Vez que são vezes

Nunca mais voltei à Torre de Belém desde a única vez que lá fui. Um dia ouvi alguém na televisão, quando via televisão, ou ouvia, ou havia, dizer que um pobre crianço que por lá encalhou a cantar tinha ido duas vezes à televisão, que tinha sido aquela, mas que tinha sido a primeira e a última, portanto eram duas vezes, não sei se foi o Júlio Isidro, se não foi, não deve ter sido, mas a minha memória diz que terá sido; e eu com a Torre de Belém também foram essas duas vezes, há muitos anos, talvez numa visita da escola, a concentração toda nas parvoíces que se pudesse fazer na camioneta do regresso. Lembro o eco e, ia jurar, mas também não posso, o cheiro a xixi. Não era urina, era xixi, que são coisas diferentes uma da outra, não posso aqui desenvolver o tema, não quero que os meus queridos censores me alertem para uma tendência escatológica, em sentido não teofilosófico, apenas da linguagem mais da rua, que por vezes não contenho bem (piada urológica, caso eles não tinham pingas de humor).

As minhas reflexões sobre a Torre de Belém foram por dever de ofício. Quando eu tinha tempo, e amigos do estrangeiro me visitavam, muitas vezes queriam visitar a Torre de Belém e era preciso explicar muito depressa que não havia lá nada para ver, mas que se quisessem muito podiam ir ver, a gente esperava ali nos pastéis de Belém, ou noutro lado qualquer. Era também um dever de ofício, um dever diferente, do ofício da hospitalidade, um dos melhores entre os ofícios, que funde tempos e espaços. Mas agora o dever de ofício foi outro, foi o de comentar na Renascença (onde debato todas as terças e quintas, todas todas, com o Fernando Medina, às 09.20, podem pôr no carro, devem). E um dos temas foi uma boa entrevista da diretora dos Jerónimos e da Torre de Belém em que esta diz que se deve estudar a hipótese de preços mais caros para turistas, mais baratos para portugueses. E até filas diferentes. A preocupação legítima é investir mais em dois dos mais visitados monumentos.

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Por debaixo disto está saber o que leva alguém a voltar a ver um monumento e um museu e como levar lá as pessoas à dobradinha. Carregar turistas, que já pagam as taxas turísticas, parece-me pouco lógico e pouco simpático, e isentar apenas os visitantes lusos não passa em Bruxelas. A discussão sobre a gratuitidade dos museus é mais antiga do que alguma das peças que eles mostram e não tem solução fácil, nem sobretudo universal. O subfinanciamento crónico dos museus, a alocação por vezes pouco eficiente de orçamentos entre várias instituições, o facto de os museus serem apenas uma das formas de cultura, a eventual discrepância entre museus gratuitos e taxas moderadoras nos hospitais, a tendencial regressividade da gratuitidade universal no acesso a bens e serviços públicos, a própria conceção de que apenas o dinheiro dos museus deve financiar museus, tudo isto são questões caras. Não é gratuito, mas estes são os meus dois cêntimos para a questão: apostar em trazer as pessoas várias vezes ao espaço, com acesso quase gratuito ao espaço e coleções-base, mas com preços mais altos para exposições temporárias, boas e de qualidade. Quanto às filas, não percebo porque é que no século XXI ainda há filas, uns atrás dos outros por ordem de chegada, e não é tudo feito nos telemóveis. Os telemóveis têm de ser moeda e bilhete.

Mas se existissem telemóveis daquelas duas vezes em que fui à Torre de Belém, nem dessas duas vezes tinha ido, tinha passado o tempo todo aos tiros, ou a saltar por cima de carruagens de comboio, na ponta dos dedos no telemóvel.

Advogado

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