Exclusivo Tempo de perdas

A já longa duração desta guerra contra o destruidor covid-19 transforma esta época num tempo de perdas, isto é, de parcelas que crescem e desaparecem da vida que foi habitual. Entre todas, a mais humanamente cruel é a eliminação progressiva da sociabilidade. Não apenas na medida em que são os afetos a perderem a liberdade de existirem, mas também os que, mantendo a função, tendem para a submissão ao teletrabalho, que faz evoluir o sentido da empresa que cultiva a solidariedade dos interventores. Andrew Roberts, que escreveu a considerada melhor biografia de Churchill, recorda ali que George Bernard Shaw, no seu Revolucionist"s Handbook, escreveu que "o homem sensato adapta-se ao mundo; o insensato persiste em adaptar o mundo a si mesmo. Todo o progresso depende, pois, do homem insensato". Parece seguro que Churchill, ao celebrar os seus 80 anos no Westminster Hall, e lembrando que a sua nação se espalhara pelo mundo fazendo prova "do seu coração de leão", tivera a "sorte de ser chamado a soltar o rugido".

No tempo desta guerra contra a vida, sendo inevitável a globalização da crise, a suficiente atenção à ecologia, à impedida vida social, corre sem que a intervenção de líderes como Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, ou do ministro alemão da Economia tenham evitado que, não obstante reconhecerem a necessidade de um "trabalho comum", este tenha sido bem definido, mantendo-se o lamento do prémio Nobel egípcio (2008) Mohamed el-Baradei ao dizer: "Não encontro suficiente liderança nem visão do mundo." É esta visão do mundo que parece ter realidades não coincidentes entre os que, sendo titulares do tradicional poder político, agregam, mas enfrentam o ataque atual e futuro da pandemia, aos programas políticos globalizados, e outros raros como que fogem da pandemia para salvaguardar o que os sustenta com o habitual Estado espetáculo.

O presidente dos EUA conseguiu pregar contra a chamada confusão dos números de avaliações e a realidade das perdas humanas, e até, ao sul do continente, o presidente do Brasil chega a valorizar o seu inovador alto cargo gritando que não é coveiro. O Estado espetáculo parece ressuscitado, como que ignorando a responsabilidade, não assumindo o ataque da pandemia sem partilhas do globalismo, que neste caso dispensa a vigência do castigo divisor da Torre de Babel. Não é que a inovação da ciência e da tecnologia sejam dispensadas, com um normativismo sustentável, para salvaguardar e fazer até progredir o planeta, mas não parece indicado que a pandemia possa ser considerada sem prioridade, atitude contrária à que institutos, universidades e profissionais demonstram e executam, orientando programas que os governantes assumam procurando um novo direito internacional. É inquietante que alguma dessas instituições deixe de poder avaliar o rigor das notícias que afirmam que "Donald Trump está do bom lado da história", e que seja ouvida e registada uma voz, não identificada, segundo a qual "poderia surgir uma guerra civil se o senhor Trump não fosse eleito".

Mas, entretanto, o mesmo presidente que assumiu o leme de reafirmar a grandeza dos EUA mostrou-se demorado e distante da compreensão do ataque brutal do coronavírus, de que culpou a China, com a qual assume um confronto Pequim-Washington, visto o exercício daquela no sentido de recuperar o mar que tinha abandonado quando o movimento da ocidentalização foi iniciado por Portugal. Os EUA enviaram dois porta-aviões para a região, mas, mostrando não temer o confronto, o evidente é que a China reforçou a sua marinha, notando-se que terá em uso 600 modelos de combate, enquanto o seu ministro dos Negócios Estrangeiros declarou, em 3 de julho, que a "instabilidade no mar da China do Sul era a atividade militar em grande escala de um certo país que não é da região e se encontra a milhares de quilómetros e mostra os seus músculos".

Existem outros motivos, designadamente o que se passa com a política chinesa de acabar, em relação a Taiwan, com o método da específica legalidade, mas, como tem sido regra, a ponderada senhora Merkel é moderada nas relações com a China, parecendo admitir que a falta de prudência impedirá o diálogo que deve ser mantido "em todas as suas dimensões". A memória de Tianammen (1989) ajuda a esperar que a voz da ONU seja compreendida, e que é a salvaguarda da paz do Golfo, e da sobrevivência dos humanos, que está ameaçada, não impedindo o que o muçulmano Amin Maalouf chamou "o desajuste do mundo". São os vivos, sem distinção de etnias, religiões, culturas, que estão a ser postas globalmente em perigo. A Assembleia Geral da ONU assumiu em 1998, como lembra Hans Küng, "a firme determinação em facilitar e promover o diálogo entre culturas e declarou, contra todas as cassandras que profetizaram um choque de culturas, sendo 2001 o ano do diálogo de culturas", onde cabem as etnias, crenças, história e paz. Faz parte da esperança.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG