Quando Filipe II começou a gostar de bacalhau

A jornalista espanhola Nieves Concostrina escreveu Pretérito Imperfeito (edição d'A Esfera dos Livros), uma história do mundo contada em tom de crónica através de episódios muito especiais. O DN faz aqui a pré-publicação do capítulo "1640 - A fugaz dinastia filipina", que fala da relação entre Espanha e Portugal.

1 de dezembro de 1640. Um grupo de portugueses irritados, muito irritados, irrompe no Palácio Real de Lisboa. Miguel de Vasconcelos, secretário de Estado, o mandachuva, a personificação do poder real espanhol em Portugal, corre a esconder-se num armário. É, contudo, apanhado. Detestam-no, porque é um traidor. Porque Vasconcelos, um português, está ao serviço do Áustria Filipe IV, apoiando-o e consentindo nos seus abusos; porque portugueses e espanhóis são súbditos do mesmo rei, mas uns são mais súbditos do que os outros; e porque estão fartos de ter um rei espanhol. Por isso, agarraram em Vasconcelos e defenestraram-no. Literalmente. Ou seja, atiraram-no pela janela.

O figurão ficou estraçalhado na Praça do Comércio de Lisboa e, nesse mesmo dia, os portugueses mandaram passear Filipe IV de Espanha e proclamaram D. João IV de Portugal. Começava a guerra da Restauração Portuguesa. A guerra da separação de Portugal e de Espanha.


Tinham razão para se revoltarem. Tinham sido já suficientemente maltratados, uma vez que os espanhóis não paravam de invadir os seus vizinhos peninsulares. Portugal e Espanha, tão próximos e tão distantes, tão juntos e tão em conflito.

Demasiadas vezes nos tínhamos intrometido nas suas vidas, e quando não os estávamos a invadir, estávamos a pensar na maneira de o fazer. Mesmo em pleno século XX, o tirano Franco chegou a pensar em invadir Portugal; em duas ocasiões e por razões distintas, chegou a estabelecer planos para isso.

Espanha sempre olhou para Portugal por cima da burra, como se fizesse um grande favor em deixá-lo viver; parecia pensar, "olha esses miseráveis, ali encostados ao Atlântico". E Portugal respondia com desprezo à soberba espanhola, porque sabia que, de cada vez que nos uníamos, não lhe levávamos nada que fosse bom. "De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento", diziam os portugueses.

Mas Espanha e Portugal estavam, não condenados, mas obrigados a entenderem-se, porque passaram pelas mesmas misérias, pelos mesmos abusos, e sofreram em paralelo ditaduras de diferentes canalhas de igual catadura. E esse inevitável entendimento revelou-se, por fim, em 1986, quando os dois países entraram em simultâneo na União Europeia.

Os espanhóis começaram então a descobrir Portugal. Um país belíssimo, cheio de gente sorridente. Pessoas sempre dispostas a esforçarem-se para falar em castelhano, quando muitos espanhóis sentem dificuldade em dizer até "muito obrigado".

Talvez Portugal tenha o mapa mais fácil de desenhar. Basta traçar uma linha horizontal lá para cima, à esquerda da Península Ibérica, deixando um pouco de espaço, a norte, para os galegos, e depois virar o lápis e traçar uma reta até ao sul. Aí está Portugal. 1234 quilómetros de fronteira. É isso a Raia, como sempre se chamou. A Raia. E essa Raia quase não se deslocou desde há oitocentos e setenta e cinco anos. Apenas um poucochinho para lá ou para cá, dependendo dos sarilhos em que nos metêssemos.

Não é preciso ir muito lá para trás, para contar esta história. Só até 1580, quando Filipe II invadiu Portugal e se proclamou rei, porque gostava de ser a figura essencial de todas as situações e de meter o bedelho nos reinos estrangeiros. Foi durante breve tempo rei de Inglaterra (entre 1554 e 1558), e depois foi rei de Portugal. Por que é que invadiu os nossos vizinhos? Pois, porque era um ansioso e soube tirar partido de um contratempo português.

