Como José Mourinho perdeu a aura de sucesso

Treinador português vive fase crítica da carreira: sem resultados, criticado no estilo e contestado pelos jogadores, a pressão sobe de tom no Manchester United. O que é feito do Special One?

O Special One é agora um zé-ninguém, como caricaturava há poucos dias o escritor Álvaro Magalhães, no jornal O Jogo, a propósito da aparente queda em desgraça do mais titulado treinador português de sempre? Em dificuldade para se manter na rota de sucessos que construiu de forma voraz no início do percurso, José Mourinho parece hoje, aos 55 anos, um técnico fora de moda. Questionado publicamente por jogadores, envolvido em constantes tensões internas, agarrado a um estilo em contramão e com um número cada vez maior de detratores no universo futebolístico, o treinador do Manchester United vive a fase mais crítica da carreira e vê o prazo em Old Trafford ficar apertado.

A recente derrota caseira, para a Taça da Liga, aos pés do secundário Derby County treinado pelo seu ex-jogador no Chelsea Frank Lampard, agudizou até níveis dramáticos o sentimento instalado de um treinador em dificuldades para gerir a crise instalada e que tem no relacionamento conflituoso com a principal estrela do plantel, o internacional francês Paul Pogba, a sua face mais evidente. Mas não a única. Nas últimas horas, sucederam-se notícias sobre o mal-estar instalado entre uma grande fação do plantel perante o estilo de Mourinho. O estilo de gestão, o estilo de comunicação e o estilo de futebol praticado.

Rescisão de contrato obrigaria o Manchester United a pagar cerca de 26 milhões de euros ao treinador português

Segundo a edição britânica do site ESPN, haverá mesmo um grupo de jogadores determinado a deixar Old Trafford no final da temporada caso Mourinho continue como treinador do United. O facto de sentirem que não estão a evoluir como jogadores é uma das razões apontadas, além das questões relacionadas com a forma como o técnico se relaciona com o grupo, "procurando constantemente conflitos e expondo-os publicamente, para depois pedir que joguem por ele" - e o episódio da retirada do estatuto de capitão a Pogba foi apenas o último exemplo.

Os media britânicos, de resto, vão reforçando o cenário de um fim de linha para Mourinho no Manchester United e fazem contas à rescisão milionária que isso acarretaria: o português renovou contrato em janeiro, aumentando para 15 milhões de euros anuais limpos o vencimento a auferir até ao verão de 2020, o que obrigaria os red devils a desembolsarem qualquer coisa como 26 milhões para se desfazerem agora do técnico. Para Mourinho, contudo, o pior seria a confirmação de um novo fracasso para um treinador que, até há relativamente pouco tempo, era a imagem mais reconhecida do sucesso num banco de futebol.

O que se passou então nos últimos tempos para Mourinho cair em descrédito? O Special One mudou? Ou não soube adaptar-se a um novo tempo em que o futebol celebra outros modelos? E porque é que os jogadores deixaram de querer ser treinados por ele, como foi reportado no último verão em relação a alguns dos nomes tentados no mercado de transferências (Kovacic, Boateng...)? Mourinho é, agora, "um como outro qualquer, ou seja, ninguém", voltando às palavras do escritor Álvaro Magalhães?

Um treinador em contraciclo?

Entre a comunidade ligada à análise futebolística nas redes sociais reina a ideia de um treinador ultrapassado que perdeu a aura. Como defende, por exemplo, Pedro Barbosa, sociólogo, analista desportivo e gestor da Oficina do Podcast, que produz atualmente um podcast sobre futebol intitulado "Matraquilhos". "Não há volta a dar: Mourinho tem de parar, repensar o seu perfil no contexto do futebol atual e voltar de outra forma. Van Gaal no pós-Barcelona, Telê Santana pós-82, o futebol está cheio de exemplos destes, de regeneração. O seu ego vai permitir? Não sei", escreveu na sua conta pessoal de Twitter após a derrota do Manchester United frente ao Derby County.

Ao DN, Pedro Barbosa, de 32 anos, confessa que viveu de forma "intensa e apaixonada" a primeira fase da carreira de Mourinho, nos anos de sucesso galopante que o levaram desde o FC Porto até ao Inter de Milão, com uma primeira passagem pelo Chelsea. Foram os anos do Special One, do treinador que conquistou a Europa com o "modesto" (porque de um país periférico, entenda-se) FC Porto, que derrubou os gigantes olhando-os na cara e entrou sem pedir licença no universo de elite, autoproclamando-se um treinador especial. Que o era, sublinhe-se.

