Misadventure

Por estranho que pareça, Amy Winehouse morreu numa altura de relativa tranquilidade na sua vida.

Na véspera, a mãe foi lá a casa. Respirou fundo ao subir as escadas, viu as garrafas de vinho branco vazias espalhadas à entrada. O guarda-costas abriu-lhe a porta, disse que ela tinha estado a beber. Ouviu murmúrios no andar de cima, ele pusera-a tomar banho e arranjara-lhe o cabelo, um penteado magnífico, a sua imagem de marca. A espera habitual até que ela descesse. A mãe fechou os olhos, respirou fundo outra vez.

Passada meia hora, ela desceu, um aspecto miserável. Reparou que também a mãe tinha estado a ver as fotografias dos tempos felizes, a sua infância retratada a cores, espalhada aos pedaços pelo chão da cozinha. Sentaram-se as duas a ver fotografias, o rosto dela iluminou-se por momentos ao contemplar o irmão Alex em criança. Passada meia hora, a mãe percebeu que era tempo de ir embora e a deixar descansar: a cama era o melhor refúgio sempre que estava assim. Disse-lhe palavras de circunstância, censurando-a pelo que estava a fazer a si própria, ela pediu o habitual perdão, fizeram ambas declarações de amor, despediram-se com emoções intensas e um abraço apertado.

Janis não se lembra bem do que pensou ao regressar a casa nesse dia, com o espírito ainda turvado pelas fotografias da infância dela e de Alex. Mas lembra-se de na manhã seguinte lhe telefonarem para a casa a dizer que a filha estava morta. Amy Jade Winehouse nasceu a 14 de Setembro de 1983 e morreu às primeiras horas da manhã de 23 de Julho de 2011. Aos 27 anos, portanto, a mesma idade que a sua mãe tinha quando a deu à luz.

O guarda-costas passara pelo seu quarto por volta das três da madrugada, notara que ela estava imóvel desde a última vez que a vira, eram dez da noite. Tentou reanimá-la sem sucesso, ligou para as emergências, vieram duas ambulâncias até à casa em Camden, Amy Winehouse foi declarada morta no próprio local.

O exame post mortem foi inconclusivo e a polícia afirmou que era incapaz de determinar a causa formal da morte sem antes serem realizados testes toxicológicos que demorariam duas a quatro semanas. Os testes concluíram que o corpo não tinha quaisquer vestígios de substâncias ilegais, confirmando o que a família sempre dissera, contra tudo o que surgia na imprensa maldosa e tenebrosa: Amy livrara-se há muito do vício das drogas, não consumia estupefacientes há cerca de três anos. Os exames mostraram, porém, uma dose brutal de álcool no sangue. O médico patologista disse à família que 350 miligramas de álcool por 100 miligramas de sangue era uma percentagem considerada fatal. Amy Winehouse tinha 416 miligramas de álcool por 100 miligramas de sangue. Cinco vezes mais do que o limite legal para conduzir um veículo na via pública.

Estranhamente, a autópsia revelou que os seus órgãos vitais mantinham-se intactos e que o fígado não mostrava quaisquer danos. Anos antes, em 2008, o pai dissera aos jornalistas que a filha sofria de enfisema pulmonar, que os pulmões só operavam a setenta por cento da sua capacidade e que o batimento cardíaco era irregular, atribuindo esses males à inalação desmedida de cigarros de crack. Essa não era, porém, a causa do óbito, que foi oficialmente atribuída a misadventure, ou seja, morte acidental devido a um comportamento voluntário de risco.

Para que não restassem dúvidas, a polícia informou que no quarto dela, junto à cama, tinham sido encontradas duas garrafas de vodca de grande dimensão e outra mais pequena, todas vazias. A adicção alcoólica de Amy não era, de resto, segredo para ninguém, e a imprensa maldosa e tenebrosa fazia questão de falar dela muito para lá dos limites da decência razoável. Também a cantora, é certo, o mostrava exuberantemente nos palcos e fora deles.

No mês anterior à sua morte, iniciou uma tournée europeia que começou desastrosamente em Belgrado, com Amy a beber antes sequer de entrar em palco, onde se esqueceu das letras das músicas, caiu ao chão, virou as costas ao público em fúria, mas insistiu em cantar, um espectáculo deplorável que a mãe ainda hoje se recusa a ver no YouTube. Depois, foi a Turquia, mas o manager decidiu cancelar toda a digressão. O namorado de Amy, o escritor e realizador Reg Traviss, foi ter com ela a Istambul, onde passaram uns dias antes do regresso Londres.

Por estranho que pareça, Amy Winehouse morreu numa altura de relativa tranquilidade na sua vida, em que, ultrapassado o trauma da conturbadíssima relação amorosa com Blake Fielder-Civil, estava feliz e serena, e a tentar, uma vez mais, livrar-se do álcool, segundo as recordações dos mais próximos (quer a mãe, Janis, quer o pai, Mitch, publicaram as suas memórias, Loving Amy. A Mother's Story e Amy, My Daughter, respectivamente).

Como sempre sucede nestas situações, o caminho não era fácil e aquela foi uma Primavera complicada para ela: os amigos que a visitavam ora a viam em estado comatoso, caída no chão, em monólogos que ninguém percebia, com esgares horríveis, ora a encontravam sóbria e desperta, cheia de projectos e alegria. Uma vez, ao entrarem em casa, deram com Amy sentada junto à bancada da cozinha, a cabeça tombada sobre o lava-loiças. Noutra ocasião, tiveram de a levar para o andar de cima e metê-la no chuveiro, com o corpo, as unhas e os cabelos cobertos de sujidade. Uns dias era agressiva e insuportável, noutros parecia uma criança, a chuchar no dedo e com voz de bebé. Então, passava horas sentada ao colo da mãe ou do pai, um desamparo completo.

No final de Março, a sua médica escreveu-lhe, dizendo que a sua tiróide estava quase sem funcionar, diminuindo drasticamente a produção de hormonas, o que não só contribuía para agravar a depressão como poderia ter efeitos a prazo na fertilidade e na condição cardíaca. A médica referiu ainda que, provavelmente, Amy teria de tomar medicação para o resto da vida e que, ao invés de cortar repentinamente a bebida, deveria reduzi-la aos poucos, sem traumas abruptos.

No início de Abril, Amy decidiu outra vez internar-se numa clínica de Londres, mas saiu de lá ao fim de quatro dias para mergulhar a fundo no álcool, sem que os familiares, desesperados, pudessem legalmente fazer o que quer que fosse para impedir o salto mortal. Um dos guarda-costas contou aos pais que numa noite ela acordou às três da madrugada para beber uma garrafa inteira de vinho e tombar no sono, para acordar de novo às oito da manhã e beber outra garrafa inteira, ficando prostrada no chão da cozinha. Noutro dia, mais sóbria, Amy levantou a T-shirt para mostrar a barriga ao filho do padrasto, exibindo a pele amarelada em redor do fígado, e desde então o rapaz, apavorado, deixou de querer abraçá-la, com receio de a magoar.

Apesar disso, Amy tinha momentos de lucidez e manifestava vontade de mudar: recomeçara aos poucos a praticar yoga e, em Maio, aceitou ser internada numa clínica para tratamento psiquiátrico, após uma acalorada discussão em que chegou a tentar agredir o médico que lhe aconselhara o internamento.

A 24 de Maio, a autora de Rehab foi transportada para a clínica Priory, mas logo no caminho pediu para fazer uma paragem para comprar uma garrafa de vodca, que ingeriu num ápice até chegar ao destino. Aí, demorou mais de duas horas a acalmar-se e a preencher as fichas de admissão. Ficou poucos dias na clínica Priory, até 31 de Maio, saindo às pressas, numa correria frenética, gesto que horrorizou os pais e os amigos, legalmente inibidos de agir contra a sua vontade. De acordo com a sua mãe, o facto de ter conseguido livrar-se do vício das drogas não ajudava, pois criara em Amy a falsa convicção de que, quando e se quisesse, poderia também vencer facilmente a adicção ao álcool.

Não conseguiu, misadventure. Sucessivos inquéritos concluíram que Amy Winehouse morrera por envenenamento alcoólico, passando a integrar o bizarro 27 Club, a lista das estrelas que, por uma singular coincidência, morreram aos 27 anos, e da qual fazem parte Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis Joplin ou Jim Morrison.

Essa não foi, porém, a maior distinção que Amy conheceu após morrer, já que o seu desaparecimento levou a um incremento colossal das vendas dos seus discos, fazendo-a entrar para o Guinness como a mulher com o maior número de singles no top musical do Reino Unido.

Não era a primeira vez, de resto, que Amy Winehouse entrava no Guinness: em 2009, ao arrecadar cinco Grammys com o álbum Back to Black, tornou-se a cantora britânica a conquistar o maior número daqueles galardões, a que se somaram outros recordes, vários, que não a resgataram de um destino trágico, para o qual nunca é fácil encontrar uma só causa. Em entrevistas, a própria dizia ser maníaco-depressiva e afiançava que o alcoolismo era um mero e passageiro acidente.

A influência perversa do seu namorado Blake Fielder-Civil, que a fez mergulhar nas drogas duras e com quem se casou em 2007, contribuiu decerto para a queda final, tanto ou mais do que a morte, no ano anterior da sua avó paterna, Nan, uma figura tutelar que tivera um papel decisivo na sua formação após o divórcio dos seus pais, ocorrido quando Amy tinha 12 anos, e que teve sobre ela efeitos devastadores, jamais superados.

Na verdade, foi depois da morte da avó Nan que começaram a acumular-se os problemas de toxicodependência e alcoolismo, a agressividade brutal, as explosões de raiva que a faziam recorrer à violência física e a agredir diversas pessoas, o que lhe valeu ser detida e presa em Abril de 2008 e levada a tribunal em Março do ano seguinte.

Foi absolvida pela justiça, mas não perdoada pela opinião pública. A imprensa da altura chamou-lhe "anti-Diana" ou "queen of dark" e poucos já achavam graça à permanente rebeldia da diva feroz.

Em 2008, o economista italiano Antonio Maria Costa, falando na qualidade de responsável pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, apresentou-a como um mau exemplo de glamorização da toxicodependência, numa altura em que uma sondagem aos jovens do Reino Unido a apontava como a "última heroína" do país e em que Amy Winehouse chegou a conseguir que um tribunal emitisse uma injunção contra a agência de paparazzi Big Pictures, cujos repórteres foram proibidos de se aproximar dela ou da sua família. Para a proteger da devassa da imprensa sensacionalista, para a qual as atribulações da sua vida pessoal eram uma mina de ouro, os fotógrafos foram igualmente proibidos de se aproximar a menos de 100 metros da sua casa de Londres ou das casas dos seus familiares e amigos.

A bulimia agravou-se de forma exponencial e, no final da vida, o estômago de Amy só suportava alimentos leves e fáceis de ingerir, como alguns frutos ou ovos mexidos, nada mais.

Tamanha degradação quase fazia esquecer a trajectória brilhante de uma das mais notáveis compositoras e de uma das mais geniais intérpretes musicais do século XXI. Nascida numa família judaica do norte de Londres, Amy cresceu num ambiente impregnado de música: Mitch, o pai, era motorista de táxi e cantor amador, um fã fervoroso de Frank Sinatra e de Tony Bennett (e não deixa de ser curioso notar que um dos últimos êxitos dela, lançado postumamente em Setembro de 2011, tenha sido Body and Soul, em dueto com Tony Bennett, que a descrevera como a maior cantora desde Ella Fitzgerald); a mãe, Janis, esteve envolvida nos meios artísticos quando namorou o lendário músico e dono de clubes de jazz Ronnie Scott; o irmão Alex era igualmente um apaixonado por música, e foram os seus dotes à viola que a incentivaram a aprender a tocar (a sua primeira viola foi uma Fender Stratocaster, que a cantora sempre disse ser a sua favorita, ainda que noutras ocasiões tenha afirmado que preferia a Gretsch White Falcon).

A vida escolar foi calma, previsível, mas às tantas Amy começou a aborrecer-se com a escola e a achar o ambiente insuportável, castrador. A separação dos pais, tinha ela 12 anos, deixou marcas profundas, com a mãe a tentar, sem êxito, moderar os ímpetos da adolescência à solta, que a faziam usar maquilhagem e saias cada vez mais curtas.

Perdeu a virgindade aos 15 anos - e dar esta informação não fere o bom gosto nem a sua intimidade, porquanto foi a própria Amy que falou do assunto numa de muitas entrevistas confessionais. Também por essa altura, a da adolescência difícil, Amy tornou-se entusiasta fervorosa do wrestling americano e adepta de shows como SmackDown ou Raw.

Há versões contraditórias sobre se foi expulsa da escola, convidada a sair ou se tal gesto resultou de uma decisão sua e da sua mãe, mas o certo é que Amy foi estudar para a Mount School, em Mill Hill, num ambiente mais artístico e vanguardista. Iniciou-se aí na marijuana e no progressive rap, tendo como ídolos Mos Def, Busta Rhymes e, acima de todos, Nas.

Mais tarde, naquele que foi um passo decisivo para a sua carreira, iria estudar para a BRIT Performing Arts & Technology School, em Croydon, o sucedâneo britânico da New York High School for the Performing Arts, celebrizada na série Fame.

Além da formação musical, foi na BRIT que Amy se deixou seduzir pelas tatuagens: a primeira que fez foi uma figura de Betty Boop nas nádegas, mas muitas outras se seguiram, sendo essa uma das suas imagens de marca, a par do penteado-colmeia, em beehive style, moda lançada na década de 1950 por uma cabeleireira do Illinois e celebrizado no cinema por Audrey Hepburn (Breakfast at Tiffany's) e na televisão por Marge Simpson (The Simpsons).

O penteado-colmeia, todavia, só surgiu numa fase mais adiantada da sua carreira, após o lançamento do primeiro álbum, Frank, em Outubro de 2003. O disco muito ficou a dever ao talento ímpar do produtor Salaam Remi, que já antes tinha trabalhado com o rapper Nas, um dos ídolos maiores de Amy Winehouse.

Frank levou algum tempo a conquistar as graças do público, mas a honestidade criativa e o carisma cintilante de Amy já aí eram patentes, bem como o seu repertório lírico, com letras sobre os dramas da masculinidade (Stronger Than Me), rejeições amorosas (You Sent Me Flying), a perda da frescura da juventude (Fuck Me Pumps), traições e mentiras (I Heard Love Is Blind) ou rupturas sentimentais (Take the Box).

Uns disseram que o disco era um encontro de Nelly Furtado com Billie Holiday e a crítica do The Guardian escreveu que ele se situava algures entre Nina Simone e Erykah Badu, talvez não percebendo que Amy Winehouse chegara para conquistar o mundo da pop por direito próprio, com uma miríade de influências poderosas, é certo, mas sem pedir autorização a ninguém. Frank foi nomeado para duas categorias dos prémios BRITS e, mais do que isso, para o prestigiado galardão Ivor Novello.

Seguiu-se Back to Black, em 2006, um imediato sucesso internacional de grande magnitude, ao qual pertencem êxitos inesquecíveis como Rehab, Valerie, Tears Dry on Their Own ou Loving Is a Losing Game.

Nas 24 horas subsequentes ao anúncio da morte da diva, Back to Black disparou em flecha até chegar ao primeiro lugar do iTunes, onde permaneceu muito tempo. Como ela, Amy Jade Winehouse, morta aos 27 anos - de misadventure.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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