A grande sesta

Este isolamento, quarentena, distanciamento, contenção, chata da curva, todos dentro ninguém sai, só para ir à rua, passeio higiénico, papel higiénico, não se pode tocar só olhar, mas olhar sem tossir, que o bicho viaja em cada espirro, não vá a ejaculação viral simultanear com um bocejo do outro lado da rua e pumba, golo, mais uma carga dos trabalhos viral. Mais vale em casa, com os trabalhos de casa, que já não são para, são de, que só há casa, mas sem possibilidade de TPE, trabalhos para a escola, que os trabalhos para casa antes eram os deveres, agora são trabalhos, mas sempre foram uma forma de passar a batata quente da escola para casa, uma vingança dos professores aos pais por terem de lhes tomar conta dos selvagens mais do que eles, agora era justo ser ao contrário, toma lá Manel, isto é para resolveres lá na escola com a professora, quando acabar o covid, ou este isolamento, autoisolamento, auto porque somos todos democracias, isolamentos forçados é lá na China, cá é uma mera recomendação, mas o português cumpre, adora cumprir, sente no cumprimento o único eugenismo a que pode dar-se ao luxo, respeitinho pelo covid, quietinho, dois metros de distância, e para a cama cedo, tudo a fazer covid, covid sem conchinha, ou conchinha com os parceiros de isolamento, que conchinha não está proibido, nem desrecomendado, a não ser que alguém que ande na vadiagem traga covid para casa, e depois é o cargo dos trabalhos - lá estão os trabalhos mais uma vez - porque tem de se ficar em isolamento sem conchinha, a ver tudo da janela, tudo mesmo, da janela da casa e da do telefone, mas mesmo deste convém algum distanciamento, refrear as coisas, não pode ser à vontadinha como dantes, não vá o covid tecê-las agora por cinco gê, os especialistas já disseram que não sabem como vai o bicho comportar-se, que o português é diferente do chinês, o chinês é diferente do italiano e o italiano do espanhol, e o espanhol infelizmente é todo igual dentro das fronteiras, tanto morre o catalão como o andaluz, mas é malta que não se fica, que em Espanha dá sempre com mais força, li ontem que por lá abundam os polícias de varandas, até já há a expressão, e que em La Línea, linha estreita, a mais estreita de todas, quem chega a Gibraltar, tentaram agredir uns velhotes que chegavam com o covid, e até houve bombas e outros desacatos, tudo à conta do covid, que a juventude é irrequieta e já está quieta por determinação superior há mais dias do que a conta, já deve ter visto a Netflix toda duas vezes e concertos grátis pela net também já não se aguenta, agora é vir para a rua malhar, nos ancianos, melhor do que estar a aturar a família, quem sabe bem disso é a vice da Saúde britânica, que disse que os casais que vivem separados, não os casais separados - isso é outra coisa -, podem aproveitar o covid para testar a força da sua relação (sic) e fazer a experiência de viver um com o outro na mesma casa, vai correr bem Dra. Jenny, vai correr bem, vamos ficar todos bem, não é?, tudo a fazer contas de cabeça entre os engulhos do quotidiano, a abstinência forçada e o risco de cada escapadela a furar a quarentena, não a quarentona como escapou em direto a um insigne catedrático no outro dia na televisão, quadrado renascido convertido em boletim clínico declamado por pivôs evangélicos, famílias fechadas em frente à televisão, isso mais os riscos do sexo dentro do casamento, dos serões em família, em cada português dois epidemiologistas e três estatísticos, imaginem todos na mesma casa, por quanto tempo mais, a pergunta que todos fazem, sem saber o que os espera lá fora, tudo a fingir que não leu que foram mais de três milhões e meio de americanos a pedir o desemprego só numa semana, mas nesta semana a Assembleia da República aprovou finalmente o que dela se esperava, uma recomendação ao governo sobre a importância da sesta e que se faça um estudo que deve "incluir ponderáveis como a transversalidade da aplicação da sesta" mas sempre, parece, na garantia do "princípio da não obrigatoriedade da sesta", e reconfortado por o Parlamento mostrar que há vida para além do covid, o melhor é terminar o texto, que estamos é todos metidos numa grande sesta, numa granda cesta, uma cesta de arames, que não é obrigatória, mas é, e é mas é melhor voltar para o covid e aproveitar o resto desta sexta, ou cesta, ou sesta, ou lá o que é.

Advogado

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