"Não há volta a dar: Mourinho tem de parar, repensar o seu perfil no contexto do futebol actual e voltar de outra forma"

"Ele surgiu com um estilo revolucionário, com um novo tipo de gestão, com uma nova visão, um discurso fresco, afastado da redundância e banalidade do meio, superconfiante", recorda o podcaster. Mourinho instalou o Chelsea no topo do futebol inglês, devolveu o Inter de Milão às glórias europeias, construiu uma aura de invencibilidade que parecia indestrutível. Agora, no entanto, esses tempos parecem tão distantes.

Depois de deixar já em baixa o Real Madrid e uma liga espanhola onde ainda foi campeão com recorde de pontos mas saiu fragilizado na imagem pelo confronto com a sua némesis Pep Guardiola e o estilo de futebol de toque (celebrizado pela expressão tiki-taka) que este implementou em Barcelona, Mourinho voltou ao Chelsea. E ainda ganhou um título de campeão nacional, o seu último, em 2014-15, antes de voltar a ser despedido por Abramovich e esperar pela oportunidade de cumprir o sonho de treinar o Manchester United, onde tinha sido preterido na sucessão a Alex Ferguson anos antes.

Em Old Trafford, no entanto, e apesar da conquista de três troféus na primeira época (Supertaça, Taça da Liga e Liga Europa), Mourinho tem falhado o objetivo de devolver ao United o título de campeão inglês a que o clube se habituara com regularidade na era de Ferguson. E o síndrome da terceira época [que costuma marcar o fim dos projetos de Mourinho nos sítios por onde passa] agravou os sinais de preocupação, com os conflitos internos com jogadores e diretores a agudizarem-se e os resultados [7.º, a oito pontos do líder Liverpool] a colocarem em xeque o português, numa Premier League rendida ao estilo personalizado pelo arquirrival Guardiola, mesmo ali ao lado, no City, e por outros intérpretes como o alemão Jurgen Klopp (Liverpool) ou o italiano Maurizio Sarri (Chelsea).

"A partir do momento em que perdeu a aura de invencibilidade o seu estilo ficou em causa"

"O futebol é cíclico, isso está historicamente demonstrado. Depende muito de modas. E o Mourinho está a ser apanhado em contraciclo. A partir do momento em que perdeu a aura de invencibilidade o seu estilo ficou em causa. Aquele espírito de confronto, a arrogância, eram coisas que viviam de vitórias para serem validadas. Sem isso, falha-lhe o chão", considera Pedro Barbosa, para quem Mourinho está "em burnout" [esgotamento].

O relacionamento difícil com os craques

Indefetível admirador de José Mourinho, que o nomeou várias vezes como uma influência importante na preparação para a carreira, Manuel Sérgio, filósofo e professor de vários técnicos portugueses atuais na Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa (onde Mourinho o conheceu), parte de uma premissa para esta análise. "Para mim, Mourinho continua a ser o melhor do mundo", frisa de forma convicta.

"Estas fases nas nossas vidas são normais. Todos temos altos e baixos", considera o professor, que chegou a trabalhar como conselheiro de Jorge Jesus (outro dos seus "discípulos") no Benfica. "Uma pessoa que só ganha é um derrotado. Será que o Mourinho deixou de estudar? Não vejo isso. Continua a ser uma pessoa extraordinariamente perspicaz", defende Manuel Sérgio, lamentando que "hoje em dia as pessoas tirem conclusões com muita rapidez. Estamos num tempo que tem horror ao pensamento".

"Para mim, Mourinho continua a ser o melhor do mundo", diz Manuel Sérgio

O professor recorre a uma célebre frase do filósofo e ensaísta espanhola Ortega y Gasset ("Eu sou eu e as minhas circunstâncias") para realçar a importância do contexto vivido por Mourinho no Manchester United. "Há que ver além dele, perceber se não há obstáculos epistemológicos em redor, outros fatores que não são conhecidos, o que se passa no clube", apela, utilizando como exemplo o caso Pogba.

