações mais atingidas pela pandemia - no total, 67 milhões de brasileiros se beneficiaram do incentivo de cerca de 50 a 100 euros por mês. Um desses brasileiros foi Jair Bolsonaro que, após a medida, cresceu nas sondagens a níveis jamais vistos. O auxílio serviu ainda de motor do crescimento económico recorde (7,7%) no terceiro trimestre de 2020. Porém, custou quase 100 mil milhões de reais [perto de 16 mil milhões de euros] aos cofres públicos, o que deve inviabilizar a sua continuidade. Essa questão, assim como o avanço, ou não, das reformas fiscal e administrativa, são, segundo os economistas, desafios e incógnitas de 2021.

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