O eterno desalinhamento das expectativas 

Estamos a acelerar a dicotomia em ascensão na última década entre o isolamento nacionalista e a solidariedade global. Este limbo, abreviado pelo atual ambiente viral, convoca globalistas a alinhar expectativas com as competências e recursos das principais organizações multilaterais. O que não parece possível é exigir ao mundo do pós-guerra que esteja preparado para o pós-covid.

Desde que o coronavírus entrou de rajada nas nossas vidas, paralisando as principais economias industrializadas do mundo e atirando-nos para um buraco negro de pânico coletivo, que temos antecipado o fim do multilateralismo, da globalização, do Ocidente e da União Europeia. Em tempos negros, alarmismo à medida. É compreensível e inevitável. Pode até ajudar a mobilizar recursos, a acelerar decisões fundamentais, a clarificar os vazios que deixámos de preencher, a agilizar processos e a coordenar melhor. Mas pode, recusando este nível de benevolência, contribuir para a espiral de fechamento nacional, isolamento social, quebra estrutural na confiança política, deslace das organizações internacionais, num rodopio de decisões avulsas e sem noção dos impactos. Em grande medida, a última década já tinha todos estes condimentos, acelerados por várias crises sequenciais ou entrelaçadas, com a temperatura a crescer desde os choques tectónicos de 2016 nos EUA e no Reino Unido. Com a crise global do coronavírus, trepámos em definitivo para a corda bamba que separa esses dois universos. As escolhas são por isso transparentes: ou construímos o mais possível em conjunto, ou definhamos cada um por si. O resultado desta equação é, no entanto, ainda indefinido, o que tempera juízos muito perentórios e impede análises definitivas. Futuristas de todo o mundo, acalmem-se.

Neste último mês, apesar do dramatismo e das profecias apocalípticas, o Conselho Europeu reuniu três vezes, tantas quanto o Eurogrupo, o G7 uma, e o G20 uma, encontro que teve presentes a Organização Mundial do Comércio, o Banco Mundial, o FMI, a Organização Mundial do Trabalho, a OCDE, a ASEAN, a União Africana e a Organização Mundial de Saúde. Não se pode dizer que os fóruns de organização coletiva das várias dinâmicas da globalização não estejam ativos, mobilizados e prontos a enfrentar a pandemia e a depressão económica. E mesmo os que desdenham estes mecanismos de cooperação disseram presente, cada um à sua maneira. O que não se pode é alimentar a expectativa de que organizações, culturas políticas e recursos do passado sejam a salvação de uma crise colossal como a do presente. Uma paralisação económica autoimposta nas economias mais desenvolvidas, em tempo de paz e a contraciclo, precisaria sempre de recursos sem paralelo para conter os seus danos imediatos. Pensar que todos estariam alinhados para corresponder à pressão dos números é não perceber como o mundo político está nem como as principais instituições multilaterais operam. Exigir que organizações sem competências e recursos (como a UE em questões de saúde pública), sem estruturas permanentes (como o G20 desde a sua fundação no pico da crise de 2008-2009), sem instrumentos completos de atuação rápida e legitimidade reforçada (como o Eurogrupo), sem representatividade global na estrutura de decisão (como o Banco Mundial e o FMI) ou sem base jurídica para lidar com crises de segurança em sentido mais lato (como o Conselho de Segurança da ONU), é pura e simplesmente sonhar em adaptar por artes mágicas o mundo de ontem ao de amanhã. As organizações internacionais são sempre aquilo que os Estados quiserem que elas sejam. Nem mais, nem menos.

A discussão que devíamos estar a acelerar, em paralelo ao desenho das soluções económicas, logísticas e políticas de curtíssimo prazo - muitas delas excessivamente clássicas para a disrupção vigente - era o que estamos dispostos a preservar e a transformar na arquitetura institucional fundada no pós-guerra para conseguir lidar mais eficazmente com a próxima etapa da globalização fundada no pós-covid. Todos os que entendem ser fundamental adotar soluções concertadas e assentar as democracias numa rede multilateral mais sofisticada devem estar disponíveis para acelerar este debate. Os outros, como se está a ver, seja por mentira, omissão ou irresponsabilidade, sofrerão impactos mais profundos e avassaladores. São, se quisermos, reféns do próprio veneno, de um desdém internacionalista, de uma bazófia narrativa, de um desprezo pela ciência. Como se um vírus como este tivesse nacionalidade ou escolhesse vítimas em função da cor do cabelo ou do número de zeros na conta bancária. A desocidentalização em curso, para mais sem liderança capaz e aceite (por isso as presidenciais americanas são tão vitais), é também uma das causas do nosso pobre contributo para nos adaptarmos ao covid e sobretudo ao pós-covid. Em abono da verdade, tem sido sobretudo a China o principal contribuinte desses debates nos últimos anos. O ocidente manifestamente cristalizou as suas ações, tem sido excessivamente corporativo e curto no alcance estratégico das suas propostas. Ou ausência delas. Pequim criou novas instituições financeiras, envolveu parceiros à escala global, passou a atuar mais assertivamente em muitos fóruns e a beneficiar da estabilidade mínima por eles proporcionada. Isto tem sido evidente na acomodação à sua imponente ascensão industrial e comercial, na preponderância conquistada nos principais fluxos energéticos, na sua capacidade financeira, na sua nova autoridade militar. A influência política vem por acréscimo.

Vítor Higgs (Ilustração) / Nuno Santos (Animação) / DN

Ao invés, no Ocidente, não fomos sequer capazes de acordar durante doze anos uma imprescindível recauchutagem de um espaço com moeda comum. Já o nosso desalinhamento analítico é ilustrado pelo crónico ângulo sobre a Alemanha ao comando dos inflexíveis, o que hoje nem corresponde à realidade. Embicámos com a reforma do Conselho de Segurança sem perceber sequer a natureza das suas limitações estatutárias. Não fomos sequer perspicazes para afinar competências e recursos à altura de uma crise superior à anterior, seja em sede de orçamento comunitário seja no modelo de governação de um mercado comum - há um mês estávamos a discutir décimas acima de 1% do PIB comunitário. E aqui nem menciono o carácter estruturalmente político da integração europeia para não sublinhar as dissonâncias nacionais insanáveis, refiro somente a dimensão consensual e mais utilitarista com que os Estados-membros olham para o benefício de pertença à União.

Na Europa, todos conhecemos as disfuncionalidades, frustrações e ansiedades coletivas. Não é isto que é novo. É, aliás, enraizadamente cíclico. O que a globalização do covid nos diz é que não é mais possível preparar o dia seguinte olhando fixamente para o retrovisor. Até porque ele permanece desalinhado há demasiado tempo.

Investigador universitário

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