Falta de profissionais nas TI faz disparar salários em Portugal

Com o teletrabalho a facilitar a economia global, multinacionais recrutam cada vez mais profissionais de TI em Portugal, com salários mais elevados. Um problema para as tecnológicas nacionais, que correm risco de perder os melhores talentos.

O problema não é novo. A escassez de recursos humanos qualificados nas áreas tecnológicas há muito que se fazia sentir, sobretudo na Europa. Já uns anos antes da pandemia, estudos apontavam que faltariam, em 2020, entre 800 mil e um milhão de profissionais de Tecnologias de Informação (TI) para responder às necessidades das empresas. A crise sanitária provocada pela Covid 19, que forçou o mundo a adaptar-se rapidamente ao teletrabalho, veio agravar esta tendência, pois muitas empresas aceleraram os seus projetos de digitalização.

"A falta de recursos humanos em TI já era uma realidade, a pandemia só veio acelerar esta situação. Há multinacionais, com origem nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Holanda, entre outros locais, a recrutar em Portugal, muitas vezes através das redes sociais, como é o caso do Linkedin, e que fazem ofertas muito aliciantes aos talentos nacionais", afirma Paulo Santos, diretor de Incubação e Aceleração do Instituto Pedro Nunes (IPN), situado em Coimbra.

Este responsável fala mesmo em "caça ao talento", uma vez que os profissionais portugueses são muito conceituados internacionalmente, por terem um excelente nível de formação. Ora, como o teletrabalho, tendência que parece ter vindo para ficar definitivamente, anula a importância do factor proximidade, o mercado do recrutamento tornou-se ainda mais global. A vantagem para os empregadores internacionais é clara: salários mais baixos por recursos qualificados. A vantagem para os talentos nacionais "assediados" também é compreensível: mais salário e maior reconhecimento no currículo. Resta saber como ficam as empresas nacionais face a esta procura desajustada.

Para as empresas que trabalham sobretudo para o mercado doméstico, esta questão é ainda mais sensível, pois vendem os seus produtos a preços "nacionais", mas pagam os seus recursos humanos a preços internacionais. Como refere Pedro Santos, estes negócios vão atravessar dificuldades no pós-crise, e vai ter de existir uma importante fase de ajustamento. Mas, por outro lado, isto representa também oportunidades para algumas empresas nacionais que têm assim mais facilidade em recrutar fora do país - como, por exemplo, no Brasil, explica este responsável.

Victor Batista, CEO e co-founder da Present Technologies, empresa de desenvolvimento de software sediada em Coimbra, admite que este é um problema real para os negócios nacionais. "Se a pandemia veio fechar algumas fronteiras físicas, na nossa área trouxe a globalização completa. O que está a acontecer de momento é que os ordenados estão a subir e a disponibilidade de profissionais no mercado é cada vez menor, em contraciclo com a maioria das outras áreas. Este é, sem dúvida, um assunto delicado para as empresas de TI, pois é o nosso maior risco à data atual. Implica também que as empresas nacionais compradoras de serviços de TI tenham que pagar mais por esses serviços", afirma.

O empresário acrescenta ainda que "muitas companhias estrangeiras de TI estão a instalar-se em Portugal com o apoio do Governo, com o único pretexto de criarem emprego. O problema é que esta atividade tem pleno emprego, o que ajuda à "bolha especulativa" em torno dos ordenados. "As nossas autoridades deveriam exigir outro tipo de investimento a estas companhias". A Present Technologies é uma empresa ainda pequena à escala mundial, tem cerca de 65 colaboradores, mas a sua concorrência são as grandes multinacionais, uma vez que trabalha essencialmente para fora de fronteiras.

PHC e Critical apostam na melhoria para reter talentos

Luís Antunes, diretor da People Experience Unit da PHC Software, afirma que nos últimos quatro ou cinco anos o setor tem uma maior necessidade do que a oferta existente, em particular com os centros de Lisboa e Porto a tornarem-se hubs tecnológicos de startups.

"No entanto, essa pressão da procura de talento tem feito com que as empresas tenham que gerir da melhor forma os seus colaboradores, formando-os, desenvolvendo competências e metodologias de trabalho e produtividade. Portugal tem dado bons passos nesse sentido, com exemplos de empresas que estão ao nível das melhores do mundo e competem pelo talento a nível global. Não devemos ver o copo meio cheio, mas sim compreender como é que este desafio nos tem permitido evoluir a nível empresarial", diz.

