A pobreza mata

Nesta semana, na crónica semanal que tenho na TSF, chamei a atenção para a necessidade de nos preparamos para a circunstância de o covid-19 poder regressar em novos surtos mesmo se controlada a pandemia, nomeadamente no próximo inverno. E essa preparação envolvia, na minha opinião, a necessidade de estudar outras formas de reação, desta vez com tempo, aos terríveis efeitos deste vírus.

No fundo, encontrar formas de compatibilizar a proteção das pessoas contra o vírus com a proteção das pessoas contra o descalabro económico de uma economia fechada, em lockdown, vários meses por ano. Há quem esteja a estudar e a pensar nisso, e apontei exemplos ponderados dessa reflexão.

Em reação a essa crónica, recebi violentas críticas, até de pessoas que me são politicamente próximas, por estar alegadamente a minimizar os efeitos deste vírus, quase como se eu fosse um negacionista e estar aparentemente mais preocupado com a economia, com o dinheiro, como que me perguntando: que importa a economia e o dinheiro se não houver pessoas para nela se movimentarem e gastarem, mortas ou afetadas pelo vírus?

Compreendo que estes tempos de agonia e dúvida nos mobilizem para o combate presente, urgente, contra o vírus. E estou entre os que concorda com, e aliás pratica, o isolamento social - a forma adequada de reagir com o tempo que dispúnhamos para o fazer. Sucede que não posso ignorar que temos algum tempo para preparar o inverno, nem posso ignorar os efeitos de uma economia obrigada a paralisar-se por meses.

E quero ser muito claro nisto: a pobreza mata. Se em resultado de uma crise económica violenta, ainda para mais global, virmos o nosso tecido produtivo e industrial fechar ou definhar, ficarmos com desemprego galopante, sujeitando famílias a insuficiência de recursos, não tenhamos qualquer dúvida de que estaremos a empurrar pessoas para causas de morte.

Porque a pobreza mata, e mata muito: sem acesso a medicamentos, sem acesso a bens de primeira necessidade, sem acesso a habitação condigna, sem acesso a rendimento que vá para além do mínimo que as prestações sociais podem assegurar, sem empresas a funcionar e a empregar, sem cadeias de distribuição a funcionar, sem comércio global, não haja qualquer dúvida de que as consequências serão também causa de morte, além do desespero e da corrosão do nosso tecido social.

É por isso que compreendo muito bem o primeiro-ministro, e acho positivo que o tenha expressado por mais do que uma vez, quando este refere a necessidade de proteger a economia. Não se trata de proteger empresários ou o dinheiro: trata-se de evitar a pobreza, que é uma enorme causa de morte. E como o Banco Mundial há muito reconhece, proteger a economia é também proteger os mais pobres: o rendimento dos 40% mais pobres de um país tende a crescer ao mesmo ritmo que o rendimento médio desse país.

O combate ao vírus e à crise económica não são excludentes e a preocupação simultânea com ambos é sinal de responsabilidade e preocupação social.

Advogado

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