Oposição começa a endurecer críticas a Costa

Sobretudo à esquerda do PS começa a surgir alguma contestação ao governo. Costa também teve nesta semana de se defender das críticas de três bastonários.

Declarações arriscadas na segunda-feira à TVI - "nunca vamos perder o controlo da situação" ou "até agora não faltou nada e não é previsível que venha a faltar" - colocaram o primeiro-ministro (PM) debaixo de fogo da classe médica.

Três bastonários (dos médicos, dos enfermeiros e dos farmacêuticos) assinaram em conjunto uma carta aberta ao chefe do governo, um dia depois da entrevista de Costa, na qual asseguraram que estão a receber "milhares de relatos de situações muito difíceis que os nossos profissionais de saúde estão a enfrentar no terreno sem estar devidamente acautelada a proteção das suas próprias vidas, dos seus familiares e dos seus doentes".

"O Ministério da Saúde não tem estado a acautelar medidas básicas e que podem comprometer todo o esforço de combate a este surto, de que é exemplo máximo a escassez de equipamentos de proteção individual", escreveram Miguel Guimarães (Ordem dos Médicos), Ana Paula Martins (farmacêuticos) e Ana Rita Cavaco (enfermeiros).

"Racionalização" não é "falta"

No governo e no PS, a crítica dos bastonários foi colocada à conta de agendas políticas que na substância não têm nada que ver com a forma como o SNS está a enfrentar. Mas a verdade é que o próprio António Costa foi ao Hospital Curry Cabral dois dias depois, quarta-feira, dando palco ao diretor do serviço de doenças infecciosas para este assegurar que ainda não sentiu falta de equipamentos de proteção do pessoal médico. "Até à data, aqui no serviço não tivemos falta de qualquer tipo de equipamento de proteção individual", afirmou Fernando Maltez, explicando também que "não se deve confundir o que é falta com aquilo que deve ser a racionalização dos equipamentos".

O próprio Presidente da República sentiu necessidade de vir a terreiro defender o governo. Num claro esforço de controlo de danos, considerou que "o facto de as ordens fazerem essa chamada de atenção não é falta de solidariedade nem falta de espírito de unidade". É, isso sim, segundo disse, um "contributo positivo para irmos melhorando uma resposta que, no fundo, em todos os países, vai tendo de improvisar alguma coisa em função da imprevisibilidade dos acontecimentos".

As sondagens dizem que o primeiro-ministro mantém um elevado grau de apoio popular, até superior ao de Marcelo Rebelo de Sousa (cuja quarentena voluntária foi muito criticada).

Contudo, na oposição parlamentar, o clima de "unidade nacional" em torno do governo e do seu chefe vai dando sinais de estar a perder força - e tenderá a perder cada vez mais à medida que o número de vítimas for aumentando (na sexta-feira estavam identificados 76 mortos e 4269 infetados).

O PSD, por exemplo, considerou como "globalmente positivo" o plano económico e social anunciado pelo governo na quinta-feira (ver suplemento Dinheiro Vivo). "O PSD tem mantido contacto com o governo, procurando apoiar as medidas tomadas, analisando-as e contribuindo com sugestões e propostas para a sua melhoria. O nosso objetivo é procurar mitigar os efeitos da paragem da atividade económica, contando o governo com o apoio do PSD, quer informalmente quer no Parlamento", disse a direção do partido, num comunicado emitido a seguir ao plenário governamental.

Contudo, na mesma tomada de posição os sociais-democratas fizeram uma exigência ao governo que este não parece disponível para aceitar: "O Estado, a nível central, regional e local, deveria pagar, durante as próximas duas semanas, os cerca de quatro a cinco milhões de euros de dívidas a fornecedores." Porque "é uma medida que injeta liquidez imediata nas empresas e não afeta o défice (dado que a despesa que deu origem a essa dívida a fornecedores, em contas nacionais, já foi registada)". "A medida é possível do ponto de vista da liquidez do Estado, usando os depósitos do IGCP (a chamada "almofada financeira" que serão cerca de 10 a 12 mil milhões de euros)", considerou ainda a direção laranja.

Já o Bloco de Esquerda reagiu ao mesmo pacote de medidas legislativas continuando a pressionar o governo para que proíba os despedimentos em empresas economicamente atingidas pela pandemia. "Deixar despedir os trabalhadores não é proteger as empresas", disse na sexta-feira Catarina Martins. "Esse deve ser também o caminho em Portugal: mais apoios às empresas, sim, mas na condição de manterem os salários e todos os postos de trabalho, reintegrando os trabalhadores despedidos durante esta crise, incluindo precários."

O PCP reagiu também com dureza. As medidas propostas pelo governo, "mais do que insuficientes, são erradas", disse Vasco Cardoso, membro da comissão política dos comunistas. "Não correspondem à defesa do emprego e dos direitos dos trabalhadores", "facilitam a generalização do lay-off"", regime em que os salários são reduzidos "para dois terços do vencimento atual" e "sobrecarrega a Segurança Social em mais de mil milhões de euros por mês".

No dia 2 o governo volta à AR para defender a sua proposta de moratória nos pagamentos das rendas da habitação. Deverá estar na agenda a renovação do estado de emergência.

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