Manuel João Vieira: "O fado é mais antigo do que as gravuras de Foz Coa"

Músico, ator e artista plástico, o mentor de projetos como Ena Pá 2000 ou Os Irmãos Catita apresenta-se agora a solo e em nome próprio com o duplo álbum Anatomia do Fado, um trabalho, como o nome indica, dedicado ao fado, mais em concreto ao fado humorístico, muito em voga no século passado, mas entretanto caído em desuso.

Não é um território totalmente novo para Manuel João Vieira, o do fado, que já havia sido desbravado por Lello Perdido, um dos seus muitos alter egos artísticos, cuja obra, curiosamente, nunca ficou registada em disco. Como o próprio explica, foi então criado para recuperar "as letras um tanto esquecidas dos antigos fados humorísticos", outrora muito em voga.

Foi com esse mesmo objetivo que se atirou à empreitada de Anatomia do Fado, um duplo álbum composto por temas Os Preguiçosos, Belchior foi ao Japão, Mulheres Há Muitas ou O Soldado da Trincheira, em tempos popularizados por Joaquim Cordeiro e que já haviam feito parte do reportório de Os Irmãos Catita. "Adquiri esses singles todos na feira da ladra e fiquei fascinado com aquelas letras quase surreais", recordou nesta entrevista ao DN.

Ao todo, Anatomia do Fado conta ainda com nove inéditos, da autoria do próprio Manuel João Vieira, que também assina as gravuras que ilustram a edição física do álbum, cuja capa, da autoria do seu pai, o pintor João Vieira (a quem ainda ouviu trautear alguns destes fados), recria as célebres figuras da famosa pintura Fado, de José Malhoa, mas despidas. Acompanhado por Vital Assunção à viola, Arménio de Melo e Múncio de Sá no baixo, Manuel João Vieira assina assim um "trabalho de arqueologia" fundamental para melhor se compreender a verdadeira anatomia do fado, cujo corpo parece ser sempre muito mais amplo do que se julga, como mais uma vez se comprova ao longo dos 32 temas deste disco.

Como é que surge esta ideia de fazer um disco de fados, que não sendo um território totalmente estranho para si, também não é o seu ambiente mais natural?
Este trabalho é o resultado de uma escavação arqueológica que acabou por provar que o fado, afinal, é ainda mais antigo do que se pensava, talvez até do que as gravuras de Foz Coa. Já tinha cantado alguns destes temas com Os Irmãos Catita e mais tarde quando fiz o Lello Perdido, que infelizmente, ou talvez não, nunca chegou a ficar registado em disco.

Que fados são estes, com uma temática mais humorística, que já não é assim tão comum de ouvir?
Estes fados existem e foram muito populares no seu tempo, quando eram cantados por gente como o Artur Gonçalves, o Joaquim Cordeiro ou o Neca Rafael e serviam como um interlúdio cómico nas casas de fado, para desanuviar entre as atuações.

Porque é que acha que se perdeu esta tradição dos fados humorísticos?
Na verdade, nunca se perdeu completamente, apenas deixaram de ser interpretados nas casas de fado e com isso deixaram de fazer parte do imaginário fadista. E também por isso que dei a este disco o nome de Anatomia do Fado e não Arqueologia, porque estes temas também fazem parte do corpo do fado, apesar de esquecidos.

O disco acabaria no entanto por se transformar num ambicioso projeto, em formato de duplo álbum, com 32 temas, entre eles alguns inéditos da sua própria autoria...
Tem nove temas originais. O que se passou é que tenho uma imensa dificuldade em escolher e assim sendo coloquei no disco todas as músicas de que me lembrei. Aliás, houve uma ou duas que me esqueci, como a Abnegação, e acabaram por ser gravadas em casa, já sem os músicos e apenas comigo a tocar cavaquinho. Apenas deixei de fora alguns fados mais pornográficos, porque era meu desejo fazer um disco para toda a família, instrutivo e arqueológico, como já referi. E isto é só uma faceta do fado, porque há um outro lado, mais político, que também ainda está por explorar e é de certa forma aflorado neste disco, por exemplo, na faixa Fado Anarquista.

Diz no texto de apresentação do disco que chegou a ouvir o seu pai cantar alguns destes temas, vem daí esse gosto pelo fado?
Pouca gente sabe disso, mas o meu pai chegou a ter um grupo musical, no liceu, que interpretava canções românticas e até chegou a gravar um disco de boleros. Nunca foi fadista, mas lembro-me de o ouvir a trautear ou a versejar alguns destes fados à mesa e isso ficou-me sempre na memória, quando comecei a pesquisar material para Os Irmãos na feira da ladra, com o João Leitão, logo no início dos anos 1990. Foi nessa altura que adquiri muitos dos singles do Joaquim Cordeiro, que acabei por recuperar para este disco, mas que antes já tinham feito parte do reportório de Os Irmãos Catita e do Lello Perdido. São letras com uma perspetiva quase surrealista.

Como crê que o meio do fado, por vezes tão purista, vai reagir a este disco, feito por alguém aparentemente tão exterior ao próprio fado?
Bem, não sou fadista, mas também não sou um rock and roller e tenho feito muito rock and roll. Na verdade não sou coisa nenhuma, apenas gosto de cantar fados, mas de qualquer forma é perfeitamente legítima essa forma de pensar mais purista, também existente no jazz ou nalgumas franjas do rock. Encaro portanto com toda a naturalidade que haja quem desaprove este disco e até respeito essa posição. Os meus guitarristas reagiram muito mal, por isso imagino os outros.

Já teve alguma reação negativa?
Não, mas apenas porque os meus amigos fadistas deixaram de me atender as chamadas, a partir do momento em que tomaram conhecimento do disco.

Mas o disco até teve o patrocínio do Museu do Fado, onde até fez a apresentação do mesmo, o que lhe dá alguma aprovação institucional, digamos assim.
Mas não estava lá ninguém do fado, devem ter tido vergonha de ir assistir àquilo.

Está prevista mais alguma apresentação do disco ao vivo, para breve?
Espero bem que sim, mas ainda estamos à espera de que apareçam alguns mecenas para levar este espetáculo, que é bastante barato, ao grande público. Pode ser uma câmara, uma junta de freguesia ou até um partido político, não nos faz diferença.

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