Sá Carneiro "poderia vir a ser Presidente da República"

Em entrevista, Marcelo Rebelo de Sousa considera que se Sá Carneiro perdesse as eleições "iria combater para a Assembleia da República" e até "poderia vir a ser Presidente da República". Ressalva que "é impossível fazer a prova" mas "teria, sempre, um protagonismo determinante e duradouro na vida política portuguesa". Sá Carneiro morreu a 4 de dezembro de 1980.

Dez anos após ter escrito um prefácio para a coletânea de discursos, entrevistas e intervenções públicas que Francisco Sá Carneiro fez entre 25 de outubro de 1974 e 1 de fevereiro de 1975, Marcelo Rebelo de Sousa atualiza em entrevista esse retrato sobre um dos fundadores do PPD (atual PSD). Considera que os textos incluídos em Por Uma Social-Democracia Portuguesa, um livro que integrava a coleção Participar e feito a pedido da editora Snu Abecassis, traduzem um dirigente político com "forte carácter e personalidade, alegria de viver e de viver lutando", em que se nota "coragem e prazer no afrontamento por causas, inteligência nos argumentos, lucidez na leitura dos acontecimentos, clareza na exposição". Tudo isto, esclarece, escrito ou falado num "estilo clássico, em larga medida pré-televisivo e não populista" que reflete a "vasta cultura, feita de ler livros e intuir o significado dos homens e dos factos". O "retrato" é, aponta, a quatro dimensões: a sua resistência à radicalização política a partir de julho de 1974 e até fevereiro de 1975; como constrói a origem e a afirmação doutrinária do partido; como o líder segue "a contragosto" a radicalização para a esquerda nas suas intervenções, e acena um adeus à incontrolável e inaceitável deriva política nacional. Deste modo, afirma Marcelo Rebelo de Sousa, "teremos o fresco completo da forma como Sá Carneiro vai agindo e reagindo, num tempo que lhe é acrescidamente adverso". O seu objetivo era apresentar "o caminho reformista mais justo e menos penoso para fazer convergir a nova democracia com as mais avançadas da Europa".

Considera Sá Carneiro um "líder com cultura e um pensamento próprio" que "justifica a originalidade de uma social-democracia portuguesa sem base operária, suporte sindical, origem revolucionária". Não é temerário que Sá Carneiro, que vinha da Ala Liberal, admita então poder ser porta-voz de um partido contra a maré da época?


Não, pelo seu perfil de líder muito determinado e combativo e porque existia, de facto, um Portugal de centro-direita e direita, que não se via representado nos partidos existentes à esquerda do PPD nascente. Muito forte no norte e no centro, no ainda importante Portugal rural como no Portugal urbano não metropolitano e mesmo em zonas da futura Área Metropolitana do Porto. E, ainda, nos Açores e na Madeira.

Esteve presente no I Congresso do PPD e diz que ficou surpreendido com a "inserção revolucionária do PPD" em função da conjuntura". Sá Carneiro ter-se-á arrependido desse crescendo verbal "esquerdista" nos comícios de outubro e desse primeiro Congresso em 1974?


Eles corresponderam ao clima do processo em curso, em rápida aceleração para a esquerda.

Em 1975, com a doença que o afetou e o "curso negativo dos acontecimentos", Sá Carneiro pede a sua substituição não interina mas duradoura como secretário-geral. É uma capitulação ou porque não acreditava que iria ganhar eleições e obter maiorias legislativas?


A doença era real e obrigou a operação e difícil pós-operatório. Mas, além disso, e como admitiria, mais tarde, Francisco Sá Carneiro tinha uma visão muito crítica do processo revolucionário em 1975 e, tendo ganho o Congresso, perdera, a seguir, na própria eleição do número dois da Comissão Política Nacional - Carlos Mota Pinto - a sua proposta - vencido por Jorge Sá Borges.

Recorda que Sá Carneiro se identificou em 1971, numa entrevista a Jaime Gama, com a social-democracia sueca e queria integrar a Internacional Socialista. Mário Soares nunca o permitiu. Foi uma derrota?


Foi uma desilusão para Francisco Sá Carneiro e para o partido. E Francisco Sá Carneiro nunca desistiu desse objetivo em sua vida.

A sua morte antes do tempo evitou que a voragem política daqueles tempos o anulasse enquanto líder político principal ou sobreviveria e lideraria os acontecimentos e teria sido mais do que um dos pais fundadores da democracia portuguesa?


Francisco Sá Carneiro iria combater para a Assembleia da República. Na altura, em dezembro de 1980, as suas relações com Mário Soares eram boas. Poderia voltar a ser primeiro-ministro. Como poderia vir a ser Presidente da República. Claro que é impossível fazer a prova. Penso que é, em qualquer caso, possível afirmar que teria, sempre, um protagonismo determinante e duradouro na vida política portuguesa.

Não posso deixar de lhe perguntar. Camarate foi um acidente ou um atentado?

Tendo acompanhado múltiplas comissões parlamentares de inquérito a Camarate, em representação da família de António Patrício Gouveia, reconheço que experimentei a mesma evolução de pensamento dos parlamentares, perante os dados sucessivamente conhecidos, que acabaram por concluir ter havido atentado, mesmo se não contra Francisco Sá Carneiro, mas Adelino Amaro da Costa, que era suposto ser o único político presente no avião.

"Apesar da frieza analítica com que expõe as linhas programáticas do partido, Sá Carneiro não consegue ser imune ao galope da Revolução. Os sintomas mais claros dessa, embora limitada, cedência verbal é o teor da entrevista de 10/1974 e dos discursos no comício nacional e no I Congresso, que converte nas palavras mais radicais proferidas em toda a vida política de Sá Carneiro.

Exemplos: na conferência de imprensa de 30/10/1974, a afirmação de que "não haverá verdadeira democracia sem socialismo, nem socialismo autêntico sem democracia"; de que o PPD pretende "reunir todos os que comungam nos valores do socialismo democrático"; de que importa lançar uma ponte entre a construção do socialismo democrático na Europa e as experiências socialistas do Terceiro Mundo, com uma posição responsável, "anti-imperialista, solidária com os países subdesenvolvidos". No discurso do comício: o fim das guerras coloniais e a solidariedade com o início da descolonização efetiva; no reforço da unidade em torno do Presidente Costa Gomes, no combate à reação e na proibição das atividades dos partidos e movimentos neofascistas (...)"

In prefácio de Marcelo Rebelo de Sousa

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