A batalha eleitoral mais dura de Vieira. Quanto valem Noronha Lopes e Gomes da Silva?

Os sócios do Benfica escolhem nesta quarta-feira os órgãos sociais que vão gerir o clube até 2024. De um lado, a continuidade de Luís Filipe Vieira, cuja imagem tem sido desgastada devido a processos judiciais. Do outro, duas listas que apontam ao sucesso desportivo na Europa, com Noronha Lopes a apresentar um conjunto de apoios que abanam a confiança do atual presidente.

Os sócios do Benfica vão nesta quarta-feira às urnas para decidir quem irá conduzir os destinos do clube até 2024. Em avaliação estarão os últimos quatro anos de gestão de Luís Filipe Vieira, que já é o presidente com maior longevidade à frente do clube e concorre para o sexto mandato.

Depois de nas últimas horas Bruno Costa Carvalho ter desistido da corrida eleitoral, João Noronha Lopes e Rui Gomes da Silva surgem como as alternativas ao homem que liderou as águias nos últimos 17 anos e que é considerado o principal favorito a continuar à frente do clube. Afinal, nas anteriores cinco eleições, apenas por uma vez Vieira teve um resultado inferior a 90%, foi precisamente em 2012, quando obteve 83% dos votos, poucos meses depois de ter perdido pelo segundo ano consecutivo o título de campeão nacional para o rival FC Porto.

Desta vez, Vieira até poderá ter um resultado eleitoral mais apertado do que os anteriores, sobretudo tendo em conta os apoios públicos que Noronha Lopes já recebeu de algumas figuras importantes do universo benfiquista. Além disso, o atual presidente vem de uma época de fracassos e desilusões em termos desportivos, mas sobretudo de uma série de casos de justiça a que tem sido ligado que, apesar de não terem sido utilizados ao longo da campanha eleitoral, terão feito aumentar a percentagem de descontentes.

O falhanço da conquista do pentacampeonato e os fracos desempenhos da equipa nas provas da UEFA nos últimos quatro anos são um dos calcanhares de Aquiles de Vieira e foram aproveitados pelos dois candidatos da oposição, que nas suas propostas aos associados encarnados prometem melhores resultados além-fronteiras. Aliás, as três listas têm em comum a vertente internacional do Benfica, acenando com títulos europeus e equipas competitivas na Champions.

As urnas vão estar abertas entre as 08.00 e as 22.00 no pavilhão número 2 da Luz e em 24 Casas do Benfica espalhadas por todo o país. Os sócios residentes nas ilhas e no estrangeiro podem votar online. Aliás, o Benfica adotou um sistema de votação eletrónico, que terá um suporte em papel disponível em caso de necessidade de recontagem, que tem levantado algumas dúvidas por parte das listas opositoras a Luís Filipe Vieira, que questionam a fiabilidade do sistema.

Vieira entre a obra feita e o futuro com Rui Costa

Luís Filipe Vieira, de 71 anos, é o presidente há mais tempo em funções da história do Benfica. Foi eleito em 2003 como 33.º presidente dos encarnados e concorre agora ao seu sexto mandato, que, segundo o próprio Luís Filipe Vieira, "será o último".

Foi, no entanto, dois anos antes de ser eleito pela primeira vez que este empresário, antigo presidente do Alverca, entrou no Benfica pela mão do Manuel Vilarinho como gestor para o futebol, tendo contribuído de maneira decisiva para a construção do novo Estádio da Luz. Com Vieira na presidência, os encarnados entraram num processo de recuperação financeira e desportiva, além de terem crescido ao nível das infraestruturas com a construção do centro de estágio, no Seixal, do Museu Cosme Damião e do canal televisão do clube (BTV).

No que diz respeito a títulos, em 17 anos na presidência de Vieira, o Benfica foi sete vezes campeão nacional, venceu três Taças de Portugal, sete Taças da Liga e cinco Taças de Portugal. A nível internacional, destacam-se as duas finais da Liga Europa, mas na Champions só por quatro vezes, em 13 presenças, os encarnados superaram a fase de grupos, contabilizando duas presenças nos quartos-de-final.

Durante o último mandato, os vários casos de justiça em que Luís Filipe Vieira tem estado envolvido desgastaram a sua imagem como líder dos encarnados e originaram uma nunca antes vista corrida à presidência do clube, que chegou a ter cinco potenciais candidatos mas que termina apenas com três.

Os críticos à sua gestão não lhe perdoam o facto de não ter investido no plantel de 2017-18, para conquistar o pentacampeonato, embora o pobre desempenho nas competições da UEFA durante este último mandato seja também um dos seus pontos fracos, já reconhecido pelo próprio Vieira, de tal forma que se propõe para este novo mandato a conquistar um título europeu. Aliás, o atual presidente já veio dizer que, se for eleito, o grande objetivo dos próximos quatro anos será "a vertente desportiva" com Jorge Jesus, treinador com o qual espera renovar para além dos dois anos que estão, para já, contratualizados.

No seu manifesto eleitoral, sob o lema "Uma história com futuro", Luís Filipe Vieira reclama os louros pela "obra feita" e assume que o seu projeto passa agora por "ganhar", "em Portugal e além-fronteiras". "Nas próximas décadas, o Benfica será a organização desportiva de maior sucesso em Portugal, tanto no futebol como nas modalidades", assume, deixando claro que não irá descurar a vertente económica.

A formação continua a ser uma das bandeiras para o novo mandato, com Vieira a comprometer-se a cumprir o "plano de expansão do Benfica Campus, com a construção do colégio e o aumento do número de campos".

Durante a campanha eleitoral, Luís Filipe Vieira admitiu ainda que, se for eleito, irá preparar Rui Costa, até agora administrador da SAD, para se apresentar às eleições de 2024 como seu sucessor. Terá sido para isso que incluiu o ex-futebolista na sua lista para vice-presidente do Benfica.

Vieira tem como apoiantes da sua recandidatura Mário Dias, Carlos Móia, António Manuel Ribeiro, Cristina Ferreira, Fátima Lopes, Fernando Seara, Fernando Tordo, Manuel Damásio, Carlos Lisboa, Fernando Chalana, Jorge Jesus, José Augusto, Luisão, Simão Sabrosa, entre outros, e ainda vários atletas como Telma Monteiro, Ricardinho, Gonçalo Guedes, André Gomes, David Luiz, Ederson, Fernando Pimenta, João Félix, Jonas e Renato Sanches.

COMPOSIÇÃO DA LISTA A:
DIREÇÃO
Presidente - Luís Filipe Vieira
Vice-presidentes -Rui Costa, José Eduardo Moniz, João Varandas Fernandes, Domingos D'Almeida Lima, Fernando Tavares, Sílvio Cervan, Jaime Antunes (suplente), Rui Vieira do Passo (suplente)
ASSEMBLEIA GERAL
Presidente - Rui Pereira
Vice-presidente - António Pires de Andrade
Primeiro-secretário - Pedro Nunes de Carvalho
Segundo-secretário - Miguel Vasconcelos Ferreira
Secretário suplente - Rodolfo Lavrador
CONSELHO FISCAL
Presidente - Fernando Fonseca Santos
Vice-presidente - João Augusto
Vogais - Gualter Godinho, Rui Mendonça Rodrigues, José Manuel Appelton, João do Paço (suplente)

Noronha Lopes aposta na ambição desportiva

João Noronha Lopes, de 54 anos, fez parte de um grupo de sócios do Benfica que, em 2000, se mobilizou para convencer Manuel Vilarinho a candidatar-se às eleições do Benfica para tentar derrubar Vale e Azevedo. Acabou por fazer parte da lista para os órgãos sociais que acabou por ser eleita, como vice-presidente.

Por essa altura, este advogado de formação iniciou um percurso ascensional na multinacional McDonald's, da qual foi CEO em Portugal, tornando-se depois responsável pela gestão no sul da Europa, vice-presidente em França, mais tarde, vice-presidente da Europa e, ainda, chefe mundial do franchising da famosa cadeia de restauração norte-americana.

Agora, resolveu avançar para as eleições do Benfica, sob o lema "A glória é agora", por estar "preocupado com o que se tem vindo a passar" no último mandato de Luís Filipe Vieira. Noronha Lopes reconhece aquilo que foi feito no passado, mas defende que o Benfica deve ter "mais ambição desportiva e uma organização para alcançar o sucesso", prometendo canalizar os recursos financeiros para reforçar a equipa, avisando que não se irá contentar em ser campeão nacional, pois quer mais ambição na Europa, afinal, "quanto mais sucesso o Benfica tiver, menos jogadores terá de vender".

E para alcançar este sucesso, o candidato da lista B assume ser admirador de Jorge Jesus, que acredita ser o treinador que irá pôr o Benfica "a jogar à bola".

João Noronha Lopes pretende ainda potenciar e expandir internacionalmente a marca Benfica para aumentar as receitas de merchandising, por exemplo, mas tem ainda como bandeira alterar a relação com os sócios, promovendo uma maior aproximação e participação na vida do clube. Além disso, promete limitar a três os mandatos dos presidentes, bem como a criação de uma Comissão de Ética e de um Código de Conduta.

Esta é uma candidatura que tem angariado alguns apoiantes importantes do universo encarnado, como António Simões, Ricardo Araújo Pereira, Mozer, Vítor Paneira, Isaías, António Bagão Félix, Manuel Tinoco de Faria, Luís Seara Cardoso, Pedro Norton, Cunha Leal, José Ribeiro e Castro, Nuno Lobo Antunes, Jacinto Lucas Pires, António Zambujo ou António-Pedro Vasconcelos.

Nas últimas horas, João Noronha Lopes elogiou a carta aberta do internacional português Bernardo Silva, na qual criticou o último mandato de Vieira e apelou à mudança, mas sem se comprometer em relação a quem apoia. A declaração do jogador do Manchester City poderá ser um trunfo importante para inclinar o sentido de voto de alguns indecisos.

COMPOSIÇÃO DA LISTA B:
DIREÇÃO
Presidente - João Noronha Lopes
Vice-presidentes - Carlos Perdigão, António Borges de Assunção, Pedro Cardigos, Pedro Ribeiro, Pedro Adão e Silva, Jorge Fonseca Ferreira, Manuel António Mota (suplente), Stephan Morais (suplente).
ASSEMBLEIA GERAL
Presidente - Francisco Benitez
Vice-presidente - Luís Sousa Macedo
Primeiro-secretário - Cristina Santos Silva
Segundo-secretário - Diogo Leote Nobre
Secretário suplente - José Braga da Cruz
CONSELHO FISCAL
Presidente - José Theotónio
Vice-presidente - Pedro Penalva
Vogais - Martim Avillez Figueiredo, Aulácio Costa Almeida, Vicente Pedro Nunes, Manuel Cary (suplente)

Gomes da Silva promete condições para ganhar a Champions

Rui Gomes da Silva, de 62 anos, foi o primeiro a anunciar a intenção de se candidatar à presidência do Benfica, em maio de 2018, quando o proclamou em direto na SIC Notícias, onde era comentador do programa Dia Seguinte. Tinham passado quase dois anos desde que deixara de ser vice-presidente de Luís Filipe Vieira, alegadamente por ter exigido ser o número dois da direção. Nos primeiros tempos após a saída assumiu que nunca seria candidato contra o atual presidente.

À medida que o tempo foi passando, foram aparecendo as críticas à atuação da direção encarnada, que o levou a avançar para a corrida eleitoral.

Gomes da Silva é um advogado que desempenhou vários cargos públicos, entre os quais os de ministro dos Assuntos Parlamentares e ministro-adjunto do primeiro-ministro, tendo também sido deputado durante seis legislaturas.

Fez parte dos órgãos sociais do Benfica em dois mandatos de Luís Filipe Vieira, entre 2009 e 2016, tendo inclusive sido administrador da SAD.

Agora, sob o slogan de "O Benfica é nosso!", propõe-se nos próximos quatro anos, se for eleito, a dotar o clube de condições para "ser campeão europeu" de futebol. Para isso, assume a necessidade de contratar "dois ou três jogadores com o estatuto de Cavani", em vez de comprar muitos jogadores. Ou seja, como diz no seu programa, defende "uma política desportiva ambiciosa e eficiente, em que os recursos existentes sejam canalizados para investimentos em reais mais-valias".

Nesse sentido, pretende que a sustentabilidade financeira seja feita "através de receitas operacionais e não através da venda de talentos". Aliás, Rui Gomes da Silva só admite a saída dos principais jogadores "em circunstâncias excecionais" e garante querer "criar uma cultura em que os jovens talentos do Seixal olhem para a entrada no plantel principal como o ponto alto das suas carreiras".

Sem rodeios, assumiu que Jorge Jesus não seria a sua escolha para treinar o Benfica, mas já que está contratado, assume que lhe irá dar todas as condições para ter sucesso.

O candidato da lista D promete ainda rever os estatutos do clube, implementando um "sistema eleitoral a duas voltas", sempre que não exista uma maioria absoluta, e a limitação de dois mandatos do presidente. Gomes da Silva propõe-se ainda "avaliar" o contrato de direitos televisivos com a NOS, que considera "incompreensível".

Entre os apoiantes de Rui Gomes da Silva destaca-se Alberto Miguéns, conhecido historiador do Benfica.

COMPOSIÇÃO DA LISTA D:
DIREÇÃO
Presidente - Rui Gomes da Silva
Vice-presidentes - Ricardo Mexia, Cristóvão Carvalho, Nuno Gonçalo Vicente, Luís Rocha Ferreira, Filipe Dias Barroso, Nuno Pereira Frazão, Luís César Gomes (suplente), Joana Fernandes Silva (suplente).
ASSEMBLEIA GERAL
Presidente - António Lourenço
Vice-presidente - José Manuel Azevedo
Primeiro-secretário - António José Barreto
Segundo-secretário - António Tavares
Secretário suplente - Inês Miguéns
CONSELHO FISCAL
Presidente - João Antunes
Vice-presidente - Paulo Alexandre Marcos
Vogais - António Pina, António Borges do Amaral, José Miguel Gil, José Gonçalves (suplente)

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