O relacionamento com os jogadores é, precisamente, um dos aspetos mais criticados ao atual José Mourinho. Mas o técnico sempre teve alguns braços-de-ferro com nomes mais ou menos consagrados das equipas por onde passou, de Vítor Baía (FC Porto) a Iker Casillas (Real Madrid) ou Juan Mata (Chelsea). Para César Peixoto, que foi treinado por Mourinho nas épocas douradas no FC Porto, "quando ganha a postura dele se calhar é aceite de uma forma que não acontece quando perde". O problema, sugere o atual comentador da RTP, é que Mourinho "atingiu um nível de popularidade tão grande que a exigência também é enorme e não há qualquer tolerância ao erro, ao insucesso".

"Se olhar para a história, todos os treinadores e jogadores têm os seus altos e baixos"

As comparações entre o Mourinho atual e aquele que o treinou entre 2002 e 2004 "são sempre injustas", diz César Peixoto. "As pessoas mudam, as épocas mudam, mas tenho a certeza de que a qualidade do treinador ainda lá está", refere o ex-jogador, salientando que "é muito difícil estar sempre no topo em qualquer atividade". "Penso que será o que lhe está a acontecer, nesta fase um bocado negativa da carreira. Se olhar para a história, todos os treinadores e jogadores têm os seus altos e baixos", acrescenta.

A importância do estilo

César Peixoto concorda que o futebol evoluiu nos últimos tempos para uma tendência que valoriza muito mais uma ideia de jogo criativo, diferente da veiculada por Mourinho, sempre ligado a uma faceta mais resultadista e pragmática "desde que foi para Itália e para o Inter". "Hoje há mais treinadores a apostar no ideal do futebol bonito, num estilo de jogo atrativo, na cultura do futebol ofensivo, mas se ele estivesse a ganhar alguém o ia criticar?", questiona, oferecendo de imediato a resposta: "Se ele voltar a ser campeão as pessoas vão voltar a olhar para ele com admiração, independentemente do estilo."

Para o podcaster Pedro Barbosa essa é precisamente uma das teias em que Mourinho está preso. O estilo. "Hoje em dia há treinadores, como Sarri ou Klopp, que não precisam de ter essa cultura de vitória para serem admirados", exemplifica. "O Mourinho ficou preso nas suas convicções e declarações. Chamou poeta do futebol ao Guardiola, jurou fidelidade a um estilo direto e resultadista, disse que nunca iria treinar em determinados sítios e determinadas equipas. E agora está a ficar cercado num beco", lembra, reforçando a ideia de que, ao contrário do que acontece com esses treinadores como Guardiola, Klopp ou Sarri, o estilo de Mourinho não sobrevive sem vitórias.

"Hoje em dia os jogadores são exigentes. Não procuram propriamente clubes, mas sim trabalhar com um determinado treinador ou num determinado estilo de futebol. Os jogadores querem ser admirados e adorados. E sabem que isso acontece mais facilmente se jogarem um tipo de futebol mais identificado com esses treinadores do que com Mourinho", refere o sociólogo portuense, ilustrando com os exemplos de Eden Hazard (Chelsea), Kevin de Bruyne (Manchester City) ou Mohamed Salah (Liverpool), jogadores que não conseguiram ter com Mourinho o protagonismo de que desfrutam agora.

"Sem futebol atrativo e sem vitórias, apesar dos recursos excecionais de que dispõe, como irá ele sobreviver?", interrogava o escritor Álvaro Magalhães na crónica que dedicou recentemente a Mourinho n'O Jogo. César Peixoto admite que esta é "uma fase crítica" para o seu antigo treinador, mas afasta a ideia de um fim de era para Mourinho na elite do futebol internacional: "Ele é inteligente, tem muitos anos ao alto nível e muita experiência. Não tenho dúvidas de que vai voltar a vencer."

Já o podcaster Pedro Barbosa acha que o melhor para o treinador português seria "parar e refletir na carreira". "Se não o fizer corre o risco de se tornar uma anedota, um meme do futebol, como aconteceu com o Eriksson [ex-treinador do Benfica e da seleção inglesa]", acrescenta, com uma imagem final: "Hoje, Mourinho parece uma ilha, isolado do mundo. Acho que ele pensava que ia ficar sempre no topo."

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