Sucede que, em Portugal, o rei D. Sebastião morreu sem deixar descendência, tendo-se instalado no trono um tio-avô do soberano falecido, o tio Henrique, que, uma vez que era cardeal, decidiu largar a sotaina para poder fornicar oficialmente, a fim de obter um herdeiro.

Filipe II já estava de olho alerta para ampliar a sua monarquia hispânica e pediu ao papa Gregório XIII que não permitisse que o tio Henrique abandonasse o ofício de cardeal. Que reinasse ainda era como o outro, mas nada de casar-se, nada de arranjar herdeiros. Extraconjugais, perfeito; mas oficiais, nem um. E Gregório XIII, que era um vendido aos Áustrias, não dispensou dos seus votos o rei de Portugal, daí que ao cardeal D. Henrique fosse dado o cognome de O Casto.

Quando o tio Henrique morreu, reuniu-se um Conselho de Regência para decidir qual seria o sucessor ao trono de Portugal, e entre os possíveis estava Filipe II, que era parente afastado do rei falecido. Pois como não haveria de o ser... se nas famílias reais da velha Europa todos se casavam entre si? Todos estavam aparentados de uma forma ou de outra, e essa confusão de relações endogâmicas fez com que Filipe II acreditasse ter direito a ser proclamado rei de Portugal.

Mas, nesta altura, apareceu outro parente afastado, de seu nome António, bastardo de um rei, que considerou que também ele tinha direito a reinar. "De forma alguma", respondeu Filipe II. E acabou-se a discussão. "Nem regência, nem bastardos, nem filhos. Fico eu com Portugal." E invadiu o país e conservou-o. Era essa a sua ambição, a união peninsular, tornar toda a Ibéria espanhola.

Foi assim que Filipe II passou a ser rei de Espanha e de Portugal, e foi assim que teve início a dinastia conhecida como dinastia filipina. A dinastia de Filipe II, Filipe III e Filipe IV. Que em Portugal foram Filipe I, Filipe II e Filipe III, porque lá as contas eram outras. Ao princípio, Filipe I esforçou-se por se integrar e por cativar a plebe.

Manteve-se três anos em Lisboa, aprendeu os costumes locais, começou a gostar de bacalhau... E assim as coisas foram andando, com os pequenos problemas normais que decorrem de se invadir outro país. Havia uma calma tensa.

A Filipe II sucedeu seu filho, Filipe III, que nem reinava, nem trabalhava, nem se preocupava com nada. Rezar nove rosários por dia, caçar, jogar aos dados, dançar... era nisso que se ocupava. Deixou todo o poder nas mãos do malandro do seu valido, o duque de Lerma, e as relações com Portugal foram-se complicando.

Principalmente, porque, de cada vez que a monarquia hispânica chegava a um acordo com outra nação, os interesses portugueses nunca eram tidos em conta. Para dar apenas um exemplo, se a Espanha assinava a paz com a Holanda, não incluía nesses acordos a obrigação de os holandeses deixarem em paz as colónias portuguesas da Ásia.

E as coisas continuaram a complicar-se com Filipe IV (III de Portugal), que estava muito mais interessado em colecionar noivas e em ir espalhando pelo mundo meia centena de filhos bastardos do que em governar aquele império espanhol que, às vezes, parecia em vias de arruinar-se.

Também Filipe IV deixou o poder nas mãos do seu valido, o nefasto conde-duque de Olivares, um tipo que, de cada vez que abria a boca, fazia subir o preço do pão, porque estava sempre a criar novos impostos. Foi um corrupto, de uma ambição sem limites, arbitrário nas suas decisões, desconfiado... e como não tinha de prestar contas a ninguém, não olhava a gastos.

O conde-duque empenhou-se em 1626 naquilo a que chamou a União de Armas, a criação de um grande exército nacional espanhol, composto por todos e financiado por todos. O que foi determinado é que cada reino, cada estado e cada senhorio da coroa espanhola tivesse obrigatoriamente de colaborar em qualquer guerra em que o rei se envolvesse. Ou seja, Olivares aplicou uma política de centralização, que ignorava convénios, espezinhava foros, passava por cima dos privilégios concedidos aos distintos territórios da nossa Espanha, e isso não foi do agrado de Aragão, nem de Navarra, nem, naturalmente, de Portugal.

Porque os portugueses interrogavam-se, e com razão, sobre que necessidade é que tinham de entrar em conflito com os estrangeiros de cada vez que o rei de Espanha se metia numa guerra, se, por outro lado, quando se tratava de repartir eventuais ganhos, a eles não lhes cabia nada. A Espanha estava nessa altura envolvida, na Europa, na chamada Guerra dos Trinta Anos, e exigiu a Portugal que contribuísse com dezasseis mil homens para a União de Armas. Exigência que cumpriram: de má vontade, mas cumpriram-na.

Filipe IV continuou a pressionar Portugal, por decisão do seu favorito Olivares, e, em 1631, foi exigido o pagamento de um imposto extraordinário, que se traduzia em que todos aqueles que, de futuro, fossem providos em cargos oficiais (exceto os de natureza eclesiástica) deveriam pagar um valor equivalente a metade do que viessem a receber em cada ano de exercício do cargo. E, se isso já os tinha chateado, dois anos depois foi instituído outro imposto, desta feita sobre o trigo, e isso numa época de penúria. Com isto, chegou-lhes a mostarda ao nariz e sublevaram-se em Évora, a segunda cidade mais importante do país, depois de Lisboa. Aquilo começou por alastrar, depois acalmou mais ou menos, e, por fim, a crise lá terminou. Mas terminou em falso.

O enfado continuou presente, a lavrar em lume brando, até se dar o dramático acontecimento que deu início a esta história: quando o tal Miguel de Vasconcelos foi atirado pela janela do Palácio Real de Lisboa. Isso aconteceu, porque, em meados de 1640, a Catalunha se revoltou contra uma das decisões do conde-duque de Olivares e, para esmagar a revolta, o rei Filipe IV mandou que os portugueses dessem uma ajuda. Quanto a isso, nada, responderam de Portugal, "as questões com os catalães são um problema teu, de modo que, por favor, deixa-nos em paz. Já chega de nos metermos em problemas que não nos dizem respeito". E foi assim que um grupo de nobres portugueses entrou no palácio e, uma vez que ele era em Portugal, o homem de mão do rei defenestrou Miguel de Vasconcelos.

Nesse mesmo dia e quase no mesmo instante em que morria Vasconcelos, os portugueses proclamaram rei D. João IV, dando assim início à dinastia dos Braganças. Mais uma revolta, pensou Filipe IV, mas, como tinha várias frentes abertas, não deu especial atenção ao caso português.

A guerra durou vinte e oito anos e Filipe IV não dava para as encomendas. Tinha um grande problema na Catalunha, um conflito com os holandeses, outro com os franceses... Quem sofreu mais foram as populações, de um e do outro lado dos mil e tantos quilómetros de fronteira, porque junto à Raia é que decorria o pior da guerra. Ataques, contra-ataques, despovoação, saques... os portugueses não estavam dispostos a parar até que a Espanha reconhecesse a independência que não lhes devia ter arrebatado havia oitenta e oito anos.

Portugal acabou por ganhar a guerra de separação de Espanha, a fugaz dinastia filipina chegou ao fim e chegou a dinastia de Bragança. Uma dinastia que iria durar até 1910, quando os portugueses decidiram que já estava na altura de instaurar a República. Ainda que logo depois tenham também tido o seu ditador, que souberam derrubar com um exército democrático e um povo nas ruas.

Enquanto isso, aqui, nesta nossa monarquia hispânica, íamos mudando de dinastia, derrubávamos os reis, que se iam embora cheios de massa e depois regressavam para se encherem ainda mais, nenhuma das duas repúblicas conseguiu afirmar-se, o ditador morreu na cama e, quando um grupo de militares jovens, democratas e valentes, inspirados pela Revolução dos Cravos de 1974, fundou a União Militar Democrática (UMD), crendo que em Espanha poderia fazer-se a mesma coisa, veio a verificar-se que não. Que ofereceram o peito às balas, malharam com os ossos na cadeia e ainda ninguém lhes agradeceu por terem-no sequer tentado.

Sim, quase sempre Portugal fez as coisas melhor do que nós. É um grande país.

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