Volta a Portugal de copo na mão

Começamos no Algarve e terminamos nas ilhas dos Açores e da Madeira, percorrendo o território região a região, copo a copo. Uma abordagem estritamente pessoal, mas transmissível, à luz do sentido de descoberta e da renúncia ao óbvio e ao mainstream.

Portugal é prodigioso, sabemo-lo bem e defendemo-lo com a alma em qualquer comparação com outro país. Deslocamo-nos no território cem quilómetros apenas e tudo muda, até o que as pessoas comem e bebem. É esse reticulado fino que nos torna gigantes, e o país de lés a lés demora tempo a percorrer. A oferta farta e excelente que o coberto vitícola ano após ano consolida merece bem exploração aturada, e por isso aqui está, à maneira de desafio, um vinho por região, para que a sua própria exploração comece.

Quando a maioria dos portugueses está a fazer férias cá dentro, pelas razões que todos conhecemos, o momento não podia ser melhor para, feitos intrépidos exploradores, desbravar e descobrir tesouros. Começamos no Algarve e terminamos nas ilhas dos Açores e da Madeira, percorrendo o território região a região, copo a copo. Uma abordagem estritamente pessoal, mas transmissível, à luz do sentido de descoberta e da renúncia ao óbvio e ao mainstream.

Herdade Barranco do Vale Castelão Algarve tinto 2018 (HBV)
Em 50 anos apenas, tudo mudou nos vinhos do Algarve. A glória dos tempos idos da Adega de Lagoa, com os seus superpremiados vinhos da areia, foi-se, porque também a areia se foi, consumida pela voracidade da construção que se instalou e fez regra. Este castelão é exemplar, pela fidelidade à casta e pela frescura que apresenta e vem das argilas e pedras de Silves.

Milmat Reserva Alentejo branco 2018 (Mainova)
Foi a Bárbara Monteiro, a irmã mais nova - daí o nome da empresa -, que apelou forte a ventura vínica iniciada no Alentejo, com a mão sábia de António Maçanita enquanto consultor do projeto. Acontece que este branco se cravou na minha memória a ponto de sentir a sua falta. Frescura impressionante, de que o Alentejo precisa muito, e complexidade notável.

Tiagos Clássico Moscatel de Setúbal Superior 1990 (Adriano Tiago)
Quando provei o primeiríssimo moscatel de Adriano Tiago, viajei no tempo e veio-me à memória o moscatel 1934 da José Maria da Fonseca. Mais tarde tive oportunidade de provar o 1993 lado a lado com esse grande clássico e bateu certo. Este 1990 foi agora para o mercado e já está a arrecadar prémios. Na linha da grande tradição, tanto o 1990 como o 1993 são fabulosos.

Hugo Mendes Lisboa Vital branco 2018 (Hugo Mendes)
A região vinícola de Lisboa contém ainda muitos segredos por desbravar e dá-se-lhe facilmente estatuto atlântico pelas muitas várzeas em que se desdobra pelos solos únicos que emprestam aos vinhos que aí medram salinidade e equilíbrio sem par. A casta Vital merece por isso particular atenção e o genial produtor Hugo Mendes arregaçou mangas e tem-nos dado grandes alegrias.

Quinta da Atela Tejo branco 2018 (Quinta da Atela)
Em Alpiarça, surgiu este branco exemplar composto pelas castas Fernão Pires, Chardonnay e Gewurztraminer, dos solos arenosos da quinta. O Tejo, outrora conhecido como Ribatejo, é na composição dos vinhos a mais internacional das nossas denominações de origem. Encanta-me a simplicidade e o quanto historicamente representa este singelo vinho branco.

Caves São Domingos Extra Reserva Espumante Bairrada branco N/V (Caves São Domingos)
É na Bairrada que encontramos o nosso grande enclave de produção de espumantes de classe mundial, e ao mesmo tempo o leitão assado em forno de lenha que é o melhor do mundo. No meio de tantos superlativos, às vezes perde-se a objetividade e há que renunciar a isso. Este espumante foi lançado há pouco tempo, a propósito dos 130 anos do espumante da Bairrada, e é a um tempo popular e sofisticado. Belíssima fórmula.

Índio Rei Grande Reserva Dão branco 2017 (Amora Brava)
Carlos Silva é um dos grandes enólogos do Dão, conhece como a palma das mãos esse gigante maciço granítico que forma a porta continental de Portugal. A região é campeã da elegância e é por isso mesmo berço de duas grandes castas nacionais: a Touriga Nacional (tinta) e a Encruzado (branca). Esta última é ainda a que melhor harmoniza com queijo Serra da Estrela, e é nela que penso sempre que penso no Dão. Este vinho é um dos seus exemplos mais felizes, mão enológica de Carlos Silva.

Quinta dos Termos Fonte Cal Reserva Beira Interior branco 2018 (Quinta dos Termos)
À salinidade dos granitos rijos do Dão acrescentamos a altitude e afloramentos mistos de solos e temos a que bem pode ser a melhor região de brancos do mundo: a Beira Interior. Muito frio no inverno, calor insuportável no verão, e além disso guarda e trata castas autóctones com história e raízes no território. Este Fonte Cal possui uma acidez natural que confere poder de corte e resolução de grande amplitude de pratos.

Quinta de Vargellas Vinha Velha Vintage Porto 2017 (Fladgate)
Foi o único vinho a que até hoje dei a pontuação máxima de 20 valores e é um vinho perfeito. O ano também para isso contribuiu, além de clássico é um dos melhores da história do vinho do Porto. Beber um copo deste vinho é, além de um enorme prazer, uma vénia à fabulosa história do vinho do Porto e de todo o vale do Douro.

Coche Douro branco 2018 (Niepoort)
É difícil para mim imaginar o Douro sem a Niepoort e em particular sem o Dirk Niepoort, atual timoneiro e gestor. Como num passe de mágica alterou os perfis dos seus vinhos tranquilos para mais expressivos e menos alcoólicos, e aos vinhos do Porto dotou de complexidade sem precedentes. Este branco exemplar é absolutamente excecional.

Murganheira Millesimé Távora-Varosa espumante branco 2008 (Murganheira)
Fundadas por Orlando Lourenço, as caves Murganheira têm hoje a sua filha Marta como diretora técnica, que cumpre com garbo e paixão a difícil missão da produção de perfis diversos de espumantes. Essencialmente granítica, a região tem aqui o seu expoente máximo, e este vinho é um dos mais evocativos do grande champanhe francês, bebe-se e não se sente o líquido escorrer na garganta. Artes que demoram uma vida a consolidar.

Quinta de Arcossó Bago-a-Bago Trás-os-Montes tinto 2015 (Quinta de Arcossó)
Vinho de grande talante enológico, a que de resto o nome faz alusão. Amílcar Salgado tem as suas vinhas mesmo ao lado de Vidago - que quer dizer campo de vinhas - e fez a mais inspirada interpretação dos vinhos que podia ali produzir. Este tinto é robusto e tânico e ao mesmo tempo é de uma grande leveza em boca, muito elegante. Uma ciência que se bebe com muito prazer.

Contacto Alvarinho Verde branco 2019 (Anselmo Mendes)
Anselmo Mendes é um grande enólogo criador de vinhos e é também conhecido como o senhor Alvarinho, tal a importância e o reconhecimento alcançados pelos seus vinhos da casta-rainha da região dos Vinhos Verdes. Tem uma sensibilidade muito fina para o potencial de cada vinha, e este vinho em particular exprime uma outra preocupação sua, a de que todos possam ter acesso a um bom Alvarinho.

Terrantez do Pico branco 2017 (Azores Wine Company)
Estive no lançamento da primeira pedra da empresa liderada pelo biónico António Maçanita, no meio da profusão de pequenos canteiros basálticos, chão escuro vulcânico, na ilha do Pico. Este vinho marcou-me profundamente pela diferença e o exotismo, e pelo quanto dinamizou a comunidade vínica nacional, dando início a novos projetos empresariais.

Blandy's Malmsey Colheita Madeira 2004 (Madeira Wine Company)
Malmsey quer dizer Malvasia e é uma das castas nobres do vinho da Madeira. Este vinho notável foi produzido por Francisco Albuquerque, enólogo da Blandy's, e representa toda uma nova abordagem ao que é um dos mais clássicos licorosos de Portugal. Frescura, equilíbrio, e muita potência. Um trabalho que juntamente com Chris Blandy está a revolucionar a Madeira.

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