Acontece que o dinheiro é do povo, meus amigos

Vocês querem ver que os deputados perderam a cabeça e colocaram Portugal, de novo, à beira do abismo onde acabará por cair, perdendo, definitivamente, o direito de ser olhado com respeito por uma comunidade internacional que, verdadeiramente, só obedece aos famosos mercados? É, aconteceu! Aprovaram uma norma no Orçamento do Estado que impede o Governo de prever uma abertura dos cofres do Terreiro do Paço, lá para maio, e retirar mais 476 milhões para confortar os donos do Novo Banco, por desvalorização de ativos.

Dizem que foi uma coligação negativa, porque juntou o partido amigo da extrema-direita (PSD) mais o partido da extrema-esquerda (BE) e ainda a esquerda que vai fazer 100 anos (PCP) e uns que não se sabe o que é que são (PAN). Todos contra o partido do governo (PS), que à última hora andou a tentar arregimentar votos da direita para tentar ganhar. Foi, aliás, muito sugestivo ver toda a equipa das Finanças a tentar convencer o senhor Ventura, do Chega, a manter-se ao lado do Executivo. Ainda chegou a festejar, mas o resultado foi ao VAR e os votos do PSD-Madeira voltaram para a maioria que aprovou a norma.

Agora parece que não dúvida, a norma, que afinal pode ser apenas uma disposição, é ilegal e inconstitucional. Pode dar até para não ter de esperar pela decisão do Tribunal Constitucional, porque sendo apenas uma disposição pode permitir que os lesados (não é para rir) do Novo Banco, ou seja a Lone Star, façam chegar uma providência cautelar ao Tribunal Administrativo, pedindo a suspensão da eficácia da norma. Perdão, da disposição.

Estava tudo a correr tão bem, quer dizer, tão mal, mas há sempre uma solução. O que nós não podemos é ficar malvistos lá fora. O primeiro-ministro já deixou descansada Lagarde (FMI) e companhia (mercados financeiros): Portugal não dá calotes. Disse que pagava, vai pagar. Nem interessa muito saber o que vai dizer a auditoria (mais uma) do Tribunal de Contas, mesmo que essa auditoria tenha sido aprovada por unanimidade, incluindo o PS, porque unanimidade é isso mesmo, inclui todos, mesmo os que depois ficam indignados porque há quem queira levar a sério o que aprovou.

Falar nisso. Parece que ainda estou a ouvir António Costa, no parlamento, a garantir a Catarina Martins que não haveria mais dinheiro para o Novo Banco, enquanto não estivesse concluída a auditoria da Deloitte. E Marcelo Rebelo de Sousa, no meio do povo, a defender que só uma auditoria é que podia explicar porque queria o Novo Banco mais 850 milhões de euros. Andavam eles entretidos no diz-que-diz e pumba... o ministro das Finanças, a esgotar-se o prazo que estava estipulado, deu ordem de transferência do dinheiro para o Fundo de Resolução. Tudo isto aconteceu em maio, deste ano. Centeno chamou-lhes irresponsáveis, esteve quase para sair, aguentou e só saiu para a cadeira de sonho. Hoje é governador do Banco de Portugal e deve estar a rir-se com esta história.

É que o Banco pode ter Novo no nome, mas os problemas são velhos e a história é muito divertida. Dava um bom livro, um bom filme ou mesmo uma boa série com várias temporadas, mas há um pormenor que deveria estar a incomodar toda esta gente que anda a brincar à política, é que o dinheiro com que eles jogam é do povo. Às vezes, parece que não fazem a mínima ideia de que é ao povo que os elege que têm de prestar contas. Quer parecer-me que o povo anda a ficar farto e que é por isso que aqui, como noutras partes do mundo, se deixa encantar pelas flautas dos que apostam que, quanto pior, melhor. Alguém gosta quando vê os outros a brincar com o seu dinheiro?

Jornalista

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