Exclusivo Salazar e Bannon

A possibilidade, por provar, de Steve Bannon ter desviado uns milhares largos de dólares de um fundo que se destinava à prestimosa tarefa de contribuir para a construção do célebre muro trumpiano foi muito comentada. Teve até direito a um momento "malucos do riso" quando o oportunista cá da terra pediu respeito pela presunção de inocência do ideólogo de tudo o que é populista de extrema-direita. Sim, o tipo que condena como corrupto e bandido toda a gente que não lhe agrada e apoia polícias que fazem de investigadores, juízes e carrascos mostrou uma especial sensibilidade democrática pelo camarada Steve.

A maioria dos textos que li tentavam mostrar que os novos populistas eram tão corruptos como os políticos que tanto criticam. Uma espécie de "malta, estão a ver? Eles, afinal, não se distinguem dos outros". No fundo, quem seguiu esta linha - na esmagadora maioria, com a melhor das intenções - via, no mínimo, uma vantagem nestes tipos: não seriam corruptos. Caíram na esparrela de algo próximo do que ainda se vai ouvindo por aí, a cretinice que reza que António Salazar teria muitos defeitos, mas morreu pobre. No limite, um elogio ao ditador que impôs uma ditadura durante décadas, foi péssimo para os portugueses e para Portugal mas tinha a qualidade de não ser corrupto.

Não tenho nenhuma dúvida de que praticamente tudo o que li sobre o assunto não quereria transmitir essa mensagem, mas demasiados acabaram por dar essa ideia.

Poucas coisas me parecem menos importantes no combate que se tem de fazer à vaga populista do que esta espécie de exame moral. O problema é que é um pensamento errado e sobretudo perigoso.
Levar as coisas para esse campo é aceitar que a atual classe política é genericamente corrupta e que, até prova em contrário, os populistas são honestos, mas sobretudo põe-se no mesmo patamar os valores que estes defendem face aos dos chamados partidos tradicionais.

Não importa rigorosamente nada que Salazar tenha ou não morrido com a conta bancária gorda ou magra, o ditador era a corrupção corporizada. Não há nada mais corrupto do que uma ditadura, nada mais atentatório dos direitos mais básicos de um cidadão - que nem esse título, aliás, pode reivindicar. É uma comunidade inteira aprisionada por uma pessoa ou conjunto de pessoas.

Não será por um populista cometer mais ou menos ou até nenhuma ilegalidade que merecerá algum respeito, quando muito acrescentará mais uma conta ao seu rosário de pulhices. São os valores que defende que devem ser questionados. Pouco importa que seja um tipo que nunca teve uma multa de trânsito se põe em causa o Estado de direito, se é racista e xenófobo, se defende que a lei deve atentar à mínima dignidade humana (caso da castração química), se incentiva a violência policial, se explora e instiga instintos primários - ser corrupto será detalhe.

De repente, vemo-nos numa situação em que o discurso sobre a corrupção se tornou a coisa mais importante de todas e até serve como fator de tolerância para quem quer destruir as nossas democracias. Chega-se ao extremo de afirmar que todos os nossos males como comunidade se devem à corrupção, que vivemos numa república das bananas dominada por bandidos. Políticos, claro.

Deixamo-nos de tal maneira embrenhar no discurso da corrupção generalizada que facilmente trocamos alhos por bugalhos. Toleramos tanto os que ganham a vida à custa do "anda tudo a gamar" que achamos que só se se descobrir que um populista é corrupto ou um comum criminoso é que se torna realmente num miserável.

Claro que há políticos corruptos, mas, quando vendemos que o nosso sistema está entregue à corrupção, estamos de facto a entregar todas as vantagens aos populistas. Estamos a casar com eles.

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