O brilhante democrata-cristão que gostava de citar Mao Tsé-tung

Católico militante, residente numa casa da Opus Dei desde muito jovem, Amaro da Costa foi jornalista com carteira profissional, até correspondente de um jornal espanhol, o Madrid, mas antes fez serviço militar na Marinha. O 25 de Abril de 1974 deu a oportunidade ao engenheiro técnico de apostar numa vida política.

Diz Basílio Horta sobre Adelino Amaro da Costa, o ministro da Defesa que morreu no desastre aéreo de Camarate em 1980, que "foi o político mais brilhante que conheci na minha vida". O atual presidente da Câmara de Sintra foi um dos fundadores do CDS em 1974, depois secretário-geral do novo partido de matriz democrata-cristã de que Diogo Freitas do Amaral era o presidente e Adelino Amaro da Costa o vice. Na época da fundação, Freitas tinha 32 anos, Adelino 31 e Basílio 30.

"Tivemos uma ligação muito íntima. O Adelino era um político brilhante, mas também uma das pessoas mais bem formadas que conheci, pela amizade, pela generosidade, pelo espírito de entrega", acrescenta Basílio Horta, que foi várias vezes ministro pelo CDS e que, tal como Adelino Amaro da Costa, serviu como deputado na Assembleia Constituinte eleita a 25 de abril de 1975, um ano exato depois da Revolução dos Cravos. Em Sintra, está a cumprir um segundo mandato como eleito nas listas do PS.

De seu nome completo Adelino Manuel Lopes Amaro da Costa, o ministro da Defesa que morreu junto com o primeiro-ministro Francisco Sá Carneiro a 4 de de dezembro de 1980 era um engenheiro técnico nascido em Algés e que viveu a infância na Madeira antes de vir para Lisboa estudar no Liceu Camões e depois no Instituto Superior Técnico. O período no Funchal, onde foi colega de turma do futuro presidente do governo regional Alberto João Jardim, explica-se pela vida profissional do pai, também engenheiro e que foi supervisionar a construção das levadas que são hoje uma das marcas da ilha da Madeira.

Católico militante, residente numa casa da Opus Dei desde muito jovem, Amaro da Costa foi jornalista com carteira profissional, até correspondente de um jornal espanhol, o Madrid, mas antes fez serviço militar na Marinha. Especializado em hidrografia, trabalhou ainda numa empresa dessa área antes de se tornar assistente no Técnico e quadro do Ministério da Educação, quando José Veiga Simão foi ministro. O 25 de Abril de 1974 deu a oportunidade ao engenheiro técnico de apostar numa vida política. E de estar na fundação do CDS com Basílio Horta e Freitas do Amaral, que foi ministro da Defesa, também ministro dos Negócios Estrangeiros e ainda presidente da Assembleia Geral da ONU.

Conta José Ribeiro e Castro, um histórico do partido, que "Adelino Amaro da Costa era a alma e o pulmão do CDS". Relembra o antigo líder dos democratas-cristãos (2005-2006), que "quase todos os militantes gostavam dele. Era o herói dos que trabalhavam no Caldas, na sede nacional do partido. Além da sua capacidade política, era um brincalhão permanente, que gostava de ver toda a gente bem-disposta". Chefiar o grupo parlamentar foi natural.

Ribeiro e Castro faz questão de lembrar um episódio ocorrido quando o CDS estava num governo com os socialistas de Mário Soares: "Em 1978, Adelino Amaro da Costa visitou a China numa delegação de deputados portugueses. Se não erro, Jaime Gama também foi. Ficou sempre a lenda de que essa viagem determinou a queda do governo PS-CDS. De facto, Amaro da Costa voltou, reuniu as notícias, avaliou a situação com Freitas do Amaral... e ambos decidiram que a experiência chegara ao fim. Mas não foi qualquer mistério chinês, antes a realidade portuguesa: PS e CDS tinham muito boas relações, mas não era para trabalharem do mesmo lado. Pertenciam a campos alternativos. Foi uma lição que ficou dessa experiência. Quem a sabia aprendeu à sua custa. Quem a esqueceu saiu sempre a perder."

Ainda relacionado, prossegue Ribeiro e Castro, "essa viagem à China foi num tempo muito marcante. As relações China-EUA só se foram desanuviando ao longo dessa década de 1970. E só houve relações diplomáticas sino-americanas a partir de 1979. Deng Xiaoping, o grande marcador da mudança, ascendera à liderança chinesa justamente nos primeiros meses desse 1978.

Amaro da Costa partiu cheio de curiosidade para conhecer e compreender o que se passava na China, depois da morte de Mao em 1976. O que mais intensamente trouxe dessa viagem foi um provérbio chinês, mais exatamente um pensamento de Mao Tsé-tung, que lhe ouvimos dezenas de vezes, depois de chegar: "Há um grande caos debaixo do universo, mas a situação é excelente."
A frase é magnífica, inspiradora, só aparentemente desconcertante.

Repetiu-a não sei quantas vezes até à sua morte. Sempre que a situação política se adensava ou parecia mesmo desesperada e todos necessitavam de uma centelha de ânimo, lá vinha o Adelino com o seu olhar otimista: "Há um grande caos debaixo do universo, mas a situação é excelente." A verdade é que logo nos arrastava com aquele sorriso largo e a expressão de confiança".

Salienta igualmente Ribeiro e Castro que, "no CDS desses anos, devemos ao Adelino a maior parte das melhores horas bem passadas, fossem duras ou fossem leves".

Apesar de ter sido um dos negociadores da aliança governamental com o PS, Amaro da Costa só se tornou ministro com a AD, a Aliança Democrática que juntava o PSD de Sá Carneiro ao CDS de Freitas e ao PPM de Gonçalo Ribeiro Telles. O primeiro civil com a pasta da Defesa desde a Revolução. Nesse 1979, ano da primeira das duas vitórias da AD, casou-se com Maria Manuela Vaz Pires, professora. Estava com o marido quando em dezembro de 1980 o Cessna que deveria levá-los ao Porto para um comício das eleições presidenciais caiu em Camarate, pouco depois de descolar de Lisboa.

"Talvez nunca saibamos tudo sobre o que provocou a sua morte e dos que iam consigo naquele pequeno avião: a Manucha, sua mulher, Sá Carneiro e Snu, o António Patrício Gouveia e os dois pilotos. De muitos inquéritos e investigações, ficou a evidência de que foi atentado e a convicção de que o alvo mais provável foi Amaro da Costa, como ministro da Defesa, por causa de investigações que queria ao comércio e ao tráfico de material militar. À medida que estas peças se foram desfiando, anos passados, várias vezes me interroguei como é que o Adelino não confiou a ninguém o perigo em que estava. A única explicação que encontrei foi esta: ele não sabia que estava a chegar tão perto, mas aqueles que ele estava quase a descobrir sabiam", conclui José Ribeiro e Castro.

Basílio Horta, por seu lado, sublinha que "o país político teria sido diferente se o Adelino não tivesse morrido naquele estúpido desastre".

Sepultado em São Martinho das Amoreiras, nessa Odemira de onde eram oriundos tanto o pai como a mãe, Adelino Amaro da Costa dá nome ao instituto ligado ao CDS, uma homenagem do partido que ajudou a fundar.

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