Luís Antunes explica que as empresas se adaptam de modo a responder às suas necessidades e assim sendo a PHC Software funciona do mesmo modo. "O salário emocional tem um peso importante para o grande talento, sendo que a cultura da empresa, o bem-estar, a autonomia, a flexibilidade, o crescimento individual, a relação com a equipa, ou liderança são fatores determinantes para a felicidade e que dificilmente são substituídos por uma mera questão remuneratória", afirma.

A Critical Software, empresa com mais de mil trabalhadores, também acredita que esta situação cria oportunidades de melhoria, sobretudo ao nível da retenção do talento. Nuno Vaz Santos, responsável pelas Pessoas, refere que esta é uma área que tem pleno emprego pelo que as empresas têm de ser competitivas na atração e retenção do seu talento. "Tentamos reter os nossos colaboradores melhorando, por exemplo, a distribuição da riqueza internamente. Por exemplo, o salário mais alto não pode ser mais de 10 vezes superior ao salário mais baixo. Também o top management só recebe prémios depois de todos os outros receberem", refere.

Este responsável afirma que a Critical está empenhada nesta melhoria e está a estudar espaços ainda mais colaborativos. Além disso, "o sentido de propósito, o sentir que fazem parte da comunidade, que as pessoas tenham orgulho de pertencer à equipa, tudo isto é fundamental para reter talento. Isto complementa o pacote do salário emocional", explica Nuno Vaz Santos.

"Caça ao talento" não é uma moda recente

Vasco Rodrigues, associate manager da Michael Page Information Technology, explica que "o "assédio" por parte das grandes empresas não é uma moda recente, existe desde sempre. Hoje temos sentido até que há cada vez mais profissionais que, inclusive, preferem outro tipo de estruturas mais pequenas, de nicho, onde a remuneração não é somente financeira, mas também emocional. Contudo, não podemos escamotear que é difícil para uma parte significativa do mercado manter ou contratar profissionais em virtude das grandes marcas estarem cada vez mais ativas na procura destes", diz.

Este especialista no mercado do recrutamento explica ainda que há duas visões sobre este tema: por um lado, a contratação de candidatos tecnológicos é cada vez mais uma tarefa hercúlea, sobretudo pela sua escassez, mas também pelas contingências atuais de mercado (não deixar a certeza pela incerteza, por exemplo); e, por outro lado, a redução de atividade de algumas empresas poderá originar maior abertura a novas oportunidades de carreira.

Luísa Ribeiro, responsável pela área de Strategy & Consulting Talent & Organization da Accenture, afirma que as áreas de TI têm sido fundamentais em mitigar potenciais impactos da covid-19, não só de um ponto de vista de continuidade da operação, com suporte à transição para trabalho remoto de grande parte da força de trabalho - cerca de um milhão de portugueses -, como na continuidade dos negócios, no suporte à transição e incremento do comércio online. "Assim, o que observamos e iremos continuar a observar é um aumento da procura por competências nesta área. Caso não sejamos capazes de aumentar o volume e ritmo de formação e requalificação de profissionais, a lacuna entre a oferta e a procura tenderá a aumentar exponencialmente. É difícil quantificar neste momento o quanto, mas se observarmos o ritmo a que a digitalização está a aumentar vamos estar seguramente perante uma situação mais complicada", afirma.

Também ela concorda que esta situação abrirá novas oportunidades às empresas nacionais. "A globalização e mobilidade da força de trabalho pode ser vista como uma dificuldade, mas também como uma oportunidade, a capacidade de Portugal atrair investimento por parte de empresas internacionais também se estende à capacidade de atrair talento", afirma esta responsável.

Assim, se é verdade que o teletrabalho veio permitir que recursos portugueses possam trabalhar em remoto para empresas multinacionais, não é menos verdade que as empresas nacionais possam aceder a recursos em remoto a partir de outras cidades no mundo, explica. "Uma das formas que as empresas portuguesas têm de combater esta migração é criar condições que vão ao encontro das expetativas destes profissionais além da remuneração, nomeadamente work-life balance, propósito e desenvolvimento profissional", remata.

dnot@dn.